“100 Frases” de Içami Tiba

Os japoneses, como sabemos, são um povo solene e respeitoso no trato com as pessoas. Falar baixo, inclinar a cabeça e entregar o cartão de visitas com as duas mãos estão entre as principais recomendações para quem viaja, pela primeira vez, ao País do Sol Nascente.
Outra recomendação importante é que se acrescente o sufixo “san” ao nome próprio de alguém em sinal de respeito, e isso acontece principalmente quando você não tem intimidade com a pessoa, ou quando quer demonstrar reverência pela posição ou autoridade que ela representa.
Pelos amigos, o nissei Içami Tiba, nascido em Tapiraí, interior de São Paulo, há 74 anos, sempre foi chamado através de seu personalíssimo sobrenome. Para nós, que tivemos o privilégio de conviver com esse homem especial, o doutor Içami Tiba era, simples e carinhosamente, o Tiba. “Liga pro Tiba”; “pergunta ao Tiba”; “chama o Tiba” eram frases extremamente comuns. Atualmente falamos “saudades do Tiba”…
Mas havia as ocasiões em que não conseguíamos esconder aquele clássico respeito oriental – e então o chamávamos de Tiba-san. Isso acontecia quando, no meio de uma conversa, em geral despretensiosa – um simples papo entre amigos – ele soltava uma de suas pérolas. Uma daquelas frases que fazem pensar. Que sintetizam e simplificam um pensamento complexo. Que têm destino certo no momento apropriado.
E agora, muitas delas estão nesta coletânea preparada por sua família como um resumo do legado desse grande psiquiatra, educador, escritor e comunicador brasileiro.
Conheci pessoalmente Içami Tiba em uma viagem de avião entre Salvador e São Paulo no início da década passada. Um atendente do balcão de check-in, provavelmente chamado “Acaso da Silva”, nos colocou lado a lado na classe executiva (que havia na época mesmo em voos domésticos), porque ambos éramos passageiros frequentes e recebíamos esse upgrade como deferência pela fidelidade. Mal sabia ele o tamanho do upgrade que estava me dando naquele dia.
Decolamos na capital baiana como estranhos e pousamos em Congonhas como amigos de infância. Foi amizade à primeira vista. Normalmente monótonas, as duas horas e meia de viagem nunca passaram tão rápido.
Quando ousei me dirigir a ele dizendo-me seu admirador, recebi como resposta um sorriso largo e demorado e a informação que ele também me conhecia por artigos e por amigos comuns; e que também era meu admirador. Sabe aqueles momentos que valem o dia? Ou a semana? Pois aquele foi um deles.
O avião ainda taxiava na pista e já tínhamos intimidade para brincar. “Sempre tenho medo quando o avião decola”, comentei. “Pois eu tenho medo é de que ele não decole”, respondeu rápido o japonês. E  emendou: “Ele foi feito para decolar. Se não decola, não está obedecendo à sua natureza e, nesse caso, a culpa não é dele, e sim de alguém que não fez o seu trabalho”.
Essa frase, que seria banal para qualquer outra pessoa numa conversa despretensiosa, transformou-se, com o Tiba, em uma discussão filosófica sobre a natureza das coisas e das pessoas.
De aviões, rapidamente passamos às crianças. “As crianças têm duas qualidades em sua natureza que permitem que elas se tornem adultos e também voem: amar e aprender”, me explicou. “Mas essa natureza infantil só se realiza se tiver o estímulo dos pais, através de ações e exemplos. Para a criança, a educação será suas turbinas”,  completou.
A partir daquele momento, eu tive vontade de me calar, colocar-me na posição de aprendiz atento, um pequeno gafanhoto devorador de experiências de um mestre, absorvendo apenas o que ele dizia daquela forma peculiar, de falar sério brincando. É claro que ele não permitiu. Queria conhecer minhas ideias também. Ouvia atento e as validava.
Nossos pensamentos combinavam quase que inteiramente. Afinal, ambos éramos médicos e ambos éramos apaixonados pelo tema da educação. Tínhamos visões convergentes sobre a influência da genética na aprendizagem, sobre as fases da evolução biológica – de que Piaget também falava – e, principalmente, sobre o efeito espetacular que uma educação séria e amorosa exerce sobre uma criança, um jovem e mesmo sobre um adulto.
Quando lançou seu livro mais famoso, Quem ama, educa!, Tiba-san estabeleceu, já no título, a forte relação que há entre afeto e aprendizado, entre paternidade e responsabilidade, entre emoção e razão e, claro, entre amor e educação.
Mesmo tendo eu sido professor por, pelo menos, quatro décadas, foi o Tiba que me fez perceber, em uma de nossas conversas, que não é possível ser bom professor sem amar a matéria que se ensina, amar a sala de aula, amar ensinar. “O aluno percebe muito rápido se você não tem amor pelo que ensina”, sintetizou. “Como é que ele vai aprender a amar o conhecimento que você não ama?”, perguntou uma vez.
Esse é o Tiba de quem sentimos tanta falta. Ele nos ensinava com suas afirmações, mas  também com suas perguntas.
Como admirador de Içami Tiba, conheço muitos de seus conceitos sobre os temas de educação, família e performance humana. E o admiro por isso. Mas, como seu amigo, conheço outro lado, o do bom humor. Por isso, aprendi a gostar dele ainda mais.
Em uma conversa com o Tiba, você tinha que estar atento às suas pegadinhas linguísticas. Nem sempre o que ele dizia é o que ele queria que você entendesse. Atenção e inteligência interpretativa eram condições essenciais para a convivência com ele. Se ele dissesse que estava com “cócegas no sangue”, é porque estava empolgado com alguma coisa, uma ideia, um projeto.
Quando, certa vez, me disse que precisava de “uma dose de endorfina”, fiquei em dúvida se ele estava necessitando de uma taça de vinho, de uma conversa amiga ou de um projeto novo. Quem sabe queria as três coisas.
Ás vezes ele dizia o óbvio, porque percebia que o homem moderno, hiperinformado, ao tentar (a todo custo) intelectualizar sua observação do mundo e suas relações, desdenhava e esquecia-se do óbvio, do fundamental.
Em um almoço de inverno em sua chácara em Cotia – seu lugar predileto no mundo, onde frequentemente se isolava para escrever –, conversávamos sobre o dia, e eu comentei: “Que pena que é um domingo sem sol”.
Nesse momento ele desviou os olhos do tanque de carpas, olhou lentamente para cima e disse com calma: “Claro que tem sol. Só que ele está atrás das nuvens”. Óbvio, pensei. Quando me olhou novamente, emendou: “Não deixe que as nuvens deixem seu cristalino opaco. São nuvens, não cataratas”. Assim, precisei associar oftalmologia, psicologia e filosofia para entender sua mensagem. Como esquecer?
Tiba era capaz de escrever sobre liberdade e disciplina (Disciplina, limite na medida certa), chamando nossa atenção para a importância desses dois valores, especialmente quanto à educação das crianças, mas também da condução de nossa vida adulta. Para tanto valia-se da mesma  naturalidade com que analisava as diferenças entre homens e mulheres (Homem cobra, mulher polvo). As diferenças, as nuances e as linhas limítrofes eram temas que lhe interessavam. Que lhe faziam cócegas no sangue.
Era intransigente com confusões que as pessoas fazem com frequência e que prejudicam enormemente suas vidas. Insistia em que não devemos confundir liberdade com libertinagem, autoridade com autoritarismo, dar afeto com sufocar, repreensão com repressão. Entender as diferenças entre essas posturas e aplicá-las adequadamente – desenvolvendo algumas, livrando-se de outras – estava na base de sua terapia extremamente libertadora pela simplicidade.
Dizia acertadamente que o comportamento do jovem na sociedade vai reproduzir o comportamento que teve em casa quando criança. Por isso insistia: Quem ama, educa – mas não mima. Crianças mimadas em excesso, poupadas dos pequenos sofrimentos do cotidiano e das responsabilidades crescentes, tornam-se adultos “folgados”, que esperam do mundo mais do que estão dispostas a dar a ele. Ou seja, Tiba não queria cidadãos com grande tendência ao fracasso e à falta de ética. “Nutrir, sim, hipersaciar, jamais”. OK, mestre.
Diferenças entre homens e mulheres? Bem, as principais não estão nas formas, estão nas gônadas, nos hormônios sexuais, que condicionam o pensar, o sentir e o agir. Mas em um mundo em que se fala de igualdade, de feminismo, Tiba era radical. Respeito ao máximo, igualdade de oportunidades sempre presentes para os gêneros. Enquanto que, sexismo e assédio, estes sempre são atos de covardia e injustiça. E quanto às diferenças, que bom que elas existem, dizia ele. Devem ser aceitas e até cultuadas, pois é exatamente delas que nasce a diversidade, e a própria vida.
Um exemplo? “Se Adriana, Silvana, Débora e Luciana vão almoçar juntas, elas chamarão umas às outras de Dri, Sil, Dé e Lu. Se Leandro, Carlos, Roberto e João saem juntos, vão se chamar de Gordo, Cabeção, Rato e Negão. Entendeu ou quer que explique?” Sua pedagogia era assim, clara e ancorada no cotidiano, transmitida com exemplos e extremo bom humor.
O mestre Tiba-san  gostava mesmo é de ser chamado de aprendiz. E não por modéstia ou autodepreciação, longe disso. É que ele estabelecia uma profundíssima conexão entre a capacidade de continuar aprendendo e a competência para ensinar. “Quem parou de aprender não tem mais autoridade para ensinar”, teorizava.
“Todo ser humano é um educador em potencial, pois já nasce aprendiz. Se ninguém lhe ensina nada, aprenderá com as próprias experiências”, dizia ele, alertando para o fato de que todos nós (mas principalmente as crianças) aprendemos muito com o ambiente em que vivemos – através da interação com as atitudes das pessoas e com os valores predominantes. Aprender é próprio da espécie humana, e a função dos pais e dos educadores é a de direcionar esse fantástico potencial para que ele não seja desperdiçado.
Especialista em jogos de palavras, dizia que há pessoas que dão “passos além”, enquanto outras apenas “marcam passo”. A oposição é autoexplicativa.
Seu legado intelectual, explícito nos mais de trinta livros que escreveu, é imenso, mas ouso dizer que não faz justiça ao homem, pai e amigo que ele foi.
Esta coletânea de frases e pensamentos é o mosaico de um cérebro privilegiado, fértil, responsável e feliz. Mostra a diversidade de seu pensamento, a profundidade de sua visão e a simplicidade de sua interpretação.
Você tem em mãos mais de cinquenta anos de estudo, vivência e dedicação profissional representados por frases precisas e simples. Aproveite. E aprofunde-se nas ideias de Içami Tiba, um dos mais importantes pensadores da psicologia educacional de nosso tempo.
 
Eugenio Mussak
Médico, professor e escritor

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