A aventura da rotina

Mais um dia estava começando. Era final de junho e fazia frio. Apesar disso resolvi sair a pé pelas ruas de Curitiba às sete horas da manhã em direção ao colégio. As aulas começavam às sete e meia em ponto, eu caminharia uns vinte minutos e ainda tomaria uma xicara de chá-mate antes de começar a primeira aula do dia. O tema seria o Evolucionismo, a aventura de Darwin, a chaga mais profunda no Narciso que a humanidade carrega dentro de si, arrogante, considerando-se a escolhida e a superior sobre as outras espécies. Coube ao inglês nos informar que também somos bichos, e que a Natureza não nos pertence, nós é que pertencemos a ela. Será que eles entenderiam?

Enquanto caminhava esfregava as mãos buscando o calor do atrito e puxava para baixo o gorro de lã que teimava em subir deixando as orelhas desprotegidas. Para quem foi criado na capital do Paraná, dias frios são rotina. No final do verão os curitibanos até desejam o ar gelado e reconfortante em seus rostos. Sentem-se bem, animados, dispostos ao trabalho. Com vontade de comer pinhão cozido e tomar vinho quente, de preferência em frente à lareira ou ao fogão a lenha, tão familiar aos descentes dos imigrantes do norte da Europa.

Enquanto caminhava eu observava as pessoas que cruzavam comigo. Pareciam velhos conhecidos. A maioria usava roupa pesada, alguns daqueles casacos que, ao contrário dos ursos, hibernam no verão e acordam no inverno, cheirando a naftalina. De repente vi algo – ou alguém – diferente. Uma pessoa de sexo indefinido passou embrulhada em um cobertor que lhe escondia a cabeça. Dava passos decididos e, da extremidade superior da trouxinha em que havia se transformado, saia um bafo quente que condensava no ar, criando uma nuvem efêmera, denunciando a troca de gases com a atmosfera. “É isso que somos” – pensei. “Entrepostos de produtos químicos. Enquanto interagimos quimicamente com o planeta nos mantemos vivos”.

E foi aquele vulto exótico que me fez pensar sobre meu dia. Ou melhor, sobre meus dias. Eu já tinha percorrido aquele caminho centenas de vezes. Conhecia cada loja, cada lanchonete, os porteiros dos prédios e até as imperfeições da calçada pela qual caminhava. O percurso era trivial, corriqueiro e até monótono. Era sempre igual, como seria igual meu dia. As mesmas aulas, os mesmos alunos, suas dúvidas e indisciplinas. As conversas com os colegas na sala dos professores, os assuntos de sempre, as dificuldades da carreira do magistério, os novos livros que estavam lendo e os resultados do futebol. Rotina.

Muitas vezes eu me queixava da rotina. Da falta de emoções, da mesmice do cotidiano, da ausência total de surpresas. “Todo dia ela faz tudo sempre igual”, cantou o Chico. “E me acorda às seis horas da manhã…”. Era eu na música. Éramos nós. Todos nós… Menos o Mick Jagger, talvez…

Mas o cobertor ambulante que exalava uma nuvem me fez repensar tudo. Eu nunca havia visto tal criatura antes – era uma novidade. Os dias que pareciam ser sempre iguais talvez não fossem tão iguais, afinal de contas. Novos personagens no palco, ou velhos personagens interpretando novos papeis, sei lá. Comecei a prestar atenção. Passei a lançar novos olhares sobre velhas coisas. O resultado? Comecei a ver coisas que não havia visto nunca antes, apesar de estarem ali, diante de mim, desde sempre.

O novo olhar

O que é a realidade? Será que a verdade existe? O que é sempre será? Estas são algumas entre as perguntas que a alma humana se faz e que não encontram respostas. Pelo menos não respostas satisfatórias. E, quando não há respostas, as perguntas acabam sendo dirigidas a ninguém e a todos ao mesmo tempo. Perguntas dirigidas a filósofos poderiam ser respondidas por físicos quânticos com a mesma propriedade. E vice versa. Aliás, estas são duas áreas do pensamento humano que com frequência se encontram na esquina da rua da dúvida com a avenida da incerteza. E ambas estão cheias de razão.

Às vezes concordam. Uma das afirmações em que filósofos e físicos estão de acordo, é que o olhar do observador tem o poder de modificar o fato observado. O olhar. A maneira como vemos o que vemos – essa é a chave. Para modificar a realidade temos que, primeiro, mudar a maneira como a observamos. Lançar um novo olhar e a mágica acontece.

Esse pensamento tem grande utilidade diante de um problema, uma dificuldade que parece insolúvel. Einstein (falando em físicos…) disse ser impossível encontrar uma solução usando o mesmo modelo mental que criou o problema. É preciso criar um novo ângulo de visão, olhar a questão com outros olhos. Aliás, esse é o papel dos consultores de empresas, ou mesmo dos psicólogos de consultório. Não só eles olham com os olhos deles, que são diferentes dos nossos, como nos ajudam a modificar o nosso próprio olhar. Fantástico. “Veja por este ângulo…”, dizem, e o mundo começa sua metamorfose.

Pois esta mesma teoria pode ser aplicada à rotina. Aliás, será que a rotina existe mesmo? Serão todos os dias iguais, ou serão nossos olhos que não conseguem ver que o dia de hoje é totalmente diferente do de ontem? Será possível livrar a rotina da monotonia que costuma acompanha-la? Acredito que sim. Aprendi com os físicos quânticos, com os filósofos e com o cobertor ambulante da rua de Curitiba.

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