A busca da perfeição

Max levava a vida que pedira a Deus. No auge de sua forma física e em sua melhor fase profissional, trabalhava em uma corretora de valores de Londres, adorava o que fazia e ganhava um monte de dinheiro. Morava em um luxuoso loft com vista para o Tamisa e o London Eye, era admirado por seus colegas e desejado pelas mulheres. Segundo seus critérios – e de muitos outros –, Max tinha uma vida perfeita. Não havia nada a se mudar, nem o stress da bolsa de valores, cuja adrenalina funcionava para ele como um elixir de excitação e alegria. Até que…

 

Um dia ele recebeu uma carta informando que seu tio Henry havia falecido e lhe deixado de herança um vinhedo no sul da França. Seu primeiro impulso foi o de vender a propriedade, o que aumentaria ainda mais sua conta bancária, mas para isso precisava ir até lá resolver as questões burocráticas. E lá foi Max, de encontro a um novo destino. A viagem virou sua vida de pernas para o ar, pois de repente ele percebeu que a vida que levava em Londres não era tão perfeita assim.

 

Foi nas paisagens coloridas da Provence que ele fez descobertas importantes, mergulhando em um mundo do qual faziam parte a tranquilidade do campo, o prazer do vinho, a alegria da música, a profundidade da arte e, claro, a maravilha do amor de Fanny Chenal. Este é o enredo do filme Um bom ano, dirigido por Ridley Scott, interpretado por Russell Crowe e Marion Cotillard. Acredite, não é possível assisti-lo sem fazer uma revisão de seus conceitos. Inclusive do significado da perfeição.

 

Como vemos, se de fato existir, a perfeição certamente é um conceito extremamente relativo, o que gera um paradoxo, pois, por definição, o perfeito seria o irretocável. E se assim fosse, aceitaríamos o definitivo, o imutável, coisa que não combina com o mundo como o conhecemos.

 
 

Sendo um conceito relativo, a perfeição então não deve ser perseguida? Então por que tamanha preocupação com esse tema?

 

Mesmo considerando sua relatividade, será que existe algo perfeito? Ou será que este é um conceito tão variável que impede sua existência? Será possível atingir a perfeição ou isso exigiria um esforço tão grande que causaria um sofrimento que anularia a perfeição do perfeito? A perfeição vale a pena? Muitos questionamentos filosóficos.

 

Há muito que o homem se defronta com a ideia da perfeição, que foi, por um lado, responsável pelos avanços da humanidade, enquanto por outro provocou muita angústia, decepção, esforço inútil, choro e ranger de dentes. Por tudo isso, é, sim, útil e necessário pensar um pouco sobre o assunto.

 

Para começo de conversa, precisamos lembrar que uma coisa é buscar a perfeição, e outra é tornar-se escravo dos estereótipos de perfeição. Para entender melhor essa diferença temos que recorrer a duas fontes de entendimento: a filosofia, que considera a perfeição um belo conceito; e a sociologia, que explica a criação de modelos considerados perfeitos pela mídia, que os impõe e os vende muito caro.

 

Vamos começar pela filosofia. Há 25 séculos, Platão criou sua versão a respeito desse assunto, e deu muito pano pra manga da toga dos filósofos desde então. Segundo ele, a realidade pode ser expressa a partir de duas dimensões: a primeira é a dimensão do mundo como nós, humanos, o percebemos. Platão chamava esse mundo de o Mundo dos Sentidos, pois estes são nosso recurso de percepção. A segunda dimensão seria a do Mundo das Ideias, representado pela forma ideal do Mundo dos Sentidos.

 

Segundo o mestre, o Mundo das Ideias seria o mundo das formas perfeitas, e o Mundo dos Sentidos só pode ser percebido porque todos temos a ideia de um mundo idealizado. Por exemplo, podemos imaginar um cavalo perfeito, mas jamais encontraremos um assim. Mas essa idealização é útil para que possamos entender o mundo. Não há dois cavalos iguais, mas somos capazes de reconhecer um quando o vemos, independente de seu tamanho ou cor. Qualquer cavalo irá envelhecer, ficar fraco, manco e morrer. Já a ideia de um cavalo não envelhece nem morre. É perfeita.

 

Portanto, a ideia da perfeição é antiga, e desde então é considerada impossível na prática, algo que só existe em um mundo intangível, habitado apenas pelas ideias, além de duendes, fadas e elfos, claro.

 
 

A perfeição como ideia parece interessante, mas qual seria sua virtude para nossa vida prática?

 

Uma das características deste mundo imperfeito em que vivemos é o paradigma da perfeição. Nunca se falou tanto em ter o corpo perfeito, de comprar o carro perfeito, de tomar um vinho perfeito, de oferecer um serviço perfeito. E fazemos isso apesar de termos a consciência de que a perfeição é apenas uma ideia, não existe na vida prática. Trata-se de uma utopia, então nunca chegaremos lá – mas não podemos esquecer que utopias são úteis à alma humana. A perfeição é uma ideia muito útil, pois serve de guia para o aprimoramento do homem e de suas obras. Quando queremos fazer algo perfeito, pelo menos conseguiremos fazer algo muito bom.

 

A filosofia também se ocupou disso. Platão teve, em sua Academia, um aluno brilhante chamado Aristóteles, que rivaliza com ele em importância no mundo da filosofia grega. Em sua obra mais importante, Ética a Nicômaco, Aristóteles aborda, pela primeira vez, um tema correlato com a ideia da perfeição: a excelência.

 

A diferença entre ambas é que a perfeição é uma impossibilidade, algo que jamais será atingido. Já a excelência é factível, pois significa “o melhor possível”. Algo possível ao ser humano, portanto. Eu sei que não vou atingir a perfeição, mas posso ter compromisso com a excelência, e colocar o meu melhor em tudo o que faço. Esta é uma ótima ideia, que depende apenas de uma decisão pessoal.

 

Ser escravo da perfeição, principalmente a da mídia, é um atestado de burrice. Trata-se de uma condenação à angústia de não atingir seu objetivo. Entretanto, abandonar totalmente a ideia da perfeição pode nos tornar medíocres. A saída está no meio termo, na consciência de que jamais seremos perfeitos, mas que podemos ser excelentes, e mesmo assim, não em tudo, apenas naquilo que escolhermos ser. Precisamos ter algumas utopias, isso é saudável.

 

O escritor inglês Thomas More, irritado com a política e a sociedade inglesa do século 16, idealizou uma sociedade livre das mesquinharias humanas, localizada em uma ilha chamada Utopia. Lá tudo era perfeito, portanto, impossível. De nome de ilha, utopia passou a ser um substantivo comum. A expressão deriva do grego, e quer dizer de “nenhum lugar”, “de parte alguma”, “lugar que não existe”, ou, em sua melhor interpretação, “lugar que não existe ainda”.

 

Para os filósofos, utopia é a descrição de uma sociedade ideal, como Platão também descreveu na República. Para os poetas, uma utopia é como uma estrela que mostra um caminho a ser trilhado, e não uma estrela a ser necessariamente alcançada. Para o homem comum (e todos somos) a utopia é um desejo de realização, um sonho a ser alcançado, algo que nos mantém em movimento.

 

Então a utopia da perfeição é necessária? Nesse sentido, então, a perfeição é algo que existe?

 

Sendo apenas um conceito, a perfeição tem um imenso componente de relatividade. Costumamos ver como perfeito tudo o que amamos. Sim, algo – ou alguém – que você ama profundamente é perfeito. Pelo menos para você, e isso é o que importa.

 

Preste atenção nesta bela história, retirada da inesgotável mitologia grega:

 

“Pigmalião conheceu a mulher perfeita. As formas de seu corpo e a suavidade de sua face eram complementares e totalmente harmoniosas. Nenhuma curva era tão pronunciada que a tornasse exagerada, nem era tão sutil que a fizesse despercebida. A pele era suave e deixava perceber a vibração de cada músculo que recobria, como se estivesse em um esforço para conter tanta vida. Sua pose era insinuante, dotada de um misto de majestade e de sensualidade que, ao contrário de serem antagônicas, eram sensações que criavam uma perfeita sinergia, conferindo uma beleza praticamente indescritível. O sorriso enigmático e o olhar ligeiramente perdido constituíam um capítulo a parte. Decifrar o enigma e acudir a expectativa daquele olhar eram praticamente uma obrigação”.

 

A mulher de Pigmalião não tinha defeitos. Ou melhor, quase não tinha… Apenas um detalhe o afastava da felicidade de usufruir tal companhia: a mulher de Pigmalião era uma estátua que ele mesmo esculpira e pela qual se apaixonara, pois pusera nela toda a perfeição que a arte pode criar.

 

A estátua de Pigmalião, conhecida na mitologia grega, reflete o comportamento humano de imaginar modelos ideais de vida e sofrer por não conseguir transformá-los em realidade. Como esses modelos são emocionais, estão desprovidos da lógica que seria necessária para lhes dar sustentação. E surge, então, o embate entre o ideal e o real.

 

Para a maioria das pessoas, esse gap é absorvido por uma estrutura de personalidade que sabe lidar com a frustração. Para outros, pode virar motivo de sofrimento, às vezes paralisante. Você já ouviu, decerto, que o ótimo é inimigo do bom. Quem não se contenta em fazer certo, querendo sempre fazer perfeito, acaba não fazendo nada.

 

Só que a história de Pigmalião não se esgota com seu desespero de não conseguir dar vida à sua estátua. Ele foi à luta. Procurou uma alternativa para transformar sua expectativa em realidade e encontrou a solução na ajuda de Afrodite, que concordou em dar vida à escultura, transformado-a em uma mulher de verdade.

 

Devemos lembrar que Afrodite era a deusa da beleza e do amor, o que nos oferece a lição de que, quando fazemos algo com amor atingimos a perfeição, talvez porque o amor seja a única manifestação real da perfeição.

 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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