A caravela (sobre agilidade e percepção)

Quando se fala sobre as características mais importantes das empresas e dos profissionais na atualidade, sempre surge a palavra “agilidade”. Reação rápida às mudanças do mercado, das exigências profissionais, das políticas financeiras e até dos modismos. Ter agilidade é adaptar-se com velocidade aos novos tempos, que são novos cada vez mais rápido. A principal vantagem competitiva deixou de ser o tamanho e passou a ser a velocidade de adaptação, ou seja, a agilidade.
 
Lembro-me, neste momento, de algumas lições da história, quando a agilidade também foi fundamental. Os descobrimentos, por exemplo.
 
Quando os turcos otomanos, liderados por um tal Maomé II invadiram e dominaram a cidade de Constantinopla – atual Istambul – bloquearam a ligação do ocidente (Europa) com o Oriente (na época chamado genericamente de as Índias). Isso provocou uma crise econômica para os europeus, especialmente pela falta das chamadas especiarias (pimenta, cravo, nós moscada) necessárias para a conservação da carne. Sem esses produtos, os estoques de alimento para o inverno ficariam comprometidos.
 
Tornou-se urgente buscar uma rota alternativa para chegar às Índias. Os portugueses, que na época dominavam a arte da navegação como ninguém, especialmente em função da Escola de Sagres, criada pelo Infante D. Henrique, já costumavam descer pela costa da África, mas só até um ponto chamado Cabo do Não. Esse ponto, na altura da Namíbia, recebeu esse nome porque “não” se deveria ir além dele, sob o risco de não voltar mais, pelo simples fato de que a partir daí os ventos estariam sempre no sentido do sul. Os barcos da época utilizavam imensas velas quadradas (que curiosamente eram chamadas de redondas, porque assim pareciam quando ficavam infladas ao vento), de difícil navegabilidade.
 
Surgiu então uma das maiores contribuições de Portugal à humanidade: a caravela. Barco menor que as “naus”e “carracas” até então utilizadas, a caravela tinha no máximo trinta metros de comprimento por nove de largura, levava uma tribulação de em torno de quarenta homens e podia ter entre dois e quatro mastros.
 
Mas o mais importante eram as velas. Pequenas e em forma triangular, chamadas de “velas latinas”, as mesmas permitiam a navegação praticamente contra o vento. Pronto, está aí um espetacular exemplo de “agilidade”.
 
Em 1847, o navegador Bartolomeu Dias deu início à era dos descobrimentos. Comandando duas caravelas, desceu a costa ocidental da áfrica até o fim. Enfrentou, então, uma terrível tempestade que quase acabou com suas embarcações, mas conseguiu sobreviver e começou a voltar, quando percebeu que a costa estava agora à sua esquerda. Estava, finalmente, no oceano Ìndico, subindo em direção às cobiçadas Índias. Pressionado pela tripulação acabou voltado para casa, contornando a ponta da África, que ele chamou de “Cabo das Tormentas”, em função do que ali ele tinha vivido. O Rei D. João II rebatizou-o depois como “Cabo da Boa Esperança”, pois surgiu uma nova esperança de se chegar às Índias pela rota marítima. Quem acabou chegando lá, finalmente, foi Vasco da Gama, agora comandando naus e não mais caravelas, pois precisava de maior tonelagem para transportar as mercadorias.
 
Colombo também comandou caravelas: Santa Maria, Pinta e Niña. Precisava de agilidade, pois não sabia se precisaria dar meia volta a qualquer momento. Cabral, por sua vez, já comandou uma frota de naus, pois estava indo, em princípio, para as Índias, por uma rota já conhecida. Porque ele deu uma paradinha para descobrir o Brasil é meio nebuloso. Provavelmente queria saber até onde iam os pássaros que Vasco da Gama tinha visto voando em direção oeste, e que, com certeza chegariam a alguma terra..
 
Devemos o descobrimento da rota marítima do oriente, bem como o descobrimento da América, e a conseqüente descoberta do Brasil a uma invenção que privilegiava a agilidade. As caravelas eram frágeis, mas tinham mais navegabilidade. Podiam mudar de rumo rapidamente, adaptando-se às necessidades. Exatamente como acontece na atualidade, só que não mais no mar.
 
No mundo profissional da atualidade, ser ágil pode significar muitas coisas. Entre elas, a capacidade de aceitar novos desafios, mudar estratégias de produção, alterar abordagens comerciais, encarar as mudanças do mundo como rotineiras. Como assim? Pode rotina ser sinônimo de mudança? Claro, observe o mundo ao seu redor. Perceba as modificações constantes provocadas pelas oscilações da economia, pelos ventos da política – e não só de nosso país, mas de todos os países economicamente importantes – e até por fatos isolados, e totalmente imprevisíveis, como o terrível onze de setembro do ano passado.
 
Parece que atualmente a única coisa que não muda no mundo é a tendência à mudança. Temos, portanto, que estar preparados para perceber as mudanças, compreendê-las e promover as adaptações necessárias, seja na empresa, seja na carreira.
 
Importante lembrar que adaptação não é o mesmo que acomodação. Estar adaptado não é estar imobilizado em uma função. Antes pelo contrário. É estar em sintonia com a situação, podendo, inclusive, modificá-la. A adaptação é o pré-requisito da sobrevivência (lembra Darwin?), mas também da possibilidade de mudança. Força e tamanho já não são as principais vantagens competitivas. Percepção e agilidade são as qualidades do momento.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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