A carreira é só parte da vida

Focar a atenção no trabalho é bom. Mas cuidado! Você corre o risco de esquecer que há vida lá fora
 
O livro de Jack Welch, Paixão por Vencer – a Bíblia do Sucesso, rapidamente tornou-se obrigatório no mundo corporativo. Relevando a pretensão welchiana, seus escritos colaboram, sim, com quem deseja construir uma carreira vencedora. Dos seus 20 capítulos, há um que o próprio autor reconhece ser o menos consistente: o que fala sobre equilíbrio trabalho-vida. Welch transformou-se no executivo mais festejado do mundo, mas não goza da mesma popularidade em casa. Ele relata que teve pouco contato com os filhos, que foram criados praticamente por sua primeira esposa, Carolyn. Seu lazer era o golfe, esporte que ele aproveitava para fechar negócios. Foi sua opção, e ele assume a responsabilidade.
 
Welch, entretanto, reconhece a importância do equilíbrio.Considera que as pessoas que têm êxito no trabalho e na vida costumam ser mais felizes, e afirma que a felicidade é coadjuvante dos bons resultados. Diz:”Seu chefe quer que você seja feliz na medida em que isso contribuir para a vitória da empresa”. O executivo americano atribui seu sucesso ao fato de sempre ter sido muito focado na carreira, à custa de sua vida pessoal. Hoje ele revela em suas palestras que acha que não precisaria ser assim. Há um caminho do meio.
 
O FOCO
 
Ser focado é, sim, importante para a carreira, mas, justamente por aceitarmos o poder do foco, é prudente um exame mais minucioso sobre o próprio.Vamos focar um pouco no “foco”. Um foco é um ponto de convergência. Focar significa concentrar atenção ou esforço em um único ponto, evitando a dispersão. Quando nossa atenção e nossa energia estão voltadas para o mesmo tema dizemos que estamos focados, o que, no mundo do trabalho, é útil e muito apreciado, pois melhora o resultado. Pessoas “não focadas” costumam pagar por isso. São acusadas de atirar para todos os lados e dispersar a energia necessária ao resultado.
 
Mas cuidado, há um engano comum a respeito deste assunto. A questão não é, absolutamente, ter só um foco de atenção, e sim ter vários e atender a todos, mas um de cada vez. Pessoas muito focadas no trabalho costumam descuidar da vida pessoal, o que não é nem necessário nem desejável. Não é necessário porque podemos ter mais de um foco, desde que tenhamos desenvolvido a habilidade de desligar um antes de ligar o outro. E não é desejável porque a concentração de energia durante muito tempo sobre o mesmo tema volta-se contra a pessoa — estresse à vista.
 
No filme O Último Samurai, o personagem de Tom Cruise, o militar ianque Nathan Algren, apanha sistematicamente de seus instrutores na arte de manejar a espada samurai, até que um deles lhe diz: “Você tem muita coisa na cabeça. Esvazie a mente. Foque no que está fazendo no momento”. A partir desse conselho tudo começa a mudar e o americano surpreende os japoneses com sua destreza. A principal lição que ele aprendeu não foi o manejo da espada, mas a importância de se colocar inteiro na tarefa. Além de aprender a lutar, ele ajudava a cuidar da horta, ensinava beisebol para as crianças e ainda arrumou tempo para conquistar uma linda dama, claro. Sempre se colocando inteiro naquilo que fazia no momento.
 
É uma lição que todos nós deveríamos aprender, mas temos dificuldade, por dois motivos: pela qualidade da cultura ocidental, que nunca se importou com nossas questões internas, e pela característica do mundo moderno, que nos oferece muitos focos de atenção ao mesmo tempo. O mestre hindu Paramahansa Yogananda afirma que “uma das principais causas de fracasso é a falta de concentração.A atenção é como a luz de uma lanterna: quando seus raios são espalhados em uma área vasta, sua habilidade de focalizar um único objeto se torna fraca, mas, se focalizada em uma coisa de cada vez, se torna poderosa.Grandes homens são os de concentração: eles investem todo poder mental em uma coisa de cada vez”.
 
E, uma coisa de cada vez, contempla tanto o trabalho quanto a vida pessoal.A empresa e os filhos. A saúde dos negócios e a saúde do corpo. O cliente e o cônjuge, que, aliás, também é uma espécie de cliente — e pode mudar de fornecedor. Atenção!
 
O FOCO ALIENANTE
 
Ser focado apenas no trabalho nos expõe a outro risco. Quando o foco é muito exigente e o ambiente muito controlador, corremos o perigoso risco de esquecer que o mundo é maior que a empresa, e este perigo é de caráter totalmente prático: quando nos alienamos do resto do mundo diminuímos nossa percepção, com impactos na adaptação, na inovação e na flexibilidade. Estes, lembremos, são relacionados como vantagens competitivas no mundo corporativo. Esta é a diferença entre o foco e o foco alienante. Ser focado é ótimo. Ser alienado é péssimo.
 
Quando a rotina nos absorve por inteiro em nome de metas a atingir, corremos o risco de diminuir a percepção de uma realidade maior, aquela que transcende a realidade cotidiana. O foco alienante cobra seu pedágio. O resultado vem, mas não se sustenta, porque a percepção se vai. Portanto, a carreira é importante, mas é só parte da vida.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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