A crise de percepção

Tive uma experiência única. Passei um fim de semana no Pantanal com Fritjof Capra, o físico austríaco que mora em Berkeley e que escreveu O Tao da Física e outros livros que estão entre os mais influentes dos últimos 30 anos.
 
Falamos sobre ecologia, sustentabilidade, Obama e, claro, sobre o papel dos líderes. Subimos de barco um trecho do Rio Cuiabá e vimos jacarés tomando sol, tuiuiús e… garrafas pet boiando. Então começamos a falar sobre o fato de que as cenas degradantes — como a sujeira, a violência, a corrupção e a incompetência —, quando se banalizam, provocam uma espécie de cegueira coletiva, um déficit de percepção sobre elas mesmas. Para que não nos façam mal, fingimos que não vemos, pois a mente tem uma defesa para manter sua integridade.
 
Nietzsche, por exemplo, nunca negava a realidade, e acabou louco. Mas os líderes não podem fazer de conta que não há problemas e que o mundo é cor-de-rosa. Não precisam enlouquecer por causa disso, mas devem encará-los de frente e propor soluções. Só que não é o que acontece em muitas ocasiões. A verdadeira crise, disse-me Capra, é a crise de percepção. Muitos líderes não percebem, ou fazem de conta que não percebem, quais são os verdadeiros problemas de nosso tempo.
 
A solução para a maioria deles é simples, mas requer uma mudança de foco. E isso é difícil porque significaria sair da zona de conforto, e a maioria das pessoas não tem essa disposição. A crise de percepção se manifesta pela dificuldade que a maioria das pessoas tem de “conectar os pontos”, ou seja, estabelecer correlação entre os problemas e suas causas, e também entre os diversos fatores que interferem nos resultados que desejamos.
 
Estamos em uma crise da economia, sim, mas é bem possível que ela pudesse ter sido evitada se não fosse precedida pela crise de percepção que assola a humanidade. Olhar o futuro com os olhos da esperança significa não usar os óculos da ilusão, e sim as lunetas da razão.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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