A culpa

 

Acordei sobressaltado às três da manhã e não sabia porque. Não estava enfrentando nenhuma crise, não tinha grandes decisões a tomar no dia seguinte, não estava preocupado com nada em especial, felizmente. É importante frisar isto, porque em situações de tensão é comum que acordemos no meio da noite, pois dormimos preocupados e não desligamos totalmente o cérebro – mas não era o caso daquela noite. Eu tinha dormido em paz, com o nível de ansiedade dentro dos limites do aceitável, por assim dizer. Então por que?

Nessas horas, nada melhor do que um pouco de reflexão, de interiorização. Quando algo me preocupa e eu não sei o que, lanço mão de uma técnica pessoal: começo a pensar em vários assuntos, do presente e do passado, principalmente os não agradáveis, até que, de repente, soa uma espécie de sirene emocional. Não tem erro, aquele pensamento específico, que é responsável pelo sofrimento, expõe-se quando acionado. E teima em não ir embora.

Usei minha técnica, e nada. Eu estava em paz com a vida nos últimos tempos. “Que bom” – pensei. Mas que havia um macaquinho traquinas em meu sótão, não havia como negar. Voltei à técnica, e desta vez fui mais fundo, viajando no passado até a juventude, a infância, entrando por labirintos esquecidos. De repente, plim!, a conexão se fez.

O que aconteceu é que no dia anterior eu havia assistido, involuntariamente, a uma cena familiar. No restaurante do aeroporto do Rio de Janeiro, onde eu tinha almoçado enquanto esperava o voo para São Paulo, não pude deixar de ouvir um casal de meia idade conversando com o filho, um jovem que, aparentemente, estava dando dor de cabeça para seus pais.

“Não podemos estar sempre ao seu lado, dizendo o que você deve ou não deve fazer, meu filho, você precisa amadurecer” – disse a mãe, em um tom de evidente preocupação. “Ou você sai dessa vida irresponsável e volta para casa e para os estudos ou não conte mais com minha ajuda” – emendou o pai, mais pragmático. De pouco adiantavam os argumentos do garoto, os pais estavam sendo firmes.

Desconheço a sequencia, mas aquele acontecimento ficou em minha memória, de forma totalmente involuntária, porque fez link com uma situação pessoal, acontecida há muitos e muitos anos, em que eu estava – confesso – no lugar daquele garoto. Eu ainda era um secundarista imberbe quando consegui convencer minha mãe que seria bom que eu fosse terminar o segundo grau no Rio de Janeiro, onde tinha amigos, assim aproveitaria para treinar meu inglês trabalhando em algum lugar em que pudesse atender a turistas. Meu argumento tinha lógica, mas o que eu estava mesmo interessado em fazer, cá pra nós, era a surfar no Arpoador.

Depois de um ano no Rio eu levava uma vida quase hippie, passei no colégio raspando e nem pensava em me preparar para o vestibular. Foi quando recebi a visita da D. Olga, minha zelosa mãe que, claro, queria que eu a acompanhasse de volta a Curitiba, que retomasse os estudos, que me alimentasse bem, que me preparasse para a vida adulta, que voltasse a ser – como ela dizia – um bom garoto. Estava claro que ela estava sofrendo seu sofrimento de mãe-zelosa-de-um-filho-rebelde. E eu me senti profundamente culpado.

O resto da história? Bem não sei se voltei a ser um bom garoto, mas voltei para casa e para os estudos, me preparei para o vestibular e passei na primeira tentativa.

Dizem que todos temos uma fase irresponsável na vida, e que quem não a teve, ainda terá. Se é verdade, naquela oportunidade eu experimentei a minha. Não me arrependo dela (foi ótima), mas, curiosamente, guardo, junto com as boas lembranças, uma memória ruim, meio sem sentido, eu sei, e que é resultado de achar que magoei as pessoas que amava. O episodio foi totalmente esquecido, e bem superado, mas ficou lá, no fundo da alma, num quarto escuro onde mora o sentimento de culpa.

Apesar de eu ter atendido ao apelo de minha mãe, no que eu fiz muito bem, carreguei por um bom tempo a sensação de tê-la feito sofrer, ainda que tenha havido um bocado de chantagem emocional por parte dela, convenhamos. E o tal sentimento, pelo que eu pude notar, ainda estava com os pés fincados em meu inconsciente.

A memória da culpa

Sentir culpa é um sentimento normal e saudável. Quem é imune à culpa é o psicopata que não se importa pelo mal que possa ter causado a alguém. Infelizmente há esse tipo de pessoa. Já os seres humanos dotados de uma estrutura psicológica saudável experimentam culpa quando se percebem em desacordo com seus valores essenciais. E a verdade é que não é possível estar alinhado com o bom e o correto cem por cento do tempo. Todos cometemos deslizes, às vezes involuntários e inconscientes, que só se revelam incorretos mais tarde, mas não é por isso que deixam de provocar culpa.

E é bom que provoquem, pois o remorso é um alarme para a correção dos rumos. Só não repetimos um comportamento inadequado quando nos arrependemos dele, pois não queremos reviver a dor psicológica da culpa, o mal estar do arrependimento. A culpa é, portanto, necessária ao convívio humano, à construção da sociedade. Se a culpa não existisse tudo seria permitido. Este é um pensamento karamazoviano que, no original de Dostoiévski, joga com a ideia de que a culpa é um castigo divino.

Mas não é desse tipo de culpa “normal” e necessária a que eu me refiro aqui. Estou interessado em explorar por que um acontecimento inócuo ocorrido há quatro décadas continua reverberando em meu interior, gerando desconforto.

É comum que se atribua ao sentimento dessa culpa que nos infelicita aos princípios judaico-cristãos, a quem devemos a ideia do pecado. Eu diria que, sim, tem a ver, mas que se trata de uma distorção, pois quando nos aprofundamos percebemos que Cristo não compreendia que para o erro e o pecado só existia a punição, mas também a compreensão e o perdão. Pelo menos é o que aparece, por exemplo, na parábola da mulher adúltera (que atire a primeira pedra)…

Mas nossa relação com a culpa transcende questões religiosas, é uma qualidade da psicologia humana. Por ser boa à organização social foi incorporada ao nosso evolucionismo, ainda que, como os dentes do siso, às vezes causem dor. Parece que não temos como fugir da culpa, pelo simples fato de termos nascido.

Uma amiga me contou uma experiência pessoal com a culpa que chega a ser bizarra. Quando menina, em uma disputa pelo controle da TV acabou dando uns tapas na irmã. Depois foi repreendida pela mãe, que lhe perguntou se não se sentia mal por ter machucado a irmã menor. Foi quando ela se surpreendeu por perceber que não, não estava se sentindo culpada pelo fato. Então passou a se culpar por não estar sentindo culpa. Pode?

Sim, todos somos acompanhados por culpas, maiores ou menores, que insistem em nos fazer sofrer e acabam, muitas vezes, limitando nossos movimentos. Por que, afinal? E o que fazer para, sem ser um insensível, livrar-se dessa bagagem pesada, indesejada, inútil e quase sempre injusta?

 

A culpa inconsciente

Mais uma vez, vamos ver se Freud explica. Devemos, como se sabe, ao Sigmund, a explicação de que nossa mente divide-se em consciente e inconsciente. O consciente é conhecido, lógico, analítico e, além disso é temporal, o que quer dizer que ele lida bem com a linha do tempo – sabe que existe presenta, passado e futuro.

Já o inconsciente é um complexo psíquico de natureza pouco conhecida, insondável, mas que sabemos que funciona como um depositário de sentimentos poderosos, como o medo, a raiva, as paixões, a criatividade e, claro, a culpa. Aqui começa a explicação: a culpa é inconsciente.

Outra característica do inconsciente é sua desconexão com o fator tempo. Para ele, tudo é aqui e agora. Dessa forma, um ato cometido há anos, talvez na infância, e que foi condenado pelos outros (os adultos) ou por você mesmo, e que gerou culpa, poderá ser recuperado a qualquer momento e voltar com o viço de algo que aconteceu hoje pela manhã.

Então estamos aprisionados pela armadilha de nosso próprio ser? Há saída, afinal? Claro que há. Aliás, muitos dos divãs dos terapeutas, enquanto você lê este texto, estão funcionando como altares de expiação de culpas. A saída está exatamente na conscientização, ou seja, na retomada do fato como algo que existe não apenas para causar sofrimento, mas para ser ressignificado.

Em seu livro Psicopatologia da vida cotidiana, Freud conta o caso de uma paciente que sofria do que se chamava na época de histeria, na verdade uma neurose que se materializa como enfermidade física. Ela tinha formigamentos, desmaios e convulsões. Afastadas as causas orgânicas, a explicação estaria da psicologia. Através de análise, Freud descobriu que a mulher, anos antes, havia se apaixonado pelo marido da irmã, mas tinha reprimido essa paixão. Quando sua irmã, vitimada por uma infecção, morreu, seu primeiro pensamento não foi de tristeza, e sim de que agora não havia mais impedimento para que ela ficasse com aquele homem.

Entretanto, quando o viu triste, velando a esposa, sentiu uma dor indescritível, em que os sentimentos da paixão, do desejo, do medo e da culpa se embaralharam em um bloco paralisante. E essa dor ficou. Até que Freud conseguiu que ela examinasse o fato através do consciente, pois ela não tinha nenhuma culpa pela morte da irmã, e também não era culpada pelo sentimento pelo cunhado. Aliás, nem a irmã nem o cunhado souberam jamais de sua paixão. Não havia nada no mundo real que pudesse gerar tal culpa. Tudo se processou a nível mental, inconsciente. Guardadas as proporções, todos temos um segredo desse tipo, tão segredo que, às vezes, nem nós o conhecemos de verdade.

Lidar mal com as culpas acaba causando muita confusão. Mães que trabalham sentem culpa por deixar os filhos e tentam compensar com mimos exagerados. Pais ausentes os enchem de presentes e se sentem aliviados. Parado no farol em um carro novinho você sente desconforto ao ver garoto que faz malabares com duas bolinhas e lhe dá esmola para aliviar… a culpa. Mas que culpa, afinal? Não há – ou não deveria haver – culpa em estar apenas fazendo a sua parte.

Sim, a culpa pode ser um freio moral, mas também pode ser um açoite. E se é patológico não senti-la, é neurotizante carrega-la para sempre. Xô, culpa. Sai deste corpo que não te pertence.

 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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