A esperança é a última que morre

Creio que foi a cena mais impressionante que presenciei em toda minha vida. Eu era um estudante do curso de medicina e estava acompanhando a visita de um experiente professor à enfermaria de cirurgia cardíaca. No lugar estavam os pacientes em recuperação, após terem sido operados. Em geral, as visitas eram de aprendizado meio protocolar, pois víamos pacientes em estado de controle clínico. Mas naquele dia foi diferente.
 
Quando entramos, a enfermeira estava acionando o sinal de alarme, pois um paciente já operado havia sofrido uma parada cardíaca naquele instante. Foi uma coincidência que salvou uma vida. Mas não foi fácil, pois minutos preciosos já tinham sido perdidos. O médico iniciou o procedimento de ressuscitação, com três tipos de ações: massagem cardíaca, choque e injeção de drogas cardiotônicas. Só que nada funcionava.
 
Para tornar o trabalho mais eficiente, o médico colocou o homem no chão, pois na cama o molejo absorvia parte da massagem. Por mais de uma hora nos revezamos entre a massagem e a respiração boca-a-boca, até que o desânimo começou a tomar conta de todos. Foi quando o professor pediu uma tesoura. Diante de olhares atônitos, ele removeu os grampos que fechavam o corte no peito recém-operado, cortou os pontos e simplesmente tomou o órgão com a mão e iniciou uma tentativa desesperada: uma massagem cardíaca direta. E então, como um milagre, o coração começou a responder.
 
Depois, olhando para as caras assustadas dos estudantes, o professor disse algo como: “Às vezes o paciente parece que morre, mas a esperança não. Dessa forma conseguimos trazer a vida de volta”. Nunca mais esqueci, pois aprendi na prática. As coisas só acabam quando não há mais esperança, por isso dizemos que ela é a última que morre.
 
A esperança é um mal?
 
Os gregos da Antiguidade, que têm respostas para tudo a partir de sua mitologia, dizem que quem criou a humanidade foi o titã Prometeu. Além disso, ele fez mais duas coisas: roubou o fogo do Olimpo para ser usado pelos homens e prendeu em uma caixa todos os males, como a doença, a loucura, a guerra e a morte. E entre todos esses males, encolhida em um canto, estava a esperança.
 
Zeus, bravo com o roubo do fogo, prendeu Prometeu e o condenou a um castigo perpétuo: acorrentou-o a uma rocha, para que seu fígado fosse comido por um abutre feroz durante o dia e se recuperasse durante a noite. Assim Prometeu pagaria durante toda a eternidade pela insolência de tentar comparar-se a um deus. E Zeus fez mais: criou uma belíssima mulher, a quem chamou de Pandora, e a mandou à Terra, onde acabou por casar-se com Epimeteu, irmão de Prometeu. Quando encontrou a caixa que aprisionava os males, Pandora a abriu, liberando-os todos, que passaram a afligir a humanidade. A partir de então, os humanos começaram a sofrer com sua condição de fracos, incompletos e mortais, que só conseguem continuar vivendo e povoando a terra porque da caixa também saiu a esperança, que passou a habitar entre eles.
 
Na Grécia, podemos encontrar a estátua dedicada à deusa Elpis – “esperança”, na língua de Homero. Seu mito é um dos mais repetidos até os dias de hoje, e também é um dos que suscitam dúvida. Afinal, se a esperança é uma coisa tão boa, o que estaria ela fazendo junto com os males humanos, dentro da mesma caixa?
 
A versão mais aceita para essa questão diz que os criadores dos mitos acreditavam que a esperança era filha da mentira e, por isso, considerada má. Segundo eles, a verdade jamais pode ser ignorada, por mais cruel que seja, e a esperança muitas vezes desvia a atenção dos homens, afastando-os da realidade, deixando-os ainda mais fracos.
 
A esperança é boa?
 
Essa é a questão mais dolorosamente aguda a respeito da esperança. Até quando devemos nutrir uma esperança sem que ela nos paralise e nos impeça de tomarmos outro caminho? Será que a esperança só é boa quando é baseada em probabilidades concretas? Ou ela é boa em si mesma, por manter a vida ao assumir a forma de uma tocha que nos permite encontrar algum caminho antes de se apagar? Há defensores para ambas as alternativas.
 
A doutrina cristã, por exemplo, relaciona a esperança à fé e à caridade, para criar as três principais virtudes teologais, ou seja, aquelas que, por terem origem divina, não carecem de entendimento lógico. De acordo com essa idéia, temos fé, acalentamos esperança e praticamos caridade pelos atos em si mesmos. Se tentarmos entender a nossa fé e justificar nossa caridade, estaremos tentando racionalizar o que não precisa de razão para existir. E o mesmo aconteceria com a esperança.
 
Dessa forma, a esperança é parte do ser humano, como são os seus cinco sentidos, e só percebemos que a possuímos quando, por algum motivo a perdemos. Temos esperança de a vida melhorar, de arrumar um emprego, de a doença sarar, e nos apegamos a ela para tolerar a dureza do cotidiano, a falta do emprego, a saúde abalada. A esperança é o ungüento que, se não cura a inflamação, pelo menos diminui a dor.
 
Mas é claro que há outros pontos de vista. Nietzsche é um dos que pensam diferente. Em seu livro Humano, Demasiado Humano, ele afirma que a esperança é o pior dos males, pois ela se refere à expectativa de um futuro incerto, e por isso é enganosa. O filósofo interpreta que foi o próprio Zeus que ordenou que ela permanecesse entre os seres humanos apenas para prolongar seu tormento. “Atinge-se a verdade” – disse o cáustico filósofo alemão –, “através da descrença e do ceticismo, e não do desejo infantil de que algo aconteça de certa forma.”
 
Acontece que a esperança é uma qualidade demasiadamente humana, e imensamente necessária à própria manutenção da existência. Entretanto, cumpre melhor seu papel ao se ancorar na realidade. Quando a esperança de sarar de uma doença é prescrita com a caneta da medicina, reforça nosso ânimo sobre a própria esperança. Mas, quando quem a propõe é o misticismo ou a superstição, pode morrer a esperança – e o paciente.
 
Ela é dispensável?
 
Nunca foi fácil viver. A visão romântica que temos das décadas ou dos séculos passados não passa de licença poética dos romancistas e dos cineastas, acobertando a vida dura de nossos antepassados. As benesses científicas e as conquistas sociais são frutos colhidos do alto da árvore da história, nos ramos do século 20. Antes, as doenças e as injustiças matavam com intensidade e com precocidade. No início do século passado, a esperança – e é assim mesmo que se diz – de vida de um recém-nascido no Brasil era de apenas 40 anos, e hoje é de cerca de 72 anos.
 
Entretanto, viver parece ser uma aventura cada vez mais perigosa, mas isso se deve ao fato de que a caixa de Pandora moderna tem controle remoto, e despeja sobre nosso sofá tudo o que “dá notícia”. Tsunâmis inesperados, furacões esperados mas subestimados, terroristas armados de bombas e de loucura; políticos corruptos livrando suas caras através de manobras e conchavos. A própria esperança se surpreende e se assusta quando é usada como cabo eleitoral, sendo nomeada para vencer o medo.
 
Apesar de tudo isso, a esperança não é dispensável. Ter esperança é acreditar no amanhã. É supor que a vida vai melhorar, que o dinheiro vai dar, que a febre vai diminuir, que a lavoura vai crescer, que o sorriso vai perdurar. E tudo isso porque nós vamos fazer nossa parte. Ter esperança é assumir nosso lado divino e nos responsabilizarmos pela continuação da obra de criação, pondo o cérebro para pensar, o braço para trabalhar e o coração para amar o que se quer, o que se faz e o que se sonha.
 
A pessoa que perde a esperança perde-se a si mesma, porque esperança pertence à sua essência. O viver tem a esperança do ser. O sonho tem a esperança da realização. O trabalho tem a esperança do resultado e do pagamento. O olhar furtivo tem a esperança do sorriso malicioso. A piada tem a esperança do riso. A música tem a esperança da emoção. O beijo roubado tem a esperança de mais um beijo apaixonado.
 
A verdadeira esperança é aquela que acalanta sem enganar, que motiva sem iludir, que apóia com bases sólidas, construídas pela responsabilidade. Essa é a esperança que não morre. E, se morrer, será a última, pois depois dela não há mais nada.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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