A esquina de Babel

Foram só 5 minutos, mas a espera na esquina da padaria me fez entender o significado da Babel. Ou melhor, me fez sentir na própria. A torre de Babel é mencionada no texto bíblico de Gênesis, segundo o qual os descendentes de Noé resolveram construir uma torre alta o suficiente para lhes permitir chegar ao Céu. Jeová, irado com tal audácia, fez com que os homens que a construíam passassem a falar de formas diferentes. A confusão criada pela impossibilidade de comunicação deu origem a todas as línguas hoje faladas na Terra.
 
Passei aqueles 5 minutos esperando minha mulher comprar pãezinhos para o lanche da noite de sábado, cuidando da Nina e da Bela, nossas duas cachorras sapecas que não são bem-vindas na padaria. Foi o tempo suficiente para viajar à babilônica localidade. Tudo começou quando um festival de luzes solicitou minha atenção para um carro que passava, uma limusine preta com uns 7 metros. Esses estranhos veículos tipicamente nova-iorquinos ganham por aqui um ar de exagero de gosto duvidoso porque não são, como lá, figuras corriqueiras, adaptadas à paisagem. E também porque as nossas não são de fábrica, são adaptações de carros comuns, utilitários alongados em oficinas artesanais. Parecia mais uma nave espacial em missão de reconhecimento.
 
Mas logo minha atenção foi desviada do longo disco voador para um pequeno grupo de ETs que passavam ao meu lado. O susto foi grande, pois eram umas 12 crianças fantasiadas de tudo, de bombeiro a índio americano, da fadinha ao ET propriamente dito, com direito ao dedo luminoso e tudo. E ainda por cima elas estavam sendo conduzidas por um casal de abelhas gigantes, com antenas e camisetas listradas. Para quem só estava esperando pão para o lanche, um susto compreensível. O mundo só voltou a ser confiável depois que me lembrei de que se tratava da festa do Purin, o carnaval judaico que festeja a vitória dos judeus na Babilônia (olha ela de novo), na época em que o rei Assuero, ao não poder revogar a lei que permitia a perseguição aos judeus, influenciado pela mulher, Ester, decretou outra, dando a eles o direito de se defender. É que o Assuero também governava por medidas provisórias. A moda é antiga.
 
Quando cruzaram a rua em direção à festa, os pequenos fantasiados acabaram envolvendo por alguns instantes um missionário evangélico que entoava desafinado uma canção que dizia algo como “sem Jesus não dá…” e distribuía folhetos convidando os passantes para um culto onde, provavelmente, seria encontrada a única salvação possível para o fim próximo. Os judeuzinhos alegres fizeram coro a Jesus até serem repreendidos pela abelha-rainha que, certamente, depois iria explicar que aquele era um judeu que não era admirado pelos demais.
 
Foi quando os punks apareceram. Eram uns 20, entre rapazes e moças, a maioria muito magros, lembrando um Ramone legítimo. Vestidos com roupas negras, ostentavam tatuagens e piercings e falavam alto, rindo de quaisquer asneiras que os outros diziam. Aliás, passavam a impressão de que era só o que falavam. Fiquei apreensivo com o conflito que poderia surgir com o solitário salvador do mundo que distribuía panfletos contra o demônio, mas, pasme, passaram por ele sem notar sua presença, tão envolvidos na troca de impropérios entre si.
 
Foi quando alguém falou comigo. “É shi-tzu ou lhasa?” Demorei um pouquinho para pousar na Terra. “Hein?!” “Seu cachorro é shi-tzu ou lhasa apso? Nunca sei a diferença entre os dois”, perguntou a mulher que segurava um imenso golden retriever ao meu lado, esperando o marido que também fora comprar pãezinhos. “Ah, é shi-tzu, o lhasa tem o focinho maior”, respondi, voltando a este planeta. Fui salvo por alguém da minha tribo. Daquela tribo em que um cuida do cachorro na esquina enquanto o outro compra pãezinhos para o lanche de sábado à noite. Fiquei agradecido.
 
Então olhei para a porta da padaria, em direção à qual minhas amigas peludas insistiam em ir. Sorrindo vinha vindo minha mulher italiana, com os pãezinhos franceses comprados na padaria do português. Estamos em São Paulo, a torre de Babel que, se não chegou ao Céu, pelo menos ainda não foi destruída pela ira divina.
 
Essa experiência me deixou pensando na fantástica diversidade da fauna humana, no fato de que todos temos tendência a nos juntarmos àqueles que se parecem conosco, e na importância de uma qualidade humana que deveria ser comum e universal: a tolerância e o respeito com a diferença.
 
Viva a diferença
 
Vivemos em uma era marcada pelas diferenças, ou, pelo menos, em um tempo em que as diferenças são mais evidentes, estão mais expostas e a maioria das pessoas tem consciência delas. Lembro-me de uma época em que as pessoas me pareciam iguais ou muito semelhantes. Quando garoto, nos anos 1960 e 1970, estudei em colégio de padres, e me espantava quando conhecia alguém que dizia não ser católico. Tive um colega que dizia que seus pais não acreditavam em Deus, e ele virou curiosidade, quase um alienígena.
 
O normal era que as pessoas fossem católicas e se vestissem conforme os padrões da decência, sem exagerar nas cores, muito menos nos decotes. Esperava-se, na Curitiba da época, que as pessoas estudassem pelo menos até o colegial, que tivessem um emprego, que passassem as férias em uma praia paranaense, no máximo catarinense.
 
Entre os garotos, as diferenças maiores ficavam por conta do colégios em que estudavam ou do clube que frequentavam. Ter um padrão era o padrão. Era bom ser igual. Olhando aquele tempo a partir de uma luneta do mundo atual, dá para dizer: “Eta, tempinho chato”. De fato, a previsibilidade e a mesmice não são exatamente motivos de excitação.
 
Pois, se a diferença e o inusitado são estimulantes, dá para dizer que vivemos em um mundo carregado de estímulos. Atualmente, ser diferente é que é bacana, ainda que muitos não percebam a riqueza que isso traz e prefiram a segurança da igualdade.
 
O que mais espanta, atualmente, é que, ao lado da beleza da diferença, caminha o fantasma da intolerância. Dentro desse imenso cadinho de tipos humanos, que se diferenciam pelos hábitos, pelas escolhas e pelas crenças, existem aqueles que se orgulham de ser como são ¿ e isso só é possível porque há aqueles que não são assim e odeiam quem assim não é. Esse é o grande paradoxo da diferença.
 
Lembro-me de ter ido assistir a uma partida de futebol e observado um grupo de torcedores próximos ao alambrado que os separava da torcida rival. Não creio que eles tivessem assistido ao jogo. Não viram os gols nem os lances empolgantes. Perderam até a oportunidade de xingar o juiz. Na verdade, estavam ocupados xingando uns aos outros e marcando briga para depois do jogo. “Te pego lá fora!”
Como assim?! Meu time só existe porque existe outro contra quem jogar, e este outro só se sustenta porque tem uma torcida própria. Talvez o futebol seja a ponta desse iceberg, a parte que dá para ver facilmente. Mas há o corpo principal, que está submerso, escondido, incrustado na trama social.
 
Uma lição da natureza
 
Aqueles bichinhos bem pequeninos, os protozoários, seres cujo corpo inteiro é formado por apenas uma célula, têm algo a dizer sobre esse assunto. Entre eles, há um muito exuberante, chamado paramécio, que habita água doce e tem a superfície coberta de cílios que se movem como se fosses hastes de trigo ao vento. Trata-se de um ser que não tem mais que 200 micra de comprimento, ou 0,2 do milímetro, e só pode ser visto ao microscópio.
 
Esse pequeno ser, como tantos outros, se reproduz de maneira muito simples: quando cresce acima de certo tamanho, simplesmente se divide em dois. É a chamada “reprodução assexuada”, que não depende da produção de gametas (óvulo e espermatozoide), muito menos de um ato sexual. Trata-se de um fenômeno de extrema autonomia reprodutiva dos bichinhos. Mas esse sistema tem um defeito: cada descendente é absolutamente igual ao anterior. Para usar uma expressão da biologia, não há “recombinação genética”, e isso, com o tempo, provoca a degeneração da espécie.
 
Precisamente por isso, o esperto paramécio, de tempos em tempos, muda o esquema e pratica um ato de “reprodução sexuada”, produzindo uns gametinhas e trocando com outro da mesma espécie. O curioso é que esse fenômeno só tem esta finalidade: trocar material genético. No fim do ato, os dois bichinhos continuam sendo dois; essa reprodução não aumenta o número, apenas provoca a troca genética. O protozoário “sabe” que precisa do outro para evoluir. Se não houver troca genética, haverá degeneração. Isso explica que a teoria da raça pura, que levou (e leva) a genocídios, não é só vil, é também idiota.
 
Eu vejo nesse fenômeno uma imensa lição: a troca favorece. Ficar preso em uma cultura única, abster-se de ver o outro, de tentar entender o diferente, negando o valor do semelhante que não é tão semelhante assim, empobrece, emburrece, diminui.
 
Felizmente as esquinas de Babel se reproduzem em todas as esquinas. Estão nas cidades, nos bairros, nos estádios, nas escolas, nas empresas. E é bom estar nelas. Do francês temos a expressão vive la différence, que foi adotada como símbolo da aceitação e até apreciação da diversidade. Inteligentes palavras. Viva a diferença, porque ela gera vida. A troca do material genético cultural, por meio da aceitação, da apreciação e do respeito, é um bom caminho para o aprimoramento.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br

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