A gestão está orfã (Peter Drucker)

Peter Drucker morreu, mas vai ser lembrado como sempre quis: por fazer a diferença na vida das pessoas
 
Agestão está órfã. Peter Ferdinand Drucker morreu no dia 11 de novembro, uma semana antes de completar 96 anos de idade. O homem que tantas vezes se reinventou na vida, partiu para a derradeira mudança: saiu do papel de mito para entrar na condição de lenda.
Nascido em Viena, Áustria, morou em Londres, onde estudou com Keynes, e em Frankfurt, onde fez doutorado em direito público e internacional. Em 1933 teve de sair da Alemanha, após um artigo seu ter sido condenado pelo nazismo emergente. Voltou à Inglaterra para trabalhar como jornalista econômico e como analista de seguros, e mudou-se para os Estados Unidos em 1937. E foi lá que sua mente inquieta encontrou o ambiente ideal para suas observações e intervenções. Aliás, era assim mesmo que ele se intitulava: um observador. Para alguém que insistisse mais sobre suas atividades, ele dizia, no máximo: “Sou um ecologista social”.
 
Considerando os assuntos da gestão e do comportamento humano no mundo do trabalho, duas coisas são difíceis de dizer a respeito de Peter Drucker: sobre o que ele falou e sobre o que ele não falou. Quando tentamos reduzir sua obra a uma idéia, ou mesmo a um centro de interesses, percebemos que isso é quase impossível, dado o alcance de seus pensamentos. E quando tentamos encontrar algum tema não abordado por ele, a tarefa fica ainda mais difícil. Se insistirmos na missão de buscar seu principal núcleo de interesse, o mais provável é que cheguemos à conclusão de que a linha mestra para Drucker tenha sido a inovação. O termo, nesse caso, aplica-se em seu sentido mais amplo: a inovação como condição de sucesso para as empresas; a inovação no modo de pensar a administração; a inovação como pré-requisito do empreendedorismo; a inovação própria do trabalhador do conhecimento e, na condução de sua própria vida, a inovação em se dedicar a diversas áreas do conhecimento até o fim. Além da inovação máxima: a de ter sido o primeiro grande guru do management.
 
DRUCKER, O POS-MODERNO
 
Peter Drucker cruzou o século 20 e ajudou a criar a gestão moderna. Mas podemos dizer que ele foi um “pós-modernista”, quando lembramos que os movimentos intelectuais chamados “modernistas” tentavam explicar as características e o comportamento humanos a partir de uma única teoria ou princípio, como fizeram o marxismo, a psicologia freudiana, o estruturalismo e o próprio capitalismo. O pós-modernismo questiona sobremaneira essa tendência, e prega que não existe narrativa final simplificadora, à qual tudo se reduza e se subordine, e sim uma diversidade de perspectivas do mundo, que são complementares ainda que, às vezes, pareçam afastadas ou até antagônicas.
 
Drucker é, então, multidisciplinar e pós-moderno, e é desses autores em cuja obra sempre podemos ter esperança de encontrar as respostas que procuramos, e até as que não procuramos. Com sua diversidade cultural, ele consegue explicar os temas da gestão juntando a simplicidade didática com a elegância erudita. Quando escreveu sobre metas, por exemplo, usou como exemplo a ópera Falstaff, a que ele assistiu quando tinha 18 anos em Hamburgo, na Alemanha. Conta que se surpreendeu ao descobrir que Verdi a havia composto quando já era octogenário, dizendo que a tinha criado porque não podia parar de “buscar a perfeição”, e estava diante de uma nova oportunidade. Isso encantou o jovem estudante universitário e criou nele um modelo de pensamento e de comportamento que o acompanhou por sua longa e produtiva vida, a exemplo do compositor italiano.
 
Sobre visão, algo tão lembrado quando o assunto é cultura organizacional, Drucker escreveu citando Fídias, o grande escultor da antiga Grécia. Consta que o artista reagiu à observação de que ele não precisaria esculpir as costas das estátuas que seriam colocadas no teto dos templos, pois ali ninguém poderia vê-las. “Enganam-se”, teria respondido o escultor, segundo Drucker, “os Deuses podem vê-las”. E assim era o homem que é considerado o patriarca da gestão. Não se permitiu fazer um trabalho que fosse apenas mediano — buscou a perfeição como se fosse vigiado pelos deuses.
 
A INVENÇÃO MAIS IMPORTANTE
 
Após ler Peter Drucker muitos concluem que a invenção mais importante do século 20 foi a gestão, pois sua teoria é de que todas as demais invenções valeram-se desta para ganhar vida. Nada mais lógico. E Drucker conseguia explicar a gestão ao mesmo tempo que a simplificava. Mesmo sendo considerado um maratonista da palavra, falada ou escrita, a essência de seus discursos e textos era passada por frases curtas e certeiras. Sobre estratégia, definida de forma complexa pela maioria dos autores, disse: “É a análise da situação presente e de sua mudança, se necessário”. Sobre planejamento: “Planos são apenas boas intenções, a não ser que sejam transformados imediatamente em trabalho duro”. Sobre liderança: “Gestão é fazer certo as coisas; liderança é fazer as coisas certas”. Bingo.
 
Usando essas palavras simples e elegantes, discorreu sobre administração contemporânea, dando ênfase a três pontos: a inovação, o empreendedorismo e as estratégias capazes de atender a um mundo em movimento cada vez mais acelerado. Dentre suas elegâncias, selecionamos a expressão knowledge worker — trabalhador do conhecimento, que não é apenas aquele cuja atividade tem o conhecimento como produto, mas todos os profissionais que vêm sua atividade ser modificada diariamente por novidades, entre elas as tecnológicas — ou seja, todos nós. Drucker disse que sociedades são agrupamentos humanos que apresentam traços culturais comuns, que as empresas são exemplos crescentes desses agrupamentos e que os traços comuns serão cada vez mais definidos pela informação e pelo conhecimento. O “ecologista social” antecipou o que hoje chamamos de Sociedade do Conhecimento.
 
Quando começou a estudar administração, durante a Segunda Guerra, definia um gerente como “alguém que é responsável pelo trabalho dos subordinados”. A partir dos anos 50 mudou para “aquele que é responsável pelo desempenho das pessoas”, e finalmente aperfeiçoou a definição para “o responsável pela aplicação e pela execução do conhecimento”. Gostava de citar Sócrates, para quem o conhecimento estava a serviço do autoconhecimento e do autodesenvolvimento — os resultados internos; e Protágoras, para quem o importante era saber o que dizer, e dizê-lo bem — os resultados externos. Drucker tinha os gregos como seus assistentes.
 
COMO SER LEMBRADO
 
No começo de 1950, morando em Nova York, Drucker acompanhou seu pai, Adolph, à casa de outro austríaco ilustre: Joseph Schumpeter, então professor de Harvard. Os dois (Schumpeter, o pai da inovação empresarial, e Adolph, o pai do inovador empresarial) eram amigos de juventude e tinham alguns segredos entre si. Um deles era a ambição juvenil de Schumpeter de ser lembrado na posteridade por sua habilidade com os cavalos e seu sucesso com as mulheres. Entretanto, no final da vida, o economista havia mudado de opinião. Queria ser lembrado por “ter feito diferença na vida de outras pessoas”. Schumpeter morreu cinco dias após essa visita.
Naquela noite, essa visão madura do velho professor atingiu Drucker como um petardo. Ele jamais se esqueceu que fazer diferença na vida das pessoas é algo pelo que vale a pena ser lembrado. E, como tudo o que fez na vida, levou a sério essa idéia. Drucker foi-se, mas deixou a Claremont Graduate University, que ajudou a criar na Califórnia, 38 livros, centenas de artigos, milhares de seguidores que usam seus conceitos em empresas e universidades como raízes de modelos de gestão e de comportamento. Continuará fazendo a diferença em nossas vidas por muito tempo, e por isso certamente será sempre lembrado.
 
Texto publicado sob licença da revista Você SA, Editora Abril.
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