A harmonia e desarmonia das relações

O Homem é um ser gregário, ou seja, faz parte da grei, do grupo, do bando, do rebanho, ou se desejar, da sociedade. Não fomos concebidos para viver isoladamente. A sociedade humana é construída para que ocorra divisão de tarefas, facilitando a vida de todos e aumentando a capacidade individual da sobrevivência.
 
O interessante, no entanto, é que o homem não consegue viver sozinho, mas ainda não aprendeu muito bem a viver em grupo. Tem alguma dificuldade para lidar com as diferenças, esquecendo-se que é delas que nasce a diversidade criativa. É para isso que serve a educação. Para criar pessoas capazes de conviver harmoniosamente, retirando desse convívio, não apenas o aumento da capacidade de viver, mas também o prazer e a possibilidade de crescimento pessoal.
 
A Biologia é uma ciência que sempre tem o que nos ensinar, e colaborar como nosso comportamento, especialmente considerando que também somo objetos de seu estudo, pois somos, em princípio, queiramos ou não, animais. Um dos capítulos mais curiosos é o que estuda as relações, harmônicas e desarmônicas que os seres vivos estabelecem entre si. Três chamam a atenção, e podem ter aplicações incríveis para a compreensão das próprias relações humanas. Vejamos.
 
Comensalismo: Por definição é o ato de comer junto. Duas pessoas sentadas à mesma mesa, repartindo uma refeição estão praticando comensalismo. Seria correto dizer: “põe mais um prato na mesa, pois vamos receber mais um comensal”. Na Natureza, o comensalismo é considerado uma relação harmônica, pos ninguém sairá prejudicado. O piloto, aquele peixinho que costuma acompanhar o tubarão onde quer que ele vá, é um comensal. Alimenta-se dos restos que o tubarão despreza após sua refeição estar completada. O piloto é beneficiado e para o tubarão é indiferente. Uma pessoa almoçando na casa de outra será um comensal, desde que convidado, ou desde que tenha avisado antes, senão muda de categoria.
 
Parasitismo: Relação desarmônica. Um dos indivíduos será beneficiado, mas em detrimento de outro que será prejudicado. Um verme no intestino de uma pessoa é um parasita porque ele se alimenta de parte do alimento dessa pessoa, o que a enfraquece, ou pior, se alimenta dos próprios tecidos dessa pessoa. A lombriga come nossa comida, o amarelão suga nosso sangue. É nessa categoria que pode se classificar o indivíduo do parágrafo anterior, se apareceu para almoçar sem ser convidado e sem avisar, pois pode estar prejudicando o dono da casa, despreparado para a visita.
 
Simbiose: Também chamada Mutualismo. É a melhor das relações. É harmônica bilateral, ou seja, ambos são beneficiados. Você já viu aquela cena, aparentemente suicida do passarinho bicando entre os dentes de um jacaré? Um bom exemplo de simbiose, pois enquanto o passarinho retira dali seu alimento, que são os restos alimentares do réptil, está também fazendo a higiene bucal para o próprio. Nada mais adequado. O jacaré jamais abocanha o passarinho, pois precisa dele. Nesse caso, a junção é opcional, pois eles até poderiam viver separados, mas também há casos de simbiose obrigatória, como o líquen, um organismo duplo, encontrado em florestas, e formado pela junção de dois indivíduos que simplesmente não conseguem viver separados: a alga e o fungo. O fungo absorve água do solo, coisa que a alga não consegue fazer, e esta, por sua vez, realiza a fotossíntese, o que não está entre as habilidades do fungo, e depois repartem a refeição.
 
No comensalismo, um é beneficiado e o outro é indiferente, no parasitismo um é beneficiado e o outro prejudicado, no mutualismo ambos são beneficiados. Nas relações comerciais, os especialistas chegaram às mesmas conclusões. O melhor tipo de negócio que podemos fazer é o que garante o ganha-ganha. O ganha-perde, ou mesmo o ganha-tanto faz não prosperam, pois não têm o valor agregado da satisfação mútua. E ambos migram, com o tempo, para o inevitável perde-perde.
 
O mutualismo é o único sistema viável, pois há interesse em ambas as partes pelo bem estar do outro. Um torce pelo outro. É um jogo em que é impossível perder. Tem jogo melhor? O homem, graças à sua inteligência, inventou ainda mais uma alternativa, a do mutualismo sinérgico, em que o conjunto é maior do que a soma dos valores das partes. Bela aplicação da inteligência humana.
 
Tudo isso serve apenas para uma rápida, mas profunda reflexão. Como estão afinal, suas relações? Sem esquecer que o tipo de relações que conseguimos estabelecer com o mundo define que tipo de pessoas somos, e qual o valor que a sociedade nos atribui. Bom tema para ocupar os momentos de autoterapia!
 
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