A história de cada um

História, em grego, tem o significado de pesquisa. Busca entender, através de muita investigação, a relação do homem com o tempo e com o espaço. Conhecer essas relações nos ajuda a compreender quem somos, o que fazemos neste planeta e, também a conseguir, pelo menos em parte, imaginar o futuro.
 
Todos estudamos, no colégio, História do Brasil e do mundo, e muitos de nós achávamos chato ter que decorar datas e acontecimentos que pareciam tão dissociados de nossa realidade pessoal. Os bons professores, entretanto, conseguiam passar aquilo que se chama em pedagogia de “significado”, ou seja, a importância da matéria, a beleza de seu conteúdo e seu impacto em nossa realidade.
 
Ao contrário de muitos colegas, sempre gostei de estudar História. Talvez porque algum professor teve a arte de me mostrar que todos somos seres históricos, ou seja, capazes de influenciar a sucessão de acontecimentos ao nosso redor e, pelo menos, construir nossa própria história pessoal.
 
Os especialistas chamam de “consciência histórica”, a capacidade de uma pessoa, ou uma coletividade, compreender sua realidade presente na perspectiva de um movimento temporal. A vantagem disso é aumentar o controle sobre seus movimentos futuros. Em outras palavras, conhecer história nos ajuda a construir história.
 
Quanto a isso, sempre tive uma grande curiosidade: o quanto da história de cada pessoa é resultado de suas próprias escolhas e até que ponto essa história resulta da influência dos outros, do local e do tempo em que se viveu?
 
Lembro de dois geógrafos que se referiram a isso de maneira aparentemente oposta, Friedrich Ratzel e Vidal de la Blache. “O homem é consequência do meio”, disse o alemão Ratzel. “O meio é que é consequência do homem”, retrucou o francês de la Blache. Qual dos dois tem razão? Veremos…
 
O gráfico da história
 
Imagine um gráfico de duas variáveis, tipo x e y. Agora coloque na abcissa (a linha horizontal do gráfico, representada pela letra x), a influência que o mundo teve na construção de sua história enquanto indivíduo. Aqui entram sua família, as escolas que frequentou, seus amigos, parentes, vizinhos, e também instituições como a igreja e o estado político que marcou sua formação, além dos movimentos culturais, como a música e a literatura, que costumam ser representativas de seu tempo. Tudo isso faz parte de seu mundo, tiveram influência sobre você, sem dúvida, e colaboraram com a construção de sua história pessoal.
 
É evidente que todos somos resultado do tempo e do local onde nascemos, fomos educados, crescemos, nos formamos, vivemos. Mas também é sabido que as escolhas que fazemos, as decisões que tomamos, os atos voluntários que temos podem influenciar imensamente, e até desviar o que seria nossa história previsível.
 
Então agora coloque na ordenada (a linha vertical, y) de nosso gráfico imaginário, suas escolhas pessoais, aquelas decisões que você pode, conscientemente, atribuir a você mesmo. Atitudes que não respeitaram o status quo ao seu redor. Momentos em que você, se não foi exatamente contra, também não foi a favor da corrente predominante. Quando você foi algo que poderia ser considerado rebelde, transgressor, até subversivo, aos olhos de quase todas as pessoas.
 
E agora reflita: em que local da área do gráfico você acha que se encontra? Quanto você foi influenciado pelos acontecimentos alheios a você? Até que ponto você acha que realmente esteve no comando de sua vida? A quantificação dessa duas variáveis vai dizer algo sobre você, e poderá jogar uma luz sobre seu futuro.
 
As quatro possibilidades
 
Dividindo esse gráfico em quatro quadrantes, para facilitar, teríamos quatro tendências principais. No quadrante inferior direito estariam as pessoas que acham que sua história foi construída pelo mundo, ou seja, através da influência de outras pessoas e dos acontecimentos marcantes, como a política, a ciência e a economia. Tenho uma amiga querida que um dia me confidenciou: “Fui educada para ser mãe e dona de casa. Não tive escolha, até meu noivo foi preferência de minha família. E não fui só eu, pois naquela época, em minha cidade, era assim que funcionava”. Isto aconteceu no século XX e não no XIX, como pode parecer.
 
Mas a história pode ter outras cores: quando conheci a família do Hans, meu colega da faculdade, entendi porque aquele garoto parecia fazer tudo bem feito e tinha a admiração de todos. “Eu apenas sigo o modelo de meu pai e de minha mãe”, me confidenciou. Para o bem ou para o mal, em grau maior ou menor, todos temos uma história assim para contar, sejamos honestos.
 
A esse padrão chamamos de “determinismo”, uma relação de causalidade, ou seja, todos somos consequência atuais de causas passadas, e não temos como fugir disso. O que se questiona não é a influência, e sim a rendição pacífica às causas que nos fazem mal, nos infelicitam. Chamamos de deterministas aqueles que não oferecem resistência a elas. Deterministas são os habitantes permanentes do quadrante inferior direito de nosso gráfico.
 
Seus antípodas são os que frequentam o quadrante superior esquerdo, aqueles que acreditam que sua história é construída por eles mesmos, e ponto final. Para eles, seu desejo é viável, a despeito do que aconteça ao seu redor. Seu padrão é o “possibilismo”. Para os possibilistas, tudo é possível. Um determinista diria: “Eu sou pobre porque venho de uma família pobre, nasci num lugar pobre, em um país pobre. O que você queria que eu fosse?”. Um possibilista diria: “Eu nasci pobre, mas não preciso morrer pobre. Vou construir minha própria história”. É comum que se diga que os que fazem história são desse tipo, mas, cuidado. É melhor examinar mais de perto a questão.
 
Será que a história é mesmo uma obra dos possibilistas, daqueles que não acreditam que o destino está escrito e pré-determinado? Fica a dúvida se todos os heróis históricos, aqueles que estiveram à frente das grandes mudanças que marcaram a construção da história foram possibilistas puros. Estou falando aqui de pessoas como Alexandre Magno, Colombo, Napoleão, Washington, Mandela ou Juscelino. E também como Newton, Edison, Einstein e até Bill Gates e Jobs. Em comum entre eles, o inconformismo e o desconhecimento de limites.
 
O problema dos possibilistas é o desrespeito às condições ambientais, o que os leva, muitas vezes a falhar, por se acreditarem invencíveis. O próprio Steve Jobs, que dizia criar ao seu redor um “campo alterado da realidade”, por isso mudou tanto a realidade do mundo, confessou que perdeu para a realidade mais vezes do que ganhou.
 
Mas, eles seriam mesmo possibilistas? Ou haveria outra categoria para esses quebradores de limites e criadores de novos padrões?
 
História e estratégia
 
Para nossa sorte, todas as vezes em que Jobs ganhou da realidade, ajudou a criar uma nova era, com os iMacs, iPods e iPads. Seus famosos iQualquercoisa ganharam vida porque Jobs tinha consciência do que o mundo da tecnologia ainda não tinha e do que poderia vir a ter. E isso o coloca em outra categoria, que vai além do determinismo e do possibilismo, uma categoria nova, a categoria dos “estrategistas”, habitantes do quadrante superior direito de nosso gráfico.
 
Por definição, os estrategistas acreditam fortemente em suas próprias possibilidades, mas nunca desrespeitam o poder da realidade ao seu redor. Apenas querem muda-la. Qualquer estrategista sério faz duas análises antes de se meter em uma aventura: a da situação real ao seu redor, com todas suas ameaças e oportunidades, e a de sua realidade interna, composta pelas forças disponíveis e pelas fraquezas persistentes. Os estudantes de administração e, principalmente, os executivos das empresas, usam esse princípio como um mantra.
 
Construir sua própria história não significa, portanto, ignorar o existente e exigir, de si e dos demais, o que ainda não existe. Significa ser lúcido para entender o que existe, ousado para propor mudanças e competente para implementa-las.
 
Enquanto o determinista se conforma e o possibilista se revolta, o estrategista se organiza e parte para a ação, sem lamúrias e sem bravatas. Enquanto o determinista tem, no máximo, esperança, e o possibilista é um otimista por natureza, o estrategista tem esses dois sentimentos acrescidos de um forte sentido de realidade.
 
O mundo nos influencia, sim, mas isso não significa que nos limite. Só se permitirmos que assim seja. Ao contrário, o mundo nos dá oportunidades, basta que sejamos capazes de aproveita-las.
 
Em seu livro The outliers – fora de série, o jornalista Malcolm Gladwel demonstra o resultado das pesquisas que fez sobre fatos fora do comum, bons ou ruins. Grandes catástrofes e grandes avanços nunca ocorrem por uma causa só, afirma. Entre suas análises, estudou a vida de Bill Gates, que, aos 25 anos, fundou a Microsoft e se tornou um dos homens mais bem sucedidos e influentes do século passado.
 
Segundo ele, Gates nasceu na época certa (começo dos anos 50), no local certo (costa oeste americana), filho da família certa (culta e com condições), e estudou no colégio certo (que disponibilizava computadores ainda insipientes para os alunos examinarem). Tudo isso fez dele um sucesso no mundo da informática. Mas, se muitos outros garotos, colegas seus, tiveram exatamente as mesmas condições, por que só ele? A resposta é simples: porque ele era a pessoa certa.
 
A propósito, quanto a Ratzel e Vidal, os dois tinham razão
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br

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