A lista

– Não quero ir. Estou com medo.
Esta foi a resposta que eu dei ao chefe Paulo, no grupo escoteiro a que eu pertencia. Eu tinha treze anos de idade, era inverno, Curitiba estava fria e úmida como nunca antes. O projeto era escalar o pico do Marumbi, na Serra do Mar paranaense, e eu estava realmente com medo da aventura.
 
– Que bom que você está com medo – respondeu e chefe escoteiro colocando a mão no meu ombro, como se fosse o próprio Baden-Powell – se não estivesse eu não ia querer que você fosse.
 
O chefe Paulo tinha um pouco mais de trinta anos, mas para mim, que ainda nem tinha barba, ele era um homem experiente de idade avançada. Eu o ouvia sempre com muito cuidado. Por isso achei estranha sua reação a uma confissão de medo, que para mim, era sinônimo de fraqueza. Devo dizer que me custou muito fazer tal declaração. Acho que ela só saiu porque já estava passando do nível do medo para o status de pavor.
 
Eu era um garoto magro, com crises de asma frequentes e tinha uma mãe super protetora. Havia entrado para o movimento escoteiro por insistência de minha irmã, que era amiga do chefe Paulo, e que tinha preocupações justificadas com o irmãozinho mais novo. Até aquela data eu já havia participado de alguns acampamentos, mas todos em locais mais próximos, confortáveis, quase colônia de férias, onde aprendíamos a montar barracas, fazer fogo e preparar comida. O maior desafio era lavar as panelas encardidas pelo fogo a lenha. Só que desta vez era diferente.
 
Escalar o Pico do Marumbi, hoje Parque Estadual, era outra coisa. Envolvia viajar de trem até sua base, dormir de modo improvisado, iniciar a subida no dia seguinte bem cedo e voltar apenas no terceiro dia. Eu nunca havia participado de uma aventura assim. Em meu peito havia um sentimento misto, pois ao mesmo tempo em que queria ir, entusiasmado com o desafio, também tremia só de pensar no tamanho da empreitada. Foi quando o medo falou mais alto que a excitação e eu abri meu peito para o chefe Paulo.
 
Só que o efeito foi oposto ao que eu esperava. Invés de ele dizer “Se você está com medo é melhor ficar em casa”, ele disse “Que bom que você está com medo, senão não poderia ir”. Vá entender esses adultos…
 
Mas o adulto Paulo se fez entender. E de duas maneiras. Primeiro quando me perguntou se eu já tinha lido Moby Dick, a obra do americano Herman Melville. Segundo quando me mandou preparar “A Lista”. Quando eu respondi que ainda não havia lido Moby Dick ele disse:
 
– Pois devia. As pessoas pensam que é apenas um livro de aventuras que conta a história do capitão Ahab que a bordo do Pequod, seu navio baleeiro, tenta caçar o imenso e temido cachalote branco. Mas o livro é mais do que isso. Trata-se de um livro fabuloso. Leia.
 
Eu respondi que trataria de ler, até porque gosto muito de leitura, e tenho atração por aventuras. Pelo menos nos livros… Então perguntei o que tinha a ver o livro com a escalada do Marumbi, ele me explicou:
 
– Quando estava selecionando a tripulação, o capitão Ahab disse: “Não quero em meu barco ninguém que não tenha medo de baleia”. É que uma pessoa sem medo pode ser imprudente. O medo nos protege, acredite.
 
Aquilo fez sentido para mim, e, curioso, avancei na conversa:
 
– Mas não é preciso ser corajoso para sair para o mar caçando baleias? Não entendi porque o capitão queria os covardes.
 
– Ele não queria os covardes. Queria pessoas com medo, mas dispostas a enfrenta-lo. É a isso que se chama coragem. Os covardes são os que se deixam vencer pelo medo. Os corajosos avançam apesar dele.
 
A conversa com o chefe Paulo estava acendendo uma luz em meu interior. Ele estava querendo aproveitar a oportunidade para me dar uma lição que serviria para o resto de minha vida. Moby Dick é, de fato, uma metáfora, um relato do encontro do homem com seu destino, e não apenas uma história de pescador. Falamos mais um pouco sobre o livro e, antes de nos despedirmos ele me deu a tarefa de casa: fazer A Lista. Era uma sexta feira, e eu devia entregar a tarefa na segunda. Tinha o final de semana para pensar e trabalhar.
 
A lista
 
A tarefa consistia em sentar sozinho e colocar no papel todos os motivos de meu medo. Era preciso materializar o sentimento. Segundo meu chefe, apenas dizer que se tem medo é tão assertivo quanto dizer que se quer ter sucesso sem dizer como e em que atividade. É vago demais. Por que, afinal, eu estava com medo de acampar na montanha? O que havia lá? Que perigos? Fantasmas?
 
À noite me fechei no quarto e comecei trabalhar na lista. Escrevi e reescrevi a dita cuja uma meia dúzia de vezes, “aprimorando meus medos”. Entre os tais havia coisas como o medo de nos perdermos, o frio, a fome, os bichos, o cansaço e, claro, a asma, que me acompanhava sempre e que aparecia principalmente quando eu estava com… medo. Em outras palavras, eu estava com medo de sentir medo.
 
Preparar a lista teve sobre mim um efeito espetacular. Pela primeira vez eu estava entendendo a origem de um sentimento. Quando nos encontramos na segunda feira, na sede do grupo escoteiro, nosso Baden-Powell pediu a lista, e leu com gravidade sem fazer comentários. Depois me devolveu junto com mais um papel e uma caneta.
 
– Agora fique aqui e faça outra lista. A lista das soluções para seus motivos do medo. Agora que você já sabe onde estão os monstros, pense sobre como será possível vence-los. Volto daqui a meia hora e veremos a que conclusões você chegou.
 
Quando Paulo voltou, examinamos as duas listas, comparando-as. O que eu percebi, com alguma surpresa, era que a maioria, senão todos, os motivos que me faziam sentir medo, podiam ser contornados de maneira extremamente simples. Não nos perderíamos porque teríamos mapa e bussola. Para o frio existem agasalhos. Para fome, toda uma bem pensada despensa de acampamento. Para a chuva, roupas impermeáveis e barracas. E não há bichos perigosos na Serra do Mar. No fundo, aqueles motivos não eram motivos, eram desculpas. Tudo estava sob controle. O único medo justificável era o medo do próprio medo, causado pela insegurança.
 
Depois de trabalharmos sobre as duas listas, encontrando soluções preventivas para todos os problemas previsíveis, o chefe Paulo me perguntou como eu estava me sentindo. Respondi que agora estava mais confiante. Foi quando ele acrescentou:
 
– Agora você está ficando corajoso.
 
A coragem
 
Estranha, a palavra coragem. Ela tem um erro implícito. Sua etimologia remete a cordis, coração, sugerindo que se trata de um sentimento. Entretanto, como meu chefe escoteiro me fez entender, a coragem se desenvolve na cabeça, pois é subproduto de lógica, da razão. Coragem como emoção pura não é coragem, é bravata, e beira a irresponsabilidade. Ter coragem de verdade é olhar os motivos do medo de frente e resolve-los, ou preparar-se para enfrenta-los, um a um.
 
Tive, ao longo de minha vida, inúmeras oportunidade para escrever outras listas de medos. Quando enfrentei o vestibular, quando queria me aproximar de uma garota por quem estava encantado, quando fui para uma entrevista de emprego, quando abri meu próprio negócio, quando fiz uma viagem de moto pelos Andes. Em todos esses momentos, e tantos outros, a lista me acompanhou, e me ajudou.
 
Foi a lista, por exemplo, que me ajudou a entender a diferença entre risco e risco calculado. O dicionário diz que risco é sinônimo de perigo ou de possibilidade de perigo. Se há perigo e eu enfrento assim mesmo, estou jogando com a sorte, entregando meu destino ao acaso. Mas se o que existe é a possibilidade de perigo, posso tomar providências para evitá-lo. Daí vem o conceito do risco calculado.
 
Ao saltar no ar como um pássaro, o trapezista não está enfrentando a queda, e sim a possibilidade de queda. E ele sabe que a possibilidade de se acidentar diminui à medida em que são tomados os devidos cuidados para evitar o acidente, como o treinamento exaustivo e, claro, uma boa rede de proteção. Ele não assume riscos que estejam fora de seu controle. O que parece loucura para o público, é técnica para o trapezista.
 
Nós, que não somos trapezistas, muitas vezes também saltamos no ar imaginário buscando um trapézio abstrato escondido nas realizações do cotidiano. Os riscos estão por aí, como pombos em uma praça italiana. Sobre isso, o psicólogo Leo Buscaglia escreveu que “Rir é arriscar-se a parecer louco, chorar é arriscar-se a parecer sentimental, estender a mão para o outro é arriscar-se a se envolver, amar é arriscar-se a não ser amado”. Não há, portanto, ação humana que não traga implícito algum risco. O que há, isto sim, são pessoas dispostas a enfrentar esses riscos, enquanto outras fogem deles.
 
Sempre que me sinto desconfortável, temeroso ou acovardado, paro um pouco para pensar. E faço minha lista. Houve listas que me deram coragem. E houve as que me fizeram desistir. Tudo bem. O importante é ter consciência do que este acontecendo. Não é mesmo, chefe Paulo Ari? A propósito, a vista do alto do Marumbi é maravilhosa.
 
O Eugenio Mussak conta que teve que vencer os motivos do medo de escrever o primeiro artigo para a Vida Simples, em 2002. Felizmente ele criou coragem.

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