A lógica do futuro

Como Alice, se você não sabe para onde está indo, qualquer caminho serve
 
O sucesso pode parecer um golpe de sorte, mas, olhando de perto, percebemos que a anatomia de uma carreira brilhante é composta por trabalho duro que segue uma estratégia lógica. Vamos falar um pouco da segunda. Um dos grandes estudiosos da lógica foi o matemático inglês Charles Dodgson. Ele escreveu dez livros sobre álgebra e geometria, mas fez mais sucesso com ensaios sobre a influência da lógica no futuro das pessoas e, surpresa… com literatura infantil. Publicou na revista Mind ensaio sobre uma pegadinha da lógica utilizada pelo filósofo Zenão: o herói grego Aquiles e uma tartaruga apostam uma corrida de 100 metros. Como Aquiles é 10 vezes mais rápido que a tartaruga, ele a deixa começar 80 metros à frente. Aquiles estava certo de sua vitória, mas eis que algo estranho aconteceu. No intervalo de tempo em que ele percorreu a distância que o separava originalmente da tartaruga, esta percorreu 8 metros, mantendo-se à frente do herói. E no tempo em que ele percorreu os 8 metros, ela andou mais 0,8 metro. Assim, sempre que Aquiles vencia a distância que os separavam, a tartaruga já estava em outro lugar. É uma pegadinha porque a historieta trata o espaço e o tempo dissociados. Na prática, Aquiles vai alcançar a tartaruga, pois é mais veloz.
É mais ou menos isso que acontece conosco. Quando chegamos a um lugar desejado, parece que ele se deslocou para frente, e nós precisamos continuar correndo. Pegadinha do destino? Não. É que às vezes esquecemos de celebrar as vitórias e vamos logo transformando o ponto de chegada no ponto de partida da próxima etapa. Não está errado, faz parte da insatisfação natural do ser humano, que é a base da nossa evolução. Só não podemos transformar essa insatisfação num estado de permanente ansiedade. Líderes celebram cada etapa, dando ânimo para o passo seguinte.
 
Lidar com esses “pontos futuros” é uma qualidade essencial para o sucesso. Quem não tem objetivos claros tateia na escuridão da incerteza. Líderes sabem aonde querem chegar e, primordial, compartilham sua visão com a equipe. Charles Dodgson escrevia livros infantis sob o pseudônimo de Lewis Caroll. O mais conhecido é Alice no País das Maravilhas. Nele há um diálogo em que Alice, perdida, pergunta ao gato de Sheshire qual caminho deve seguir. O gato questiona para onde ela deseja ir, e Alice responde que não tem certeza. Isso leva o felino a comentar: “Se você são sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve”. Após dizer isso, o gato desaparece, mas deixa visível seu sorriso sarcástico diante de uma Alice atônita. A metáfora explica a atitude do mundo diante dos que não sabem aonde desejam chegar. Tema de reflexão para o início de um ano. Ou a lógica do futuro ou o sarcasmo do gato de  Sheshire.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.


Visite o site da revista: www.vocesa.com.br a