A Lucidez

– Asseguro-lhe que posso levar adiante minhas próprias batalhas, e que não tenho probabilidade alguma de vir a precisar de sua simpatia. Valho-me apenas de minha lucidez.
 
A frase acima foi pronunciada de forma veemente pelo professor Challanger, um dos personagens do mundo fértil de Sir Arthur Conan Doyle, o escocês que, entre outras criações, deu ao mundo o detetive Sherlock Holmes, aquele que não investigava, deduzia.
 
E o que é que chama a atenção, tanto no velho professor, quanto no arguto detetive? A importância que os mesmos dão à questão da lucidez. Perspicácia, acuidade, clareza da inteligência. Percepção clara dos fatos e dos componentes físicos do mundo ao seu redor. Interpretação adequada da influência desses fatos sobre sua pessoa e sobre os demais. Isso é lucidez. Capacidade de ver o mundo com clareza.
 
Tá bom. E daí? Porque tanta preocupação com a questão da lucidez?
 
Simples. Porque se trata de um produto cada vez mais raro no mercado psicológico. Pessoas verdadeiramente lúcidas, em condições de ver o mundo sem distorções, sem a miopia dos que não são capazes de olhar um pouquinho à frente, a fazer planos pelo menos em médio prazo, ou sem a hipermetropia daqueles que só se fixam no futuro, e esquecem que os atos do presente determinam como será daqui pra frente, são, sim, raridades.
 
Você já percebeu como existem pessoas que são capazes de pronunciar frases do tipo – “olha, estarei te enviando a relação de componentes aditivos para a composição do relatório conclusivo da fase em questão”? Ou ainda – “o estágio atual de minha vida não comporta analises profundas porque não tenho como analisar nada em minha vida”. Pérolas da falta de percepção e de serenidade ao tentar uma comunicação simples.
 
Que tal dizer – “seguem as informações para o relatório final”? Ou – “Preciso parar um pouco para refletir sobre minhas prioridades”. Pronto. Informações lúcidas. Claras. Objetivas. Não complicadas. Mas segundo muitos, pra que simplificar se dá pra complicar?
 
Mas a lucidez principal, aquela que diferencia as pessoas que a possuem das demais, reside na percepção e interpretação dos fatos do mundo. A Natureza nos deu cinco sentidos para percebermos o que está acontecendo ao nosso redor, e um cérebro capaz de interpretar esses fatos e organizar a resposta mais adequada. É a isso que se costuma chamar proatividade. Ser proativo significa agir de acordo com seu interesse, e não de acordo com o interesse da fonte do estímulo. Animais são reativos, reagem instintivamente aos estímulos ambientais. Pessoas são (ou deveriam ser) proativas.
 
Entre a percepção dos fatos e a resposta a eles, encontra-se o pensamento lúcido. Ser detentor de lucidez significa perceber sem distorções (principalmente emocionais) os estímulos do meio ambiente, analisar desapaixonadamente os componentes desses estímulos, e organizar a resposta que melhor atenda as expectativas daquele momento.
 
Decisões costumam ter, ou não, lucidez. Reconhecemos, e valorizamos, as pessoas capazes de decidir com lucidez, com sentimento de justiça, considerando todas as variáveis e priorizando as urgências.
 
Como é bom conviver com alguém lúcido. Aquela pessoa que passa a sensação que não só está escutando, mas também está entendendo. E analisando. E compreendendo. E valorizando. E respeitando o que você está falando.
 
A lucidez gera comunicação eficaz. Produz resultado. Cria ambientes favoráveis. É, portanto, qualidade essencial à liderança. Pode um líder não ser lúcido? Não. Não será um líder. Será apenas alguém que dá ordens, correndo o risco de transformar-se em um tirano, pois a lucidez na liderança é o que nos passa os sentimentos de segurança, de justiça e de certeza de rumo.
 
Um dia desses, não resistindo à fascinação da Tiffany’s e Co. entrei, ao lado de alguém especial, na mítica joalheria recém inaugurada em São Paulo, em cuja matriz, em Nova York, Haudrey Hepburn gravou seu nome em uma aliança de fantasia, encontrada em um pacote de pipocas, em uma cena carregada de simbolismo, no filme Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s), e aprendi mais um significado para lucidez.
 
A lapidação diferenciada, que confere mais brilho aos diamantes é patente internacional da Tiffany’s, chama-se simplesmente Lúcida. Sabe porque? Porque é o nome que se dá à estrela mais brilhante de uma constelação qualquer. A estrela que se diferencia. que agrupa as demais ao seu redor que impressiona pela luz que emana.
 
E qual é a luz que as pessoas lúcidas emanam? Ora, a mesma dos diamantes. A que vem de fora. Ou seja, essas pessoas têm como característica, a capacidade de percepção (dos fenômenos ao seu redor), de análise (da qualidade desses fenômenos) e de exteriorização (do alcançado através de suas análises).
 
Que tal ser assim? Brilhante, diferenciado, aglutinador, impressionante? Qualidades das pessoas lúcidas. Daquelas que são perceptivas, reflexivas, proativas, confiáveis. E sabe donde vem essas qualidades? Só de um lugar: da educação. Entre os humanos, lapidação é sinônimo de educação. Lapide-se, portanto… e brilhe!
 
Texto publicado sob licença da revista T&D.
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