A morte do Super Homem

Morreu Christopher Reeve, mas parece que morreu o próprio Super-Homem. Ao contrário do que acontece com o Batman, cujos interpretes vão sendo substituídos sem muita reação por parte dos fãs do personagem, será difícil colocar outro ator para representar o homem de aço.
 
Parece que o primeiro ator a interpretar o super-herói foi George Reeves, na década de 40, mas ninguém se lembra dele. Já o Reeve (sem o s) vai ficar na memória de todos por muito tempo, não só pela qualidade da produção dos quatro filmes interpretados por ele, entre 1978 e 1987, mas principalmente pela ironia do destino que o transformou, em 1995, após um acidente em uma prova de hipismo, em um tetraplégico.
 
Mas pode o Super-Homem ficar paralítico do pescoço para baixo? Pois bem, foi exatamente a partir de então que Christopher Reeve revelou seu verdadeiro lado de super. Durante os nove anos que ainda viveu, o ator americano mostrou uma fibra que falta a muitas pessoas saudáveis. Engajou-se em uma luta a favor dos direitos dos deficientes e também a favor das pesquisas com células tronco, que pode ser a grande saída, não só para acidentados da medula espinhal, mas também para muitas outras doenças degenerativas. A ciência não tem dúvidas a respeito desse caminho, mas a discussão continua intensa no campo da ética e da religião.
 
Voltando ao Super-Homem, o que, afinal, justifica seu sucesso, considerando que ele é apenas um personagem infantilizado, que realiza proezas absolutamente impossíveis, como voar e enxergar através de sólidos? Provavelmente é a angustia humana diante das dificuldades que parecem intransponíveis. O Super-Homem, como o conhecemos hoje, foi criado em 1933, em plena grande depressão americana, por Jerry Siegel e Joe Shuster. Para resolver aquela crise, só mesmo um homem com poderes especiais.
 
Na verdade, a idéia de um Super-Homem é mais antiga. O grande precursor da idéia foi o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, quando, em 1892 lançou o livro Assim Falava Zaratustra. Nessa obra, ele reescreve as idéias de Zaratustra, também chamado Zoroastro, um profeta do século VI a.C., que teria escrito o código moral, político e religioso dos antigos persas. Parece então que o Super-Homem de Zaratustra passa por Nietzsche e chega até Siegel e Shuster. Da Pérsia aos Estados Unidos com escala na Alemanha em um parágrafo. Coisas do Super-Homem!
 
A idéia de Zaratustra, entretanto, não tinha nada a ver com um homem de músculos de aço. Ele utilizava uma metáfora para que as pessoas comuns chegassem à conclusão de que todos nós somos super em potencial, e que podemos superar nossas dificuldades comuns. Isso, no entanto, não tem nada a ver com esculpir músculos ou tomar alguma espécie de elixir da inteligência. Nós nos tornamos super quando vencemos nossos inimigos internos, que são os piores. Quando aprendemos a superar nossos medos, modificar nossos hábitos incorretos e fazer o que precisa ser feito sem deixar para depois. As principais características do Super- Homem de Zaratustra não são a visão de raios X ou a capacidade de voar, mas a vontade e a coragem para vencer os quatro inimigos internos principais: a ignorância, a indolência, a arrogância e o medo.
 
Nietzsche interpreta certo, mas acrescenta sua própria visão, dizendo que isso não é tarefa para todos. Alega que em sua maioria as pessoas são comandadas pelos sentimentos de medo, rancor, superstições, ciúmes, inveja, o que torna as pessoas presas a uma mentalidade e a um comportamento de escravos. Poucos seriam os eleitos pela natureza ou pela vida para ser Übermensch, a palavra alemã que significa algo como “um humano melhor” e que foi popularizada como “Super-Homem”.
 
Nietzsche tinha uma visão negativa da sociedade, que ele dizia estar decadente, e acusava a igreja católica, o liberalismo do comportamento, a burguesia acomodada, os movimentos feministas e a própria democracia, manifestada pelas ações dos sindicatos. De acordo com ele, a única alternativa para salvar a humanidade da decadência total seria o aparecimento de algum Übermensch salvador, que estaria dispensado, inclusive, dos freios morais – olha o perigo, logo depois surgiu o Terceiro Reich.
 
A criatura de Metrópolis tem pouco em comum com os super homens de Zaratustra e de Nietzsche, mas trata-se de uma figura que nós gostaríamos que existisse. A simples referência a ele já fornece uma espécie de alívio, pois acena com uma possibilidade de salvação mágica, que é o que gostaríamos de encontrar. Entretanto, a reflexão mais importante deveria ser a original: o Super-Homem existe sim, e está dentro de cada um de nós. A questão é só achar a oportunidade e a cabine telefônica adequadas!
 
A idéia do Super Homem deu lugar na História a Zaratustra, respeito filosófico a Nietzsche, fama a Siegel e Shuster e muito dinheiro para os marqueteiros da política. A cada um de nós deveria dar a certeza de que podemos ser melhores do que somos, e que isso é uma conquista diária. E que não seremos salvos por ninguém, apenas por nós mesmos. Foi o que a super-dignidade do Christopher Reeve nos mostrou, até que seu coração parou de bater, no último domingo, como que atingido pela criptonita.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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