A morte em nossa vida

– Você está com medo? – perguntou a jovem Caroline a sua mãe, que se encontrava no leito de morte.
 
– Não, estou curiosa – respondeu Daisy Fuller, que então sorriu e, como que para fazer as pazes com a vida, começou a contar à filha um segredo do passado: sua relação com um tal Benjamin Button, homem que nasceu velho e foi rejuvenescendo até morrer como um bebê. O relato era um desabafo e Caroline termina por descobrir que o fantástico homem era seu próprio pai.
 
A passagem acima foi retirada de um conto do escritor americano F. Scott Fitzgerald, que foi publicado em 1921 e em 2008 virou o filme O Curioso Caso de Benjamin Button, dirigido por David Fincher e interpretado por Brad Pitt e Cate Blanchett. Conta a história de um homem que tem uma trajetória de vida oposta à natureza humana: ao invés de envelhecer, ele rejuvenesce. Quando escreveu o bizarro conto, Fitzgerald estava subvertendo a maior das angústias humanas: a percepção do envelhecimento e a certeza de seu epílogo, a morte.
 
Se pudéssemos escolher, preferiríamos ver nosso corpo melhorar com o tempo, não deteriorar-se inexoravelmente como um prenúncio do fim. Como não temos esse poder, só nos resta a imaginação, com a ajuda da literatura e do cinema.
 
Mas Benjamin Button não é Connor MacLeod, o Highlander, o imortal guerreiro escocêsnascido no século 16. Benjamin vive o tempo de uma vida, e mostra que ainda que tentemos – e até certo ponto consigamos – segurar o tempo, não teremos como vencer a morte. A anciã Daisy conhece essa verdade e lida com ela com a sabedoria de quem viveu intensamente. Por isso não teme, apenas está curiosa.
 
Este é um tema campeão na literatura universal, empatando, talvez, com o amor. E ambos estão, comumente, ligados, como em um Romeu e Julieta em distintas versões. É possível que amemos tanto a vida porque temamos tanto a morte. Mas devemos então evitar a vida para ter a ilusão de não morrer, como alguém que não quer um cãozinho porque sabe que vai sofrer quando ele morrer? Não, pois o mistério da morte não é maior que o mistério da vida, uma categoria pertence à outra. Perceba que viver pressupõe morrer, e morrer significa ter vivido. São indissociáveis. Estamos diante de um mistério único que, por escapar à nossa compreensão e ao nosso controle, nos angustia e infelicita.
 
Certo esteve Epicuro ao dizer que não temia a morte pelo simples fato de que jamais a encontraria, pois enquanto ele estivesse vivo a morte não estaria presente, e quando ela aqui estivesse ele não estaria mais. O argumento do filósofo tem uma lógica perfeita. O problema é que nós não encaramos a morte com a lógica e sim com a emoção.
 
Como seres pensantes que somos, tentamos racionalizar repetindo aquelas verdades que no fim não consolam, como “Para morrer basta estar vivo” ou “Começamos a morrer quando nascemos”. São frases epicuristas, todas encerram uma verdade, só que, quando o assunto é a morte, preferiríamos a mentira, a ilusão da imortalidade, o engano de que só existe vida.
 
“Eu não quero ser imortal por minha obra. Quero ser imortal não morrendo”, desabafou Woody Allen, em um de seus momentos geniais. Lamento, Woody, mas não será possível. O que nos resta é viver como se não fossemos morrer, pensando e glorificando o milagre da vida, senão morreremos antes de morrer, como explicou Freud em seu O Mal-estar na Civilização, onde coloca a perspectiva da morte como uma das principais causas da infelicidade humana. Morrer antes de morrer significa não viver apesar de estar vivo.
 
A lógica de Epicuro, a ciência de Freud e o humor de Woody Allen estão todos certos, errados estamos nós que sofremos pelo que não controlamos porque nos acostumamos a pensar que somos deuses, que a razão nos dá o controle, que a vontade é infinita. De repente descobrimos nossas limitações e nos desesperamos. Eu e você morreremos, sim, e isso está certo. O errado é morrer antes de morrer, é não encarar a vida com humor e gratidão, é perder a oportunidade de deixar este mundo melhor com a própria presença.
 
Expirando em seu leito, o imperador Augusto, por exemplo, pediu um espelho para ajeitar as madeixas e disse aos que o amparavam: “Se vocês gostaram da encenação, aplaudam, para que eu possa sair de cena feliz”. Certo o romano. Morrer é sair de cena, e só nos resta aceitar que a peça terá um fim e que devemos interpretar nosso papel como virtuoses deste teatro fantástico.
 
O segredo para não sofrer com a morte não seria acreditar que ela é apenas uma fase da vida eterna?
 
O segredo para mitigar o sofrimento está, sim, em acreditar em algo, pois o que nos mortifica é a dúvida. O homem é feito de razão, emoção e crença, e esta última é construída a partir da matéria que compõe as duas primeiras. Crenças são criadas a partir de valores e desejos, existem para tornar nossa vida melhor e só podem ser questionadas por quem as possui. Epicuro, por exemplo, antecipou a teoria atômica dizendo que tudo é formado por minúsculas partículas em movimento, e acreditava que isso valia para nosso corpo e também para nossa alma. Dizia que o homem e sua alma nada mais são que matéria em movimento, e que quando esse movimento fosse interrompido não restaria mais nada, seria nosso fim. Essa era sua crença, o que lhe deu tranquilidade até para brincar com esse destino.
 
Já para os budistas, a morte é uma ilusão, pois nada morre de verdade, muito menos a alma, nossa verdadeira essência. O que importa é alcançar o nirvana, o paraíso. Este seria um estado psicológico elevado, amoroso e sem ansiedade, o que só pode ser alcançado com desapego e meditação. Em outras palavras, para alcançar o nirvana do céu e virar eterno, o homem precisa construir seu próprio nirvana na terra, a partir de suas atitudes.
 
Aparentemente opostos, os pensamentos epicurista e budista têm algo em comum. Ambos creditam à vida como a conhecemos todo o mérito. Para o epicurismo esta é a única vida, portanto merece ser vivida plenamente; para o budismo o nirvana final, espiritual, só será alcançado através do nirvana terrestre, psicológico. Ambas as teorias propõem que se dê valor à vida, procurando fazer o bem e transformando- a em algo que valha a pena.
 
Já que não podemos fingir que a morte não existe, só nos resta criar a crença mais confortável. A morte é um mistério, mas a vida também é. Só que temos a ilusão de entender a vida porque ela pode ser percebida pelos órgãos dos sentidos. Medimos, pesamos, tocamos a vida. A morte não, ela é metafísica, está além de qualquer interpretação lógica. Sabemos o que é o fim da vida, mas não sabemos o que é a morte.
 
Como não sabemos, só nos resta acreditar. E crença é imaginação, não certeza, mas seu poder é irrefutável, pois é capaz de usar os pensamentos para acalmar os sentimentos. No fim é isto que importa, pensar e sentir para poder viver. Há apenas dois modos de abordar a morte enquanto existe vida: ignorá-la ou pensá-la. A primeira de nada adianta, enquanto a segunda ao menos traz mais cartas para o jogo da vida, criando novas perspectivas.
 
A morte também está presente nos fatos do cotidiano, nas separações, nos fins de ciclo. Não deveríamos estar mais acostumados a ela?
 
No fundo, o que assusta na morte são três fatores: o desconhecido, que é sempre amedrontador; a resistência a abandonar a vida, o que é próprio dos instintos; e, digamos, a passagem, que pode estar carregada de sofrimento. Como diz um amigo meu, com seu humor peculiar: “Acredito que a vida e a morte sejam, ambas, boas. O problema é a transição”.
 
Estamos, sim, acostumados com a ideia da morte. Nós provavelmente nunca nos acostumaremos é com a presença da morte em nossas vidas. Aceitamos a morte, pois somos racionais, mas reagimos fortemente a ela em duas circunstâncias: quando é prematura ou quando é próxima.
 
Não gostamos de saber que gente jovem morre, não parece natural. Há um quê de injustiça nos soldados que não voltam da guerra, nos rapazes e moças que se misturam às ferragens de seus carros nas noites de fim de semana, nas crianças com leucemia nos hospitais ou com fome nos países miseráveis. Ninguém deveria morrer sem ter tido a chance de viver bastante, pensamos.
 
Como também não gostamos da morte por perto, ceifando alguns dos nossos, levando nossos avós, convocando nossos pais. É quando a morte é má de verdade, porque nos priva de nossos entes queridos e porque se faz lembrar, se mostra com força e faz questão de deixar claro que vai voltar, é apenas uma questão de tempo.
 
Pelo menos a maioria de nós tem motivos para se alegrar por ter vivido. Seja qual for o mistério, a aventura de viver é muito boa, apesar dos percalços, claro. Não é possível não conhecer o sofrimento, pertence à nossa condição de viventes. E entre eles, às vezes camuflada pelo cotidiano, está a morte, espreitando.
 
A fé, a psicologia, a filosofia, a literatura, o misticismo, todos são pródigos em abordar o tema da morte, mas nunca um desses construtores do pensamento humano teve coragem para negar dois fatos: que todos teremos de lidar com a morte, nossa e de outros – e que nós sofreremos inevitavelmente com isso.
 
Provavelmente não seria inteligente não morrer, a vida eterna seria muito cansativa. Mas, com certeza, não é inteligente morrer antes de morrer. Por isso, um texto sobre a morte é inócuo, a não ser que seja uma conclamação à vida. Viver de verdade é a única garantia de que, quando chegar a hora, tenhamos mais curiosidade que medo, como aconteceu com Daisy Fuller.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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