A mulher de Pigmalião

Pigmalião conheceu a mulher perfeita. As formas de seu corpo e a suavidade de sua face eram complementares e totalmente harmoniosas. Nenhuma curva era tão pronunciada que a tornasse exagerada, nem era tão sutil que a fizesse despercebida. A pele era suave e deixava perceber a vibração de cada músculo que recobria, como se estivesse em um esforço para conter tanta vida. Sua pose era insinuante, dotada de um misto de majestade e de sensualidade que, ao contrário de serem antagônicas, eram sensações que criavam uma perfeita sinergia, conferindo uma beleza praticamente indescritível.
 
O sorriso enigmático e o olhar ligeiramente perdido constituíam um capítulo à parte. Decifrar o enigma e acudir à expectativa daquele olhar eram praticamente uma obrigação. A mulher de Pigmalião não tinha defeitos. Ou melhor, quase não tinha. Apenas um detalhe criava o risco de afastá-lo da felicidade de usufruir tal companhia: a mulher de Pigmalião era uma estátua, que ele mesmo esculpira, e pela qual se apaixonara, pois pusera nela toda a perfeição que a arte pode criar.
 
A estátua de Pigmalião é conhecida na mitologia grega, e reflete o comportamento humano de imaginar modelos ideais de vida, e sofrer por não conseguir transformá-los em realidade. Como esses modelos são emocionais, estão desprovidos da lógica que seria necessária para lhes dar sustentação. E surge, então, o embate entre o ideal e o real. Para a maioria das pessoas, esse gap é absorvido por uma estrutura de personalidade que sabe lidar com a frustração. Para outros pode transformar-se em motivo de sofrimento, às vezes paralisante. Você já ouviu, decerto, que o ótimo é inimigo do bom. Quem não se contenta em fazer certo, querendo sempre fazer perfeito, não consegue produzir pragmaticamente.
 
O que devemos fazer, então? Contentar-nos em ser medíocres e cancelar nossos projetos de realizações perfeitas? Aceitar nossos limites e viver em um mundo realista, desprezando os ideais, limitando os sonhos e arquivando os projetos de quebra de paradigmas pessoais? A resposta é um retumbante não! Sonhar é preciso. Mudar para melhor permanentemente é a única saída para escapar da mesmice que faz com que as pessoas não exerçam função de protagonistas, mas apenas de espectadores de suas próprias vidas.
 
Na verdade, a história de Pigmalião não se esgota com seu desespero de não conseguir dar vida à sua estátua. Sem dar-se por vencido, ele foi à luta. Procurou uma alternativa para transformar sua expectativa em realidade, e encontrou a solução na ajuda de Afrodite, que concordou em dar vida à escultura, transformado-a em uma mulher de verdade. Devemos lembrar que Afrodite era a deusa da beleza e do amor.
 
Será que nossa vida não é parecida com essa história? Quando criamos em nossa mente uma idéia perfeita, e agimos com beleza e amor, ou seja, com lógica, determinação, habilidade, competência e ética, temos toda a condição de torná-la realidade. A diferença entre transformar nossos sonhos em realidade não está em nossa expectativa, mas no que fazemos com essa expectativa.
 
Esta é meu último artigo de 2001. Estamos entrando na época em que tradicionalmente nos voltamos a analisar o que fizemos com o ano que está terminando, e começamos a fazer planos sobre como usar o ano que está para começar. Com certeza você vai encontrar pessoas que vão colocar pouca expectativa no próximo ano, vacinadas que estão com o pouco que realizaram nos últimos doze meses, e com todo o conjunto de más notícias veiculadas pela imprensa diária, principalmente depois do dia onze de setembro. Outros, no entanto, não vão parar de sonhar nem de fazer planos. E muitos irão realizá-los. Quais? Ora, aqueles que não ficarem na expectativa. Que arregaçarem as mangas e se puserem em ação, utilizando os melhores princípios de lógica, determinação, habilidade, competência e ética. Você está nesse time? É só querer… Feliz final de ano!
 
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