A sutileza dos sinais

– Ele vai morrer logo. Já tem o onze.
 
Essa frase estranha foi dita por um mendigo a respeito de outro em um filme do comediante e diretor Mel Brooks, em que ele faz papel de um milionário que, por causa de uma aposta, passa alguns dias em um gueto pobre de Nova York.
 
Quando recebeu um pedido de explicação sobre o que ele queria dizer, o mendigo esclareceu:
 
– Quando o onze aparece atrás do pescoço a morte está chegando – e disse isso enquanto apontava para a nuca de outro mendigo, a quem se referia, um velho magro e curvado. O que se via eram dois tendões salientes, provavelmente expostos pela magreza em que se encontrava o homem, e que lembrava, com um pouco de boa vontade do observador, o número onze.
 
A cena, que no contexto do filme, fica engraçada, acaba se referindo a uma característica das pessoas muito observadoras que acumulam experiência, algo que só o tempo nos dá. Me fez lembrar de uma enfermeira que conheci. Era uma mulher dedicada, que já acumulava umas duas décadas de trabalho como plantonista na enfermaria de um hospital. Ela afirmava saber, com antecedência, que paciente iria evoluir mais rápido, quem iria ficar bom e até quem ria morrer. Quando lhe pedi detalhes de como podia afirmar com tanta certeza, se limitou a dizer:
 
– Não sei explicar, mas alguma coisa me diz tudo a respeito de cada paciente.
 
Essa “alguma coisa” a que a enfermeira se referiu nada mais é do que sua imensa experiência, que lhe permite ler sinais tão pequenos que nem ela se dá conta deles, muito menos que já os viu antes. Em medicina, usa-se a palavre “pródromo” para designar os sintomas muito delicados que costumam aparecer antes dos sintomas principais de uma doença. A palavra vem do grego prodromos, que pode ser traduzida por precursor, o que vem antes de alguma coisa.
 
Com certeza você vai lembrar de um dia em que você anunciou que estava pegando uma gripe antes de ter um sintoma claro, como a febre, por exemplo. Você ainda estava bem, disposto, sem limitações, mas aquele arrepio que sentiu de manhã…
 
O arrepio é um pródromo da gripe, uma espécie de sintoma do sintoma. Você anda não tem febre, dor, fraqueza ou mal estar, os sinais clássicos da influenza, ou, como preferimos falar, a tal da gripe. Mas já “pressente” a dita cuja. O arrepio foi suficiente para dar certeza de que uma semana miserável estava por vir. Não deu outra. Afinal você se conhece como ninguém, não é mesmo?
 
Os arrepios da vida
 
Pois parece que prestar atenção nesses pequenos detalhes capazes de servir como fonte de informação segura sobre o que está por vir, é uma tendência em muitas áreas, como a meteorologia, a bolsa de valores, a administração de empresas, as ações de antiterrorismo e até o estado de um casamento.
 
Qualquer área está sujeita a mudanças súbitas, para as quais em geral não estamos preparados. Quem consegue prevê-las ganha uma imensa vantagem sobre os demais. E esse exercício de previsão não deve tem nada de esotérico ou místico. Prever com base na observação sistemática de pequenos detalhes pode fazer uma imensa diferença.
 
Gente muito boa está trabalhando sério para ajudar governos, indústrias, médicos e cientistas a prever o que tem mais chance de acontecer em um cenário complexo. “Além de conhecer a estatística, é só observar o sinais delicados”, dizem os especialistas.
 
O que você deve esperar de seu namoro? Será que engrena de vez ou é melhor partir pra outra? Qual a chance de acontecer aquela promoção lá na empresa? Seu time está com cara de que vai ser campeão ou parece que vai para a lanterna do campeonato? E aquele projeto de uma longa viagem? Vale a pena continuar sonhando ou é melhor deixar para outra época mais propícia?
 
Todos temos dúvidas desse tipo, e não sabemos exatamente como responder a esse questionamentos que nós mesmos nos fazemos. Em geral vamos deixando acontecer, até que os caminhos se mostrem mais claros, então tomamos a devidas providências, se ainda der tempo, claro. E, quando algo que queríamos muito não acontece, depois nos penitenciamos por não termos “percebido antes”.
 
– Que burra que eu fui – me disse uma amiga que terminou um noivado de oito anos – estava diante de meus olhos que não ia dar certo, mas eu resistia em ver a verdade.
 
Isso é normal, querida. Em geral vemos primeiro aquilo que desejamos ver, e deixamos a realidade como ela é para mais tarde. É mais fácil percebermos os sinais prazerosos, que vão de encontro aos nossos desejos mais íntimos. Adoramos comete doces enganos, ainda que mais tarde tenhamos que amargar o sabor da verdade verdadeira.
 
Você não sabe em que momento terminar um namoro encalhado? Está em dúvida sobe se deve continuar naquele emprego ou mudar totalmente o rumo de sua vida? Então relaxe, você não é a única pessoa nessa situação. Tem muito líder empresarial, por exemplo, que também tem dilemas semelhantes, só que, neste caso, eles interferem na geração de caixa, sucesso no lançamento de produtos, impacto no valor das ações e assim por diante.
 
Sorte que existe ciência para ajudar. O matemático Marten Scheffer, professor da Universidade de Wageningen, na Holanda, percebeu essa dificuldade das pessoas em tomarem decisões, e começou a estudar o assunto. O resultado foi uma pesquisa que mostra que, em qualquer sistema dinâmico complexo (a economia de um país, o resultado de uma empresa e até seu namoro se encaixam nessa categoria), é possível prever quando as mudanças estão prestes a acontecer, e, dessa maneira, as mesmas podem ser controladas ou até apressadas, se for o caso.
 
A freada crítica
 
Segundo o professor holandês, há sinais universais que podem ser usados, com bastante precisão, para indicar se um sistema está estável ou instável, e qual é o grau de sua robustez. Se há uma mudança brusca no horizonte, é possível prever. Basta que se observem esses sinais. O problema é que, em geral, eles são muito sutis, delicados e quase imperceptíveis.
 
O principal sinal é o aparecimento do que ele chamou de “freada crítica”, que nada mais é do que um conjunto de acontecimentos repetitivos, sendo o mais importante deles a lentidão com que o sistema passa a reagir às pequenas perturbações, como se elas já fossem normais e perfeitamente aceitáveis.
 
Observe um casamento meio falido (todos conhecemos um). O casal parece não se importar mais com os pequenos comportamentos, aqueles detalhes que são tão importantes para engrandecer as relações. Não há mais olhares cúmplices nem manifestações de carinho. As conversas são mantidas em tom protocolar e com certa aspereza. Desapareceu o encanto.
 
Além disso, parece que a paciência chegou ao limite. Qualquer coisa é motivo para uma discussão, que já acontece em qualquer lugar, sem sequer a preocupação de manter as aparências. É óbvio que essa relação está em uma freada crítica, só que parece que as pessoas envolvidas (no caso, o casal) não percebem. Só os amigos, que não sabem se falam ou não.
 
Se eles percebessem fariam algo, pois essa situação, definitivamente não faz ninguém feliz. E esse algo tem duas possibilidades: ou tem início uma mudança de atitude, uma recuperação da beleza que a relação teve um dia, ou acaba de vez, antes que piore ainda mais.
 
Esse casamento já tem pródromos de morte que não estão sendo percebidos, e logo chegarão os sintomas mais graves, que poderiam ser evitados com o simples exercício da percepção delicada.
 
Scheffer afirma que a detecção dos sinais finos que antecedem uma mudança brusca é a melhor saída para evitar as catástrofes e manter o sistema sob controle. A dúvida é: será que é possível “treinar” a mente para perceber esses sinais?
 
Essa é a notícia boa, pois tudo indica que sim, que podemos melhorar nossa percepção fina, nossa acuidade para com os detalhes. Basta querer, e começar a treinar. No fim, tudo está ligado com a prática, e esta depende do uso e do tempo. E da vontade, claro.
 
É provável que a palavra  que encerra o parágrafo anterior seja a mais importante: vontade. Definida como uma espécie de desejo intencional, provocado pela consciência, que consultou a lógica e os valores, a vontade é a maior força que alguém pode carregar consigo pela vida afora. É a vontade, e não outra coisa, que realmente move o mundo, remove barreiras, cria novas realidades. Infelizmente é um produto meio escasso, a tal da vontade. O que se vê são pessoas acomodadas em situações pequenas, sem ação, sem energia. Sem vontade.
 
É a força da vontade que pode estimular as pessoas a melhorarem sua performance como “observadores delicados”, que percebem nuances, pequenas variações, entrelinhas, pequenos detalhes que fazem grandes diferenças. Experimente. Melhora a vida.
 
A percepção fina melhora aprimora as relações, previne problemas, promove mudanças adequadas, posicionamentos mais firmes, cria situações agradáveis. Então porque não exercita-la? Afinal, como disse o Roberto, “Detalhes tão pequenos são coisas muito grandes pra esquecer”, e ninguém esquece de sua música.
 
Eugenio Mussak está neste espaço da Vida Simples desde a primeira edição, e já nem se lembra de todos os detalhes sobre os quais escreveu.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br

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