A torcida (a necessidade de pertencer)

O que mais se esperava de Garrincha era que ele jogasse. E como ele jogou! Quantos gols, quantas alegrias, quantas entortadas nos adversários com aquelas pernas tortas. Mas um dia Garrincha jogou com as palavras, o que não era seu forte, e criou uma pérola: “… não sou eu a alegria do povo, o povo é que é minha alegria…”. Ele não sabia, mas estava criando a melhor justificativa para a torcida. Alegrar o jogador para que este possa, então, exercer seu papel de artista.
 
É comum que a torcida de um time de futebol seja chamada de o décimo segundo jogador, tamanha sua importância para o rendimento do grupo. A energia no estádio faz com que o time da casa jogue em vantagem sobre o visitante. O Felipão passava vídeos da torcida no Brasil para incentivar os jogadores na Coréia e no Japão, e isso exerceu um espetacular efeito psicológico sobre nossos pentacampeões.
 
Todos os grandes times têm, não uma, mas várias torcidas organizadas, com uniforme, grito de guerra, site na Internet, história documentada e, às vezes, problemas com a polícia. Algumas torcidas são tão grandes, como a do Corinthians, provavelmente a maior, que os números impressionam. Dizem eles que são equivalentes a 0,3% da população da Terra. Que se todos dessem as mãos formariam uma fila que daria uma volta e meia no planeta. Dizem que normalmente o time tem uma torcida, mas no caso da nação corintiana, é a torcida que tem um time.
 
E esses números superlativos se repetem nas outras torcidas, tão organizadas, apaixonadas, animadas, espetaculares. A torcida é, sim, um fenômeno sociológico interessantíssimo. Mas afinal, porque as pessoas torcem? O que leva uma pessoa a sofrer ou a alegrar-se com uma vitória que não é sua, mas de outras pessoas com as quais ela nunca teve contato direto? Qual o mistério que justifica o sofrimento durante o jogo, a tristeza da derrota, e até ataques cardíacos ocorridos durante momentos críticos do jogo?
 
Quem explica é o psicólogo americano Abraham Maslow. Segundo ele “o homem está sempre motivado para atender às suas necessidades”. Como um dos principais teóricos da motivação, Maslow explicou que as necessidades humanas são seqüenciais, ou seja, só procuramos atender a uma necessidade, quando a anterior já tiver sido atendida. Criou, para melhor entendimento, a chamada pirâmide das necessidades, ou simplesmente, pirâmide de Maslow.
 
Começando da base, encontramos, primeiramente, as necessidades fisiológicas, como comer, ter calor, eliminar excreções corporais. Na seqüência a necessidade de segurança física, por isso inventamos a casa. E depois a surpresa: a terceira necessidade do homem, logo após a comida e a casa, é a do pertencimento. Depois dessa, vêm as necessidades de afeto e de desenvolvimento intelectual, que acabou ficando para o final da lista.
 
Pertencer a um grupo de semelhantes, com os quais compartilhamos idéias e ideais, paixões e crenças, interesses e preocupações, amores e ódios, é a primeira das necessidades psicológicas, antes mesmo da estima por outra pessoa. Por isso temos prazer em dizer que pertencemos à empresa que trabalhamos, à universidade que estudamos, ao grupo de amigos, à entidade de ação social e, ao bairro em que moramos e, claro, ao time para o qual torcemos.
 
Não há lógica em torcer para um time e não para o outro. Não há e não deve haver. Não teria a menor graça torcer por lógica. O bom é torcer por paixão. Usar o coração e não o cérebro. Tentamos colocar a lógica em ação para justificar certas jogadas que foram ou que não foram feitas. Mas o que interessa mesmo é gozar o gol feito e sofrer o gol do adversário. No dizer de Aldemir Martins, “o futebol é a essência da alma do Brasil. Tem capoeira, tem malandragem, tem meio tom, tem sabedoria, tem chorinho, tem samba, tem vela, tem tudo…”
 
A torcida está justificada, pois ela também é essência da alma do brasileiro. Outros países têm torcedores. Nós temos torcidas. A torcida tem vida própria, tem lirismo, tem cor, tem som, tem alma. O futebol é um esporte. O jogo de futebol é outra coisa. É uma arte a ser assistida com os olhos do coração. É o momento do ecumenismo, da democracia, da igualdade, da ausência de diferenças. O filho e o pai torcem juntos. O patrão e o empregado também. Assim como o branco e o negro, o rico e o pobre, o intelectual e o operário. Santa torcida. Charles Muller trouxe o futebol para o Brasil. Abraham Maslow inventou a torcida.
 
Texto publicado sob licença da revista Vencer.
Todos os direitos reservados.


Visite o site da revista: www.vencer.com.br