A travessia

Há muitos poemas e também muitas músicas feitas para quem perde um amor. Para mim, uma das melhores começa dizendo que sofrer faz, sim, parte do processo: “Quando você foi embora fez-se noite em meu viver/ Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar”. Mas diz também que a saída é seguir em frente: “Solto a voz nas estradas, já não quero parar/ Meu caminho é de pedras, como posso sonhar” -, para então completar que é possível sair dessa e dar a volta por cima: “Vou seguindo pela vida me esquecendo de você/ Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver”. Isso apesar de certo desencanto, próprio de quem acabou de levar um belo fora: “Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer/Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver”.
 
Com ou sem dor de cotovelo, não tem como não parar para ouvir essa música, que Milton Nascimento compôs com Fernando Brant. Ela se chama “Travessia”, que também é o nome do primeiro álbum do cantor mineiro. Com essa composição, ele levou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção, em 1967, e foi aceito no primeiro time da MPB. A música é linda, principalmente quando interpretada pelo próprio Bituca.
Agora, observe: a letra é um poema, mas o título da música é um fato em si mesmo. Uma travessia… Quando falamos numa travessia, consideramos que estamos indo de um lugar para outro, e que aquele tempo deve terminar logo. Atravessamos uma ponte com a finalidade de ir de uma margem do rio à outra. Atravessamos uma porta para entrar ou sair de um recinto. No mesmo sentido, gostamos de dizer, por exemplo, que estamos atravessando uma fase ou uma crise, que nada mais são do que isso, travessias que já vão ter um fim.
Mas, pensando bem, quando é que não estamos em travessia? Quando é que “chegamos lá” de verdade? Será que a própria vida não é uma ponte de existência que liga nossas duas “não existências”?
Apreciando a paisagem
No fundo, tudo o que fazemos tem o sentido do trajeto, e a chegada é consequência. Lembro-me de várias situações de minha vida em que essa percepção clara foi fundamental para meu equilíbrio. Duas em especial.
A primeira foi uma fase ruim, muito ruim. Dizem que desgraça pouca é bobagem, e que quando uma coisa muito errada acontece, é provável que logo venha outra ainda pior. Pode ser apenas folclore, mas eu experimentei uma fase assim, em que um erro provocava outro, criando um volume desesperador. Profissão, dinheiro, amor, saúde, tudo em crise exponencial e acumulativa.
O que me salvou do desespero e permitiu que eu me reorganizasse e retomasse o equilíbrio e o controle foi exatamente isto: a percepção de que se tratava apenas de um período ruim, que assim como tinha começado iria, em algum momento, terminar. Uma mera travessia sobre o lodo fétido do descontrole da própria vida.
Quem não desenvolve essa consciência pode ser iludido pela sensação de que o mal e a dor vão durar para sempre, o que é, além de uma infantilidade emocional, uma armadilha extremamente perigosa. Suicídios acontecem por esse motivo.
A ideia de que nada é para sempre, que tudo tem um fim, deve ser acionada cada vez que as coisas não vão bem. Só que, claro, não significa que a partir dessa tomada de consciência só resta esperar. É necessário partir para a ação, pois, se assim não vai ficar, não podemos permitir que, ao invés de melhorar, piore ainda mais. E aí depende de nós.
Para mim, funcionou. A certeza de que se tratava de uma situação transitória me deu forças para reagir. Hoje me lembro daquela travessia até com certa gratidão, pois ela me fortaleceu, me deixou sensivelmente melhor, mais confiante e mais humilde.
A segunda experiência foi exatamente oposta, uma viagem pra lá de agradável. Na verdade, uma das muitas luas de mel que já fiz com minha companheira nos últimos 12 anos. O destino era visitar a casa de Picasso, nas proximidades de Aix-en-Provence, no sul da França, onde ele viveu os últimos anos e onde hoje repousa no jardim, ao lado de sua Jaqueline.
Trata-se do Château de Vauvenargues, que Picasso comprou porque de suas janelas é possível ter uma bela visão do monte Saint Victoire, um dos temas preferidos de Cézanne, o principal modelo do espanhol. Como a casa é propriedade privada, quando abre para visitação transforma-se em uma atração única, que recebe visitantes do mundo inteiro.
Esse era o objetivo, que foi plenamente realizado e levou, exatamente… duas horas. E o resto? A viagem transoceânica, a chegada a Paris, o TGV até Marselha, o carro alugado até Aix, os hotéis, restaurantes, galerias, campos de lavanda? Travessias, nada mais que travessias. Afinal, qual foi a parte mais marcante da viagem? O destino ou o caminho?
Para começar, o acesso ao destino desejado só pode ser feito cruzando-se a Provence, a região do sul da França que atraiu muitos pintores, como Matisse, Van Gogh, Paul Signac, além de Cézanne e o próprio Pablo Picasso, em função de sua luminosidade única, que enaltece as cores dando vida às nuances, à luz e à sombra. Pois toda essa beleza estonteante não era o destino, era atravessia. Como ignorá-la? Definitivamente, não podemos perder o encanto das travessias.
A travessia do olhar
“O olho, para ver o mundo, não pode ver a si mesmo, tem que ser transparente”, disse Rubem Alves. De fato, nós vemos o mundo através de nosso olho. O olhar, então, é uma travessia, que liga nosso cérebro a cada objeto do mundo, a cada cor, flor, árvore, sorriso, paisagem. Como também atravessa o espaço e nos faz perceber o feio, a miséria e a injustiça contida nas atitudes de alguns humanos.
Então é necessário que não vejamos o olho para podermos ver o mundo. Só vemos nosso olho quando ele fica opaco pela doença ou pela velhice. E então não vemos mais o mundo. Olhar através é uma dádiva, uma aventura com cor e significado.
Rubem Alves, com todo seu pensamento poético da vida, vai além, e nos relaciona com o sublime. “Ninguém jamais viu Deus”, diz. “Para que possamos ver através dele.”
Talvez esta seja a explicação para aquela imagem de Deus que encontramos em alguns lugares: um olho dentro de um triângulo. Sempre achei que aquele olho significava que Deus estava me olhando, vigiando meus atos, fiscalizando até meus pensamentos. E tinha medo. Hoje não tenho mais. Acredito que aquele olho simboliza a travessia do olhar sobre a vida. Deus é amor, acreditamos. E olhar o mundo através do olhar amoroso faz com que o mundo fique, ele mesmo, mais amoroso. Um lugar melhor para se viver a vida.
A simbologia da travessia não tem fim. O poeta libanês Khalil Gibran, em um de seus melhores momentos, escreveu: “Teus filhos não são teus filhos. São filhos e filhas da vida. Não vieram para ti, vieram através de ti…” Vieram através de ti… através. De acordo com o poeta, cada pai e mãe compõe atravessia do filho para a aventura do viver.
O bom das travessias é a imensidão de suas possibilidades. Enquanto os destinos são pontuais, únicos, as travessias podem ser infinitas. Se formos duas vezes ao mesmo lugar, provavelmente lá encontraremos as mesmas coisas. Mas o trajeto não foi igual. A casa e o escritório são os mesmos, a maior parte do tempo. Mas as ruas que os separam jamais são as mesmas, ainda que não nos demos conta, pois o que interessa é o destino, e costumamos ter pressa.
Heráclito disse que não se pode banhar no mesmo rio duas vezes. O rio passa, a água é outra, e você também é outra pessoa. Da mesma forma, cadatravessia é única, e essa é a razão principal de sua beleza. A surpresa é bela e excitante. Mas é necessário ter o espírito aberto, senão a imagem e a experiência não se renovam, e temos a impressão de que já atravessamos exatamente a mesma ponte antes.
Quando temos a impressão de que os dias se repetem, que a vida não tem mais novidades, que a monotonia nos assalta, estamos precisando de umatravessia. Mas não é necessário atravessar o mar ou as montanhas. Se for possível, ótimo, mas na maior parte das vezes que nossa alma se aborrece, basta que lancemos um novo olhar sobre nossa vida.
A travessia do olhar talvez estivesse interrompida pelo calo do desinteresse, da desatenção e do desamor. Quando perdemos o interesse pelo que fazemos ou pelas pessoas com quem convivemos, paramos de dar atenção e o amor se esvanece.
A vida é uma grande travessia, sem dúvida, e não podemos perder a oportunidade de aproveitar a paisagem, senão, quando estivermos chegando ao destino que nos espera a todos, teremos rancor e remorso. Rancor do mundo, que não nos compreendeu, e remorso de nós mesmos, pois também não nos esforçamos em compreender a vida que vivemos e não encontramos sua beleza oculta.
Quando Júlio César resolveu enfrentar a travessia do Rubicão, sabia que não tinha volta. Ou conquistava Roma ou seria destruído pelo exército de Pompeia, que então dominava a cidade. Foi quando ele disse: “Alea jacta est”, ou a sorte está lançada. Tratava-se de uma travessia em sentido único, sem volta. Com cada um de nós também é assim, nascemos e a sorte está lançada. E já que viemos… e vimos… só nos resta aproveitar a travessia. Eugenio Mussak já atravessou muitos jardins e muitos desertos. E ainda não viu nada.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br

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