A vitória da disciplina (Ronaldo Nazário)

Final de jogo no estádio de Yokohama. Os dois gols do Brasil sobre a Alemanha, ou como preferem alguns, dois gols do Ronaldo contra o Oliver Kahn, nos dão de presente o título mundial pela quinta vez. É alegria pra ninguém botar defeito. Brasileiros de todo o mundo se abraçam e comemoram esse presente que, entre outras coisas, nos ajuda a elevar nossa autoestima, às vezes tão abalada.
 
Começam as comemorações em campo, a volta olímpica, a entrega das medalhas e a inesquecível recepção da taça pelo capitão Cafu, que, não se conformando em pisar o mesmo chão dos mortais ali presentes, entre eles Pelé e Bekenbauer, sobe na coluna que sustentava a taça, e vira uma imagem de deus no Olimpo, ajudado, inclusive pelos efeitos especiais preparados para aquele momento. Maravilha, pois todos precisamos mesmo de heróis míticos, como sempre foi.
 
O que aconteceu depois todos lembramos, pois ficarão para sempre as imagens em nossa memória: os gols repetidos insistentemente pela televisão, as imagens de alegria dos jogadores e torcedores, a tristeza dos vencidos que não são perdedores, pois são vice de uma copa em que o campeão é o Brasil, melhor que nunca. Entre as várias imagens, é claro, algumas entrevistas dos jogadores, inclusive uma do Ronaldo, o fenômeno.
 
Já no final, despedindo-se, o repórter pediu suas últimas palavras, sobre de quem ele se lembrava naquele momento. Um Ronaldo emocionado e pensativo falou com sua habitual simplicidade: “lembro-me de minha família e… do Filé”.
 
De quem? Porque? Como assim?
 
Do Filé. Ou Nilton Petrone. Fisioterapeuta do Rio de Janeiro, responsável pelo trabalho de recuperação pós-operatória do Ronaldo que, durante dois anos e meio amargou um período de recolhimento, incerteza, tristeza, saudades e, especialmente, muito, mas muito mesmo, trabalho. Só quem já sofreu uma cirurgia no joelho sabe avaliar o que significa o pós-operatório. Justa homenagem do craque a quem tabelou com ele na vitória da reabilitação.
 
Ronaldo foi especial ao fazer oito gols durante a copa e tornar-se o artilheiro da competição, mas foi mais especial não pelo que vimos através da televisão, mas especialmente pelo que não vimos. Aquelas jogadas de craque que aconteceram silenciosas, durante mais de dois anos, longe das luzes e dos gramados. Dentro das quatro linhas não de um campo, mas de uma sala de recuperação, fria, monótona, cansativa e até depressiva.
 
Ele cresceu muito rápido, ajudado por um intenso programa de treinamento físico. Quem lembra do menino na copa de 94 e o compara com o de agora, percebe seu desenvolvimento físico. Nesses casos, às vezes os ligamentos e tendões não acompanham o desenvolvimento muscular. Já no Inter de Milão, vindo do PSV da Holanda, Ronaldo, começa a apresentar tendinite no joelho direito. De agudo, cronifica-se. A solução é a cirurgia, realizada em Paris pelo Dr. Gerard Saillant, que se tornou seu amigo e veio visitá-lo no Japão no dia do jogo com a Alemanha.
 
Recuperação lenta, sofrida, dolorida, mais na alma que no corpo. Saudades, vontade de jogar, quando até andar podia ser difícil. Visita dos amigos, entre eles alguns adversários respeitosos, como o Zidane, e de alguns ídolos que o idolatram, como Pelé. Apoio da família, amor da Milene que vira sua mulher nesse período, e lhe dá o Ronald.
 
O mundo finalmente respira aliviado. Ronaldinho recebe alta. Começa a treinar. Volta ao Inter, onde é recebido com desconfiança pelo técnico, que antes já o deixara no banco. Final da copa da Itália, disputada entre o Inter e o Lázio. Ronaldo entra na metade do segundo tempo. Provoca alegria na torcida, medo nos adversários. Corre o campo todo, busca a bola, dribla, entorta, dispara em direção ao gol. Vibração no estádio, alegria, e… o grito, a dor aguda, o joelho saltando para a frente, como se estivesse se soltando do corpo.
 
Segunda cirurgia. Se o primeiro período de recuperação foi de meio ano, este será de mais de um. Mais fisioterapia, dor, paciência, esperança. Alongar um milímetro a mais para quem desprezava a distância entre o meio do campo e o gol parece um pesadelo. O pior é tempo. Conhece o sentido da relatividade. Como demora a passar… A monótona rotina foi feita de fortalecer e alongar, seguido de fortalecer e alongar, repetidamente, até a exaustão física, mas principalmente mental. Você, leitor, alongue neste momento sua panturrilha fortemente, e segure até não agüentar mais. Quantos segundos conseguiu?
 
Este artigo não é sobre futebol. É sobre comportamento humano. Que lições podemos tirar para nosso dia a dia normal após essa campanha irretocável, de sete vitórias, com dezoito gols e algumas horas de sono a menos por conta do fuso horário? Afinal, conquistas existem para alegrar, mas também para dar exemplo. Por isso temos heróis. Porque precisamos deles para deles retirar inspiração.
 
Toda a história da humanidade pode ser contada através dos feitos de grandes personagens. Os gregos se reconheciam em seus heróis, que eram confundidos com deuses. Os descobrimentos marítimos, as conquistas de novos mundos, as revoluções da ciência. Todos feitos admiráveis, realizados por homens e mulheres que seriam comuns se não tivessem realizado algo especial, pois são normais na essência, mas especiais na determinação em realizar algo diferente.
 
Diferente, no caso do Ronaldo, mais do que os gols foi o tamanho de sua determinação. Sofrida recuperação física, temperada pela angústia da necessidade da recuperação moral, ferida de morte na final da copa da França, quando foi acusado de tudo, de medroso a vendido.
 
Determinação não é uma virtude comum. É mais rara que a inspiração e a genialidade. Quando estudamos a história dos grandes feitos, encontramos mais vezes a vitória da determinação de homens até então comuns, do que da inspiração momentânea dos chamados gênios iluminados. Seria bom que lembrássemos disso cada vez que faltamos à nossa ginástica, adiamos a decisão de estudar inglês, procrastinamos a entrega daquele relatório chato de fazer, ou demoramos para escrever o artigo (autocrítica do colunista).
 
Ronaldo merece nosso respeito, repito, menos pelos oito gols contra os adversários da copa do mundo, e mais pelos milhares de gols contra um inimigo invisível instalado em seu próprio corpo, e que poderia tê-lo vencido, se a luta tivesse acontecido no terreno minado da desesperança.
 
Podemos definir determinação como a capacidade de objetivar um destino e criar as condições necessárias e suficientes para alcançá-lo. É a condição indispensável para transformar sonhos em realidade. Por que poucos realizam se todos sonham? Porque falta-lhes o combustível que move as grandes realizações: a determinação e a disciplina. Quem se disciplina vira “discípulo” de si mesmo. Passa a ser seu próprio professor, orientador, técnico, treinador, motivador, fisioterapeuta… Obrigado Ronaldo. Pelos gols, mas também pelo exemplo de vida… e de vitória.
 
Texto publicado sob licença da revista Você SA, Editora Abril.
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