Adaptação não é acomodação

Era Janeiro em Londres. O frio cortava, mas o dia estava bem ensolarado, combinação que costuma facilitar a vida dos turistas. Inclusive a minha, que sou quase íntimo da cidade, pois lá tenho família. É onde mora minha filha Melissa que foi estudar e se radicou, e a minha neta Isabel, princesa que lá nasceu. Apesar disso, tenho comportamento de primeira viagem, pois a cidade costuma me surpreender.

Naquele dia o programa era básico: visitar a Abadia de Westminster, a imponente catedral gótica, às margens do Tâmisa. Os séculos se passaram e a abadia sofreu inconstestáveis reformas e ampliações, foi o palco de coroação de reis e rainhas e, obdecendo a um rito anglicano, tornou-se mausoléu de importantes súditos que fizeram por merecer essa nobre morada eterna. Westminster comporta cerca de 3 mil túmulos, que podem ser vistos, tocados, e até pisados, uma vez que muitos se espalham pelo chão dos corredores.

Eu não sou um necroturista, mas queria experimentar uma vez a sensação de estar perto de Newton, Dickens, Laurence Oliver e, principalmente, Charles Darwin.  Todos fazem parte do meu panteão de heróis intelectuais, mas Darwin ocupa um lugar de destaque. Ele me impressionou no colégio e influenciou minhas escolhas, como ter estudado medicina, e ter sido professor de biologia por mais de 25 anos. Tinha planos de visitar sua casa, a Down House, em Kent, mas ela fecha em janeiro para reparos. Bad luck… Ir a Westminster era uma especie de consolo. Belo consolo, aliás.

No local, um fato curioso. Você olha para o túmulo de Newton ao mesmo tempo em que está passando sobre Darwin. Impossível não sentir uma emoção contida. Dois gigantes da ciência da ciência, tão próximos. Não há como não admirar esses homens que, com poucos recursos disponíveis na época, criaram teorias que se comprovaram pela observação e experimentação, e que viraram marcos da inteligência humana.

Em minha formação intelectual, entretanto, Darwin foi mais forte. Ele esta para a biologia assim como Newton está para a física, só que sua teoria ultrapassou as fronteiras da ciência que a gerou. Quando nos referimos a Newton, costumamos dizer “Leis de Newton”. Quando nos referimos a Darwin, usamos a expressão Darwinismo. Não há um Newtonismo. Por quê?  Porque a abrangência de Darwin é maior, saiu da biologia, e pode ser percebida em muitas outras áreas, como na economia, na tecnologia e no conhecimento em si mesmo.

Estou certo que você, que está lendo este texto, sabe quem foi Charles Darwin e reconhece sua influência sobre o pensamento moderno. Você o estudou no colégio como eu. Caiu na prova, lembra? Como também estou certo de que sabe pouco sobre a teoria do evolucionismo, pelo fato de que Darwin é mais conhecido por aquilo que nunca disse. Ele nunca afirmou, para começar, que o homem descende do macaco. Isso foi dito por seus detratores. Segundo ele, teríamos evoluído a partir de um ancestral comum, em uma linha evolucionária própria, o que é totalmente diferente.

Darwin também não negou a intenção divina, apenas explicou que haviam fortíssimas evidências de que seriamos resultado de um longo processo evolucionário baseado na seleção natural. Ele também nunca salientou o tamanho ou a força como determinantes da seleção. O que ele disse foi que, na luta pela sobrevivência, venceu o que tinha mais aptidão. Apenas isso.

Entende-se por aptidão a capacidade de obter alimento. A qualidade da relação do indivíduo com seu ecossistema determina sua sobrevivência e a permutação da espécie. Nada mais lógico pensando bem. Aptidão – esta é a primeira palavra essencial para se compreender o darwinismo. A segunda é a adaptação.

Como o ecossistema está em permanente mudança, seus habitantes terão que se acostumar com isso e, de certa forma, mudar também para poder continuar vivendo ali. Terão que se adaptar, então. Adaptação é a capacidade de o indivíduo manter – ou recuperar – a aptidão, apesar da mudança do meio ambiente. Os adaptados sobrevivem, se reproduzem e se perenizam. Os não adaptados não conseguem competir pelo espaço e pelo alimento, diminuem sua taxa de produção e terminam, com o tempo, por desaparecer.

Interessante essa lógica darwiniana. Uma espécie nunca é exterminada por outra. O que a fulmina é sua incapacidade adaptativa. E o homem atual nisso tudo? Viver na sociedade contemporânea é um ato darwiniano? Sim e não. Longe de mim defender o darwinismo social. Spencer fez isso e foi criticado, com justa razão, pelo simples fato de ter esquecido que possuímos qualidades inexistentes nos bichos. A compaixão, por exemplo, nos estimula a proteger os menos aptos à sobrevivência. Não, não somos orientados puramente pelo darwinismo em nossa evolução social. Apenas o fomos enquanto espécie.

Entretanto, há um lado do pensamento do inglês sobre o qual precisamos prestar atenção total – a tal adaptação. Em um mundo cuja principal característica é  velocidade da mudança, quem não a percebe e não a compreende perde a qualidade de viver em harmonia  com seu espaço.   Uma empresa, por exemplo, é um organismo vivo que habita um ecossistema chamado mercado, e que está em constante transformação. Clientes mudam, tornam-se mais exigentes, concorrentes ficam mais competitivos, novas tecnologias surgem, solavancos  na economia e na política. Mudanças que exigem adaptação permanente.

O mesmo vale para nossas carreiras. Difícil manter a performance profissional se não estivermos estudando, aperfeiçoando o que fazemos, nos transformando. Quase impossível viver sem o auxílio das tecnologias modernas. Não à dependência, sim ao uso racional e produtivo. Adaptação em estado puro.

Mas, cuidado, adaptação não é acomodação. Alguém acomodado apenas aceita as coisas como são, a vida como chega. O adaptado interage, entende, muda, mas não se acomoda. A adaptação ativa é protagonista, atuante. É a maravilhosa capacidade humana de acreditar e de mudar para melhor.  Que nosso pacto com a evolução, principalmente da consciência, nunca tenha fim, antes seja sempre um novo começo.

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