Adeus (Serginho do São Caetano)

Como o líder pode ajudar sua equipe a superar a morte de um colega
 
Se existe uma coisa de que estamos fartos de saber é que na vida só temos mesmo uma certeza: que iremos morrer. Entretanto, devido ao nosso fortíssimo instinto de sobrevivência — ao qual devemos o sucesso de nossa espécie –, usamos e abusamos de expedientes mentais para negar ou, pelo menos, burlar essa certeza. Em primeiro lugar, aceitamos a vida eterna ao acreditar na imortalidade da alma, no que somos apoiados por todas as religiões. Segundo, para nos sentir imortais, gostamos da idéia de deixar um legado, como escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore. Terceiro, criamos um bloqueio mental que afasta o pensamento da morte de nosso cotidiano, caso contrário seríamos paralisados pelo sentimento de finitude. E, quarto, banalizamos a morte, que, ao aparecer na história, nos filmes, no noticiário e até nas piadas, parece algo impessoal e artificial, contra o que cada um de nós se sente imune e distante. A morte ronda a casa do vizinho, não a minha. A ironia é que o vizinho pensa igual.
 
Woody Allen disse uma vez: “Não quero ser imortal através de minha obra. Quero ser imortal não morrendo”. Logo depois, como que se redimindo pela irreverência diante do inevitável, completou: “Não é que eu tenha medo de morrer. Apenas gostaria de não estar vivo quando isso acontecer”. Gracinhas à parte, voltemos ao início do primeiro parágrafo e enfrentemos a realidade: não só iremos morrer, como, antes disso, teremos de conviver com a morte de muitos entes queridos e pessoas importantes de nosso convívio.
 
Os jogadores do São Caetano experimentaram esse sentimento recentemente. Seu colega Serginho sofreu uma parada cardiorrespiratória e morreu no campo, com transmissão ao vivo pela TV, durante um jogo contra o São Paulo — realizado na capital paulista, no fim de outubro. O acontecido comoveu os companheiros e também os torcedores, os apreciadores de futebol e todas as pessoas. Pois é, às vezes acontecem coisas que quebram nosso bloqueio de pensar na morte. O desaparecimento súbito de celebridades exerce, sobre nós, efeito análogo ao da morte de alguém do convívio próximo. Quando morreram Lady Di, o comandante Rolim Amaro, a modelo Fernanda Voguel, Airton Senna, para citar os mais notórios, foi como se tivéssemos perdido um parente e, de certa forma, morremos um pouco com eles. O mesmo deu-se agora com o zagueiro caetanense.
 
Para Péricles Chamusca, o técnico do São Caetano, não restou alternativa a não ser filosofar: “Temos de saber separar as coisas. A tristeza e a saudade existem, é claro, mas precisamos recuperar o espírito de competição”, declarou. Podem parecer palavras simples demais para uma tragédia tão grande. A verdade, porém, é que elas dizem tudo o que se pode dizer nessas horas. As frases de Chamusca recuperam a idéia de que, afinal, “a vida continua” para os que ainda vivem.
 
Quando os times do São Caetano e do São Paulo voltaram a se encontrar, uma semana após o acontecido, para terminar o jogo interrompido pela fatalidade, a tristeza e a consternação entraram junto com os jogadores no campo. Mas, após o minuto de silêncio, o que se viu foi jogo de futebol, pois afinal a vida continuava. O São Caetano perdeu o jogo. Será que a vitória não teria sido uma melhor homenagem a Serginho? Não. A derrota denunciou sua falta, apesar do esforçado Jonas, o garoto de 17 anos escalado para substituí-lo.
 
E no trabalho?
 
Gestores e membros de equipe não podem ignorar a importância do suporte nesse período de tristeza. O luto e a maneira como é encarado podem afetar a saúde física e mental, a produtividade e a coesão do time. Há casos de alterações no relacionamento com amigos, colegas e familiares, além do consumo de álcool e drogas. O resultado são queda da performance, aumento da ocorrência de erros e acidentes, diminuição da memória e da concentração. Nada mais humano, aliás.
 
Um dado inquietante: segundo o Instituto de Psicologia 4 Estações, serviço de assistência para lutos e perdas, neste exato momento 25% dos profissionais de grandes empresas estão passando por um período de luto, provocado por morte ou outra perda, como separação ou mudança. Considerando a interferência na concentração e na produtividade, não só é louvável como também é econômico estimular o suporte psicológico aos funcionários nessa fase. O 4 Estações (www.4estacoes.com) oferece treinamento com psicólogos, palestras, workshops, aconselhamento, psicoterapia e cursos. Tudo para a empresa conseguir manter o espírito de união e a produtividade.
 
Psicólogos e outros especialistas, apesar dos diferentes tratamentos que propõem, são unânimes quanto a um ponto: o processo de luto é necessário, assim como a dedicação a ele. Se sentir que precisa chorar, chore. Se sentir vontade de descontar a sua raiva, desconte. A melhor maneira de passar por esse momento é não guardar mágoas nem rancor, para sofrer apenas o necessário.
 
Passado o primeiro choque, é preciso colocar a cabeça no lugar e, claro, pensar em substituições e sucessões. Nesse ponto, algo é inquestionável: as pessoas não são substituíveis, mas suas funções são. Em uma grande empresa, perder um importante colaborador implica encontrar alguém à altura para ocupar sua função. No entanto, a esmagadora maioria dos profissionais não prepara sucessores, e a empresa às vezes encontra dificuldades para seguir em frente.
 
No acidente com o Fokker 100 da TAM, em 1997, muitas vítimas eram executivos de grandes empresas, como Unibanco e BankBoston. Entre os funcionários que tiveram de conviver com essa perda, todos relataram o clima negativo que pairou no ambiente de trabalho e, entre os gerentes, a dificuldade para realizar as substituições. De maneira pragmática, e até fria, muitos deles destacaram a importância de poder contar com profissionais que exercem múltiplas funções, para que provisoriamente assumam algumas das responsabilidades de colegas que se foram.
 
Outra situação que, se não é maior em tristeza, com certeza o é em impacto, é a perda do líder principal, o presidente, o fundador ou o CEO da empresa. A TAM, há quatro anos, e mais recentemente a Schincariol e a Azaléia viveram essa tragédia. O vazio criado demorou a ser preenchido, e o processo foi traumático para todos os envolvidos. A TAM passa, atualmente, por um momento curioso. Ao iniciar uma campanha para melhorar a qualidade do atendimento, com o slogan da gentileza, fala-se em “rolinizar” a empresa, transformando em verbo o nome de seu mitológico fundador.
 
Falando em legado…
 
O pensador Thomas Hobbes, de grande influência na corte inglesa durante boa parte do século 17, dizia que qualquer motivação psicológica que move o homem está ligada à atração ou repulsa por alguma coisa. Ele chamava essas duas direções de movimento de apetite e aversão. As formas mais óbvias são coisas como prazer e sofrimento, agrado e desagrado, amor e ódio, alegria e tristeza e, claro, vida e morte. Como a morte é o grande símbolo do fim, nutrimos por ela a maior de todas as aversões.
 
O curioso, na visão de Hobbes, é que ele acreditava que é justamente o medo da morte que leva os seres humanos a formar sociedades. Sem elas o homem permaneceria em seu estado natural, sem regras, sem leis, sem ordem, e se estabeleceria a “guerra de cada homem contra cada homem”. Em seu livro mais famoso, Leviatã, publicado em 1651, o pensador afirma que, sem o medo da morte, a vida do homem seria solitária, pobre, tosca, bruta e breve. Só não é porque criamos a sociedade, a civilização, que nos protegem. E, quando a morte nos ronda, rangemos os dentes de tristeza e de raiva por lembrar de sua existência.
 
Mas eis que a lembrança do Serginho, além de todos os citados neste artigo, e de tantos outros, transforma-se também na lembrança do inevitável fim. Talvez o melhor antídoto seja o bom humor, especialmente aquele que vem da sabedoria, subproduto da maturidade. Como Sócrates, que, antes de ingerir a cicuta que o mataria, consolou seus discípulos fazendo pilhéria: “Afinal, por que tanto drama? A morte será apenas um longo sono sem sonhos, ou então será um lugar onde poderei conversar com meus amigos sem ser incomodado”.
 
Texto publicado sob licença da revista Você SA, Editora Abril.
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