Afinal, quem é o Big Brother?

O Programa
 
Não fosse nossa própria vida um show bastante real, ainda somos impelidos a assistir a um dos reality shows em exibição em algum canal de televisão. O mais famoso no mundo inteiro é o que sugere que há um poder central, chamado Grande Irmão, vendo e ouvindo tudo o que um grupo de pessoas fazem confinados dentro de uma casa.
 
A História
 
Mas afinal, quem é esse Grande Irmão? A origem dessa história está em 1948, quando o escritor inglês George Orwell escreveu um livro chamado “1984”. O título deriva simplesmente da inversão dos dois últimos algarismos. Orwell escreveu sobre uma sociedade imaginária do futuro, cerca de quatro décadas após o final da segunda guerra mundial. Imaginou uma grande nação chamada Oceania, dominada por um regime totalitarista em moldes que poderiam ter sido criados por Adolf Hitler, Joseph Stalin ou pelo ditador espanhol Francisco Franco.
 
O ditador em questão é conhecido apenas por Grande Irmão (Big Brother) e, na verdade, não é uma pessoa real, e sim um personagem-símbolo criado pelo Partido, a cúpula instalada no poder. Essa cúpula denomina-se a parte interna do Partido (The Inner Party) e corresponde a cerca de 1% da população. Há ainda a parte externa (The Outer Party), com aproximadamente 18% da população, e que presta os serviços da burocracia estatizante que permite o controle do poder. O restante 81% de toda a população é formada pela chamada plebe (The Proles), representada pelos trabalhadores das fábricas e das fazendas, que, quanto mais ignorantes forem, melhor para o Partido.
 
Ninguém jamais viu o Grande Irmão pessoalmente. A única imagem é representada por uma foto impessoal em um pôster bastante difundido, em que se pode ler a frase tema: “O Grande Irmão está observando você”. A figura do dito cujo é grave e agressiva. É inspirada nitidamente no semblante dominador de Stalin.
 
Se ninguém nunca viu o Grande Irmão, o contrário não é verdadeiro. Todos são vistos e ouvidos o tempo todo por ele. Como ocorre essa onipresença? Simples, através da tecnologia. Cada cômodo, em cada casa, em cada ambiente, está dotado de uma câmera de vídeo que registra durante as vinte e quatro horas do dia, cada movimento de cada cidadão de Oceania.
 
Pronto! População controlada, garantia de manutenção do poder.
 
Os autores de ficção, quando descrevem o mundo no futuro, podem optar por uma visão positiva ou negativa. É prerrogativa do escritor. Orwell optou por um cenário tenso, querendo alertar para os perigos dos sistemas totalitários, sendo que um dos mais dramáticos havia sido recém derrotado: o nazi-fascismo.
 
A realidade
 
Passadas as quatro décadas, o mundo começa a pensar se Orwell não tinha razão ao imaginar um mundo com cidadãos totalmente vigiados. Não só por câmeras e microfones, tão comuns em ambiente públicos atualmente, mas principalmente por sistemas de computadores em rede. O CPF ou o RG de qualquer pessoa, digitado num computador de um banco, do departamento de crédito de uma loja, da recepção de um hotel, da companhia aérea, do policial na beira da estrada, informam sobre sua vida de contribuinte, de pagador, de cidadão.
 
Lembro-me sempre de um amigo que teve o cartão de crédito recusado num restaurante, porque provavelmente havia passado do limite, o que pode acontecer com qualquer um. O relato de meu amigo é carregado de angústia. Diz ele que percebeu o ar de reprovação do garçom, e que ficou esperando que entrasse pela porta do restaurante um robô chamado Visacop, para desintegrá-lo com uma pistola a raios, sob o olhar atônito dos outros clientes.
 
Parece uma cena de ficção (meu amigo é bem chegado em ficção científica), mas explica bem um sentimento comum atualmente: o de estarmos sendo vigiados e controlados de uma forma que chega perto da perda da individualidade. O grande poder, representado especialmente pelo poder econômico, sabe mais sobre cada um de nós, do que gostaríamos.
 
A alternativa
 
A grande sacada, nessa questão esquisita é: já que não há alternativa, e estarei sendo vigiado de qualquer maneira, quero escolher quem vai me vigiar. E eu escolho ser vigiado por mim mesmo!
 
Não, não é paranóia. Trata-se do exercício legítimo dos chamados autos: autocontrole, autoconhecimento, autoconfiança, autoestima…
 
Lembro-me da frase predileta de Sócrates: “conhece-te a ti mesmo”. Quando conhecemos nossos limites e nossos alcances, temos uma chance muito maior de evitar erros, e de promover nosso próprio desenvolvimento, diminuindo nossos limites e aumentando nossos alcances.
 
Pare um pouco para pensar, e você perceberá que a maioria dos erros que cometeu na vida (e você os cometeu, com certeza) deriva da falta de conhecimento sobre você mesmo. Fez coisas que não poderia ter feito, por falta de preparo, e deixou de fazer o que poderia ter feito, por falta de conhecer seu próprio potencial. Quem mantém sua vida sob controle, tem a vantagem da decisão acertada.
 
E o melhor processo para o autoconhecimento é a auto-análise. Ainda que a ajuda de outra pessoa, especialmente de um profissional, é sempre bem vinda, nós podemos desenvolver nossa capacidade de auto-observação, autopercepção e auto-apreciação. Personalidades saudáveis são auto-apreciáveis. Desenvolvem autoestima e conseguem criar um mundo com relações humanas adequadas.
 
Quando me perguntam sobre minha definição de autoestima, eu costumo dizer que se trata do “sistema imunológico da felicidade”, pois é método mais eficaz para conduzir nossas ações com independência e responsabilidade.
 
Portanto olho grande sobre você mesmo. O homem adulto é responsável, é independente. Tem seu sistema de controle baseado em suas próprias observações. As demais câmeras da vida estão sobre ele de qualquer maneira, mas não registram surpresas, a não ser as agradáveis. Seja seu próprio Big Brother, e você evitará muitos contratempos e até alguns constrangimentos, para não dizer “micos”.
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.

 
Visite o site da revista: www.vocesa.com.br