Afinal, quem está sendo avaliado?

Logo no início de minha carreira aprendi que o professor tem três missões: a) programar a relação ensino/aprendizagem, b) executar o programado e c) avaliar o executado. Essa fórmula simples é normalmente traduzida por: preparar, ministrar a aula e avaliar a aprendizagem. Não há duvidas quanto à validade desse esquema, mas vale a pena refletir um pouco sobre os conceitos que cada etapa encerra.
 
Na visão da pedagogia clássica, o professor “ensina” e os alunos “aprendem”, portanto a relação ensino/aprendizagem tem seus protagonistas bem definidos. Ora, hoje sabemos que não é assim; que o professor é, na prática, o mediador da aprendizagem, aquele que tem o papel de propor o assunto e facilitar o processo de construção do conhecimento. Dessa forma, o ambiente assim criado permitirá o acontecimento do ensinar e do aprender de maneira natural, a tal ponto em que ambas as funções se confundem. Portanto, programar a relação entre o ensino e a aprendizagem é algo mais do que simplesmente “preparar a aula” no sentido de definir o assunto, dividi-lo em tópicos e sub-tópicos e acrescentar algum tema transversal. Significa também preparar o ambiente psicológico, o desenvolvimento do interesse, a percepção do significado, a criação do afeto.
 
Executar o programado corresponde a “dar a aula”, a colocar em prática o plano elaborado anteriormente. Correto, porém devemos lembrar que aula não é alguma coisa que o professor possa “dar”, e sim um fenômeno humano de integração entre pessoas que apresentam um objetivo comum. O professor forma com os alunos uma comunidade em que ele tem o papel de liderança, e como tal, deve incorporar as qualidades do líder: legitimidade caracterizada pelo saber e pela coerência, capacidade de inspirar os alunos, entusiasmo, habilidade para lidar com diferenças pessoais (idiossincrasias) e, principalmente, forte percepção de sua missão. Eu não posso dar a aula, pois eu não a possuo, mas posso, isto sim, criar um ambiente de interesse e de colaboração, onde o importante não é o ensinar, mas o aprender. Nesse ambiente, o afeto é protagonista fundamental, e esse sentimento deve ser manifesto, escancarado e plural. Afeto de pessoas por pessoas e de pessoas pelo saber. Isso não é utopia, é possível e, mais ainda, é a única saída para uma aula de qualidade. Lembro-me de Rousseau, a quem se atribui a revolução copernicana da educação: “não é o aluno que deve girar em torno do professor, mas o professor em torno do aluno”.
 
Por último, a etapa de “avaliar o executado”, que muitos confundem com “executar o avaliado”. O que se executou foi o plano da relação entre o ensino e a aprendizagem, anteriormente programado. Esta é a avaliação que interessa, e não a quantidade de conteúdo que o aluno conseguiu absorver a partir das aulas “dadas”. Em nosso meio, quando um professor elabora uma prova, o que tem em mente não é a relação ensino/aprendizagem, mas tão somente a aprendizagem, ou seja, transferimos para nossos alunos a responsabilidade total do processo de aprender. Quando o professor pergunta ao aluno “você entendeu?”, está colocando nele a responsabilidade, mas quando pergunta “eu me fiz entender?” está assumindo a responsabilidade do processo.
 
O Brasil é o país das provas. Entre os principais vícios da educação em nosso país está a excessiva preocupação com o rito de passagem para a idade adulta, ou para o sucesso, como querem alguns: o vestibular. Tanto os jovens quanto seus pais têm a preocupação principal da aprovação no vestibular, e este nada mais é do que uma prova de avaliação de conhecimento, portanto, nada mais lógico do que “treinar” nosso alunos para que eles possam sair-se bem nas provas, e não necessariamente a partir de suas qualidades cognitivas, mas a partir da lógica da prova, especialmente a de múltipla escolha, que tem lá seus “macetinhos”.
 
Avaliar não é fazer prova. A prova pode até fazer parte do processo, mas o que está em jogo é um processo inteiro, que merece atenção global. Em qualquer outra área da atividade humana, a etapa da “avaliação” tem a finalidade de corrigir rumos. Avaliar significa verificar duas coisas: se a ação executada esteve de acordo com o plano original e se esse plano era consistente e adequado. E após essa verificação, há a etapa das correções, seja do plano, seja de sua execução. O professor, como avaliador, costuma esquecer a principal parte, a da avaliação de si mesmo, de sua competência, de sua atualização, de sua vocação, e também do sistema, que deve conter a oportunidade do exercício da competência, da atualização e da vocação que, em geral, não é pequena, mas muitas vezes é sufocada.
 
Texto publicado sob licença da Revista Pitágoras.
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