Água mole em pedra dura…

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura
 
O ditado “os últimos serão os primeiros” merece pelo menos duas interpretações. A primeira, mais moderna, é a de que aquele que resistir mais ficará até o final e, com isso, será merecedor do título de primeiro lugar. É a história de um torneio, quando valem a resistência e a perícia – portanto, vencem as pessoas dotadas de mais determinação e com melhor preparo. Estas vão até o fim em seus objetivos e costumam ser as primeiras nas disputas da vida.
 
A segunda interpretação é a da avaliação justa. Segundo o evangelho de São Mateus, Jesus teria dito aos falsos puritanos que até as meretrizes e os odiados coletores de impostos entrariam antes deles no reino dos céus. Questionado sobre essa afirmação, teria o mestre explicado que estes eram considerados os últimos na escala da preferência divina, mas na verdade estavam sendo honestos com suas escolhas, ao contrário da maioria dos que se acham justos mas são hipócritas, pois sua aparência de homens corretos apenas esconde sua verdadeira identidade de aproveitadores e corruptos.
 
Bill Porter é um jovem especial. Ele nasceu com paralisia cerebral, o que lhe provocou dificuldades para aprender e para se comunicar, além de um corpo atrofiado, que lhe confere um caminhar claudicante e dores constantes. Americano de Portland, Oregon, durante a infância e a adolescência foi tratado por todos como retardado e incapaz, sendo cuidado pela mãe e atendido pelos programas do governo para portadores de deficiências.
 
Mas Bill era especial não no sentido físico ou intelectual – nisso ele era apenas diferente –, e sim em sua inabalável determinação. Já adulto, decidiu que não podia se permitir continuar vivendo à custa da previdência e sob os cuidados de sua mãe. E foi justamente esta que lhe deu o apoio necessário, pois o ajudou a ver que ele pensava e caminhava mais lento que as outras pessoas, mas, apesar disso, pensava e caminhava. Bastava, portanto, que encontrasse um trabalho que fosse adequado ao seu ritmo, à sua velocidade. E Bill decidiu ser vendedor porta-a-porta.
 
Sua determinação foi fundamental desde o começo, pois teve as propostas de emprego negadas sistematicamente, até invadir o escritório do chefe de vendas da Watkins, uma empresa de produtos de limpeza, e desafiá-lo a lhe dar, para trabalhar, a pior parte do pior bairro da cidade de Portland, aquela que os demais vendedores haviam recusado. Talvez para se livrar do insistente candidato, o responsável deu-lhe a vaga. E nunca se arrependeu disso. Há quatro décadas Bill trabalha na mesma empresa, colecionando clientes, admiradores, prêmios de venda e até medalhas de honra. Tudo graças a seu imenso estoque de determinação, que substituiu com vantagens a inteligência tradicional e o vigor físico. Bill Porter é um homem que dá sentido ao ditado “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.
 
Um bocado de paciência
 
A história de Bill pode ser vista em www.watkinsonline.com/billporter, ou no filme Door to Door, produzido para a televisão em 2002, brilhantemente interpretado pelo ator William H. Macy e ganhador de quatro estatuetas do Emmy Awards 2003 (no Brasil, recebeu o título De Porta em Porta e pode ser encontrado nas locadoras).
 
Em uma das cenas mais comoventes do filme, o vendedor novato senta-se em um banco da rua para comer seu almoço, após ter realizado a primeira série de visitas oferecendo detergentes – todas infrutíferas e frustrantes. Ao desembrulhar o sanduíche que sua mãe lhe preparara, lê uma palavra escrita com molho de tomate sobre o pão. Ao virá-lo, encontra mais uma. A primeira era paciência, a segunda persistência.
 
Bill relata o impacto que as palavras pintadas no pão tiveram sobre seu estado de espírito, pois sem essas duas qualidades ele teria desistido muito cedo de sua saga de vendedor. O belo dessa história é que Bill não é único – ele é apenas um símbolo. A paciência e a persistência estão presentes em todas as histórias em que alguém conquista algo, troca uma situação por outra melhor, atinge um objetivo, realiza um sonho.
 
Preparar-se tecnicamente e estar no lugar certo na hora certa são atributos fundamentais, mas, considerando as dificuldades crescentes em todas as áreas da chamada vida moderna, elas são necessárias, mas não suficientes. Há qualidades humanas que a escola e outras facilidades não podem substituir. Entre elas está aquela que se convencionou chamar de determinação, que pode ser fracionada em paciência e persistência.
 
Porém, a determinação não pode estar divorciada do objetivo. O filósofo alemão Nietzsche disse que “quem tem por que viver agüenta qualquer como”. A sabedoria contida nessa curta frase é imensa. A paciência com a situação atual e a persistência sustentada por uma idéia têm compromisso com o futuro, que se deseja melhor. Continuar persistindo sem sucumbir às dificuldades e buscar forças em reservatórios que pareciam vazios dependem do compromisso com o objetivo, e este está sempre deslocado no tempo. Não está no aqui e no agora. Está no amanhã, em algum lugar. E é nessa combinação que reside a diferença entre os que persistem e se aquietam diante do insucesso momentâneo e os que se impacientam e se desesperam.
 
Paciência e persistência são atributos raros, especialmente quando combinados. A boa notícia é que eles podem ser aprendidos, e há bons mestres nessa matéria. O primeiro mestre é a experiência própria. O segundo é a história, presente nos livros, nos companheiros mais velhos, nos pais, nos conselheiros. A história de quem já viveu, já experimentou e por isso pode contar o sabor da vida, que de amarga pode se tornar doce quando a perseverança vence a indolência e a desesperança.
 
Doses de perseverança
 
No extremo oposto de Bill Porter, o cérebro de Srinivasa Ramanujan era privilegiado. Ele foi um gênio da matemática e é, até hoje, considerado o mais estranho homem de toda a história dessa ciência. Foi comparado a uma supernova, no dizer dos astrofísicos, por ter iluminado os cantos mais escuros e profundos da matemática, antes de ser vencido pela tuberculose, que o levou à morte aos 33 anos. Ramanujan viveu no início do século 20 e permitiu a solução de problemas que emperravam a física quântica. Entretanto, o mundo só foi beneficiado por sua inteligência porque ela estava acompanhada de uma dose incalculável de perseverança.
 
Ramanujan nasceu na Índia, em 1887, em uma família pobre, apesar de ser brâmane, a mais elevada casta hindu. Rapidamente deixou claro que não era uma criança como as outras. Tinha espantosas habilidades com o cálculo, o que lhe valeu mais curiosidade do que admiração, pois de pouco lhe valiam essas habilidades no ambiente em que vivia. E o pior era sua incapacidade de convivência com as pessoas que o rodeavam, inclusive na escola, onde se sentia totalmente deslocado. Como acontece com as crianças superdotadas em colégios convencionais, quase foi considerado um retardado.
 
Já na idade adulta, conseguiu um emprego de funcionário subalterno no porto de Madras, em que ganhava 20 libras por ano, uma miséria. O emprego era ruim e o dinheiro era pouco, mas tinha uma vantagem – dava-lhe tempo para mergulhar em seu mundo particular, o dos cálculos matemáticos.
 
O jovem Srinivasa começou então a enviar cartas – uma ousadia para um jovem pobre e iletrado de uma colônia britânica – para professores de universidades inglesas. As cartas não eram levadas a sério, e a maioria delas nem sequer era aberta. Até que uma foi. E quem a leu, provavelmente em um momento de tédio, foi o brilhante matemático de Cambridge, Godfrey H. Hardy. A carta começava assim: “Peço licença para me apresentar a Vossa Senhoria como funcionário do Departamento do Escritório do Porto de Madras, com um salário de 20 libras por ano”, e seguia com uma coleção de 120 teoremas que eram totalmente desconhecidos pelos matemáticos do Ocidente.
 
Depois de muita dificuldade, o professor Hardy conseguiu trazer o jovem a Cambridge, onde ficou durante três intensos anos de estudo e troca intelectual. Ramanujan deixou na Inglaterra 400 páginas com 4 mil fórmulas de incrível beleza. No último ano de sua vida ainda produziu mais 130 páginas em um caderno que foi encontrado apenas em 1976 – o famoso “caderno perdido de Ramanujan”. Sobre isso, o matemático Richard Askey disse: “O trabalho daquele único ano, enquanto ele estava morrendo, foi equivalente ao trabalho de uma vida inteira de um matemático consumado. Se fosse um romance, ninguém acreditaria nele”.
 
Srinivasa Ramanujan passou para a história por ser um raro gênio da matemática, mas nada disso teria acontecido, e sua inteligência jamais teria sido conhecida pela comunidade científica mundial, se aquele jovem pobre, doente e isolado em um rincão esquecido do mundo não fosse perseverante. Suas inúmeras cartas não geravam respostas, mas ele nunca se abalou. Continuou escrevendo e postando suas correspondências por via marítima, até que um envelope atingiu o alvo certo.
 
Muita força de vontade
 
Ramanujan e Porter não foram abençoados pelas facilidades que tantos ganharam da vida, como famílias estruturadas, escolas de qualidade, amigos fiéis, corpos sadios, cidades cheias de oportunidades. Mas com certeza foram equipados em suas almas com um poder incalculável – força de vontade e perseverança. E, assim como diz o ditado, puderam vencer a rigidez de uma vida de dificuldades que, para outros, seria motivo para o desespero e a derrota.
 
A metáfora nos ensina que a água vence a rocha porque é mais rígida que esta em sua essência. Se evaporar, voltará à sua forma líquida com o tempo. Já a rocha que se fragmenta vira areia e assim se eterniza. A água não é mole, é maleável, adapta-se ao continente, mas deixa sempre clara sua pressão e sua força. É possível aprisioná-la, mas não domá-la, pois trata de ocupar todo o espaço que lhe é dado. Diferente do sólido, que se contém em si mesmo e que pode quebrar-se, mantendo a identidade da molécula, mas perdendo a identidade da forma, irrecuperavelmente. A pedra desiste, a água persiste.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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