Ai, que preguiça!

Caro leitor, você tem três alternativas para dizer de quem é a frase acima: a) de Macunaíma, o herói sem caráter do Mário de Andrade, negando-se a se levantar da rede; b) de seu sobrinho adolescente quando recebe uma ordem expressa para arrumar o quarto; c) de qualquer ser humano diante de uma tarefa que não lhe dá prazer ou que considera inútil.
 
Se você respondeu “d) todas as anteriores”, parabéns, acertou. Acontece que a preguiça é companheira de todos nós, e não apenas dos adolescentes e dos macunaímas. É comum, constante e até diária, eu diria. A preguiça é uma espécie de defesa contra a realização de alguns trabalhos ou atividades de qualquer natureza. E isso ocorre porque somos dotados de um comando central que insiste em economizar energia. Tal mecanismo é uma herança de nossos ancestrais, pois na época deles era muito difícil abastecer a despensa. Quanto menos energia gastarmos, menos necessidade teremos de ir à luta, caçar ou saquear – e, como essas coisas têm lá seus perigos, é prudente evitá-las. É melhor ficar descansando, economizando energia para as necessidades vitais. Daí a tal da preguiça, que sussurra em nosso ouvido para que fiquemos quietinhos, fazendo absolutamente nada.
 
Atualmente, não temos mais que envidar grandes esforços físicos para obter alimento, basta ir até a geladeira ou, no máximo, ao supermercado. Desenvolvemos uma organização social que tem como virtude e objetivo facilitar a vida do ser humano. Temos ao alcance de nossa mão – e de nosso dinheiro – as benesses da ciência, a tecnologia, os serviços prestados por profissionais que ganham para isso, a organização e os métodos que reduzem esforços, e assim por diante. É assombrosamente mais simples viver hoje que na época de nossos avós, por exemplo, o que, para a História, não significa nada – é apenas um instante transcorrido.
 
Imagine a trabalheira que se tinha que fazer no século em que o Brasil foi descoberto, por exemplo, para simplesmente viver. Como não havia refrigeração, os alimentos não podiam ser armazenados, a não ser com a adição de grandes quantidades das tais especiarias, e mesmo assim por um período muito mais curto que hoje. A tecnologia de comunicação era o mensageiro, a de transporte era a tração animal, a de aquecimento era a lenha. Isso sem tentar explicar o que era viver sem água encanada e sem esgoto.
 
Certa vez, em Portugal, visitei o castelo em que vivia dom João VI antes de mudar-se com a corte para o Brasil, fugindo de Napoleão. Foi quando conheci seu trono, que lhe fazia imensa falta no Rio de Janeiro de 1808. É uma cadeira ornada, tem os braços almofadados, ostenta armas imperiais no espaldar e, imagine, tem um buraco no assento. É isso mesmo que você está pensando. Trata-se de um “trono sanitário”, cujo recipiente inferior, após o uso real, devia ser esvaziado por um servo. Pode?
 
A preguiça seletiva
 
Mas, voltando à preguiça contemporânea, veja que história curiosa foi protagonizada pela Carol, filha adolescente de uma querida amiga carioca. Em uma manhã como qualquer outra, a mãe entrou no quarto da filha, abriu as cortinas e, com um beijo, a despertou. Ouviu então um resmungo choroso, seguido de uma explicação de por que não podia acordar ainda. Estava se sentindo mal, com dor de cabeça e calafrios no corpo. Precisava continuar na cama, não tinha forças para se levantar. “Então fique na cama, filhinha”, disse a mãe, compreensiva e ligeiramente preocupada. “Afinal, é domingo e você pode aproveitar para descansar.” A cena que se sucedeu é cômica e digna de um tratado de psicologia juvenil. Carol levantou-se com um elástico salto, alegando: “Domingo?! Por que você não disse logo. Marquei com minhas amigas na praia logo cedo!” Ora, Carol, você não estava se sentindo mal? É claro que estava. Sentia uma imensa preguiça de levantar para enfrentar a rotina, ir ao colégio, realizar as tarefas, encarar as responsabilidades; mas não para ir à praia, ao encontro da diversão e do prazer.
 
É, parece que a preguiça é mesmo seletiva. Como nosso primeiro pensamento é o de nosso cérebro mais primitivo, aquele que seleciona seus interesses pelo prazer ou pelo atendimento a uma necessidade imediata, temos, em princípio, preguiça para fazer qualquer coisa que só irá dar prazer ou resultado depois de algum tempo. Todos nós pensamos e organizamos nossa vida obedecendo aos princípios neuropsicológicos, e estes demoram a amadurecer e se adequar a uma vida produtiva. Eu bem que gostaria – pensamos – de ter um corpo harmônico, saudável e belo, mas isso depende de ginástica na academia, e leva um tempão – ai, que preguiça. Como seria bom fazer um mestrado, mas isso significa voltar a estudar, assistir a aulas, pesquisar, para obter um título daqui a, veja só, pelo menos dois anos – ai, que preguiça imensa. E por aí vai.
 
Preguiça, portanto, é normal. Só deixa de ser quando não é controlada, e então dá de dez a zero nas decisões. Mas há uma alternativa, uma luz no fim desse preguiçoso túnel: a disciplina – conceito fácil de entender e dificílimo de implementar. Ter disciplina pessoal significa decidir o que deve ser feito, e fazer. E isso não pode depender da vontade do momento. Tem que depender da decisão que foi tomada antes, porque a vontade é emocional, enquanto a decisão é racional. E o comandante tem que ser o racional, pois ele é quem tem o discernimento sobre o que é bom e o que não é bom. O emocional só sabe diferenciar o agradável do desagradável, o que não serve como critério para as grandes decisões.
 
As três possibilidades
 
Devemos considerar que na vida interagem fenômenos complementares: o sentimento, o pensamento e a atitude. Os três são inseparáveis, no entanto, pode variar a ordem em que eles se apresentam. Há três possibilidades: se o sentimento vem antes, é porque você fica esperando a vontade chegar, aí você pensa o que é que tem que fazer para atendê-la, e só então toma a atitude. Assim vivem as pessoas que não realizam muito na vida. Não fazem o que têm de fazer e depois dizem que não fizeram porque não estavam com vontade.
 
No segundo caso, você coloca o pensamento na frente e se ele for consistente, se tiver qualidade, será capaz de gerar sentimento. Esse sentimento chama-se motivação, que é o grande propulsor do trabalho e da realização. Por isso temos de ter qualidade de pensamento. Assim, você pode controlar os pensamentos que irão gerar sentimentos e atitudes. E no terceiro caso você pensa no que é bom para você e faz. Não fica esperando a “vontadinha” chegar, porque ela talvez não chegue nunca, e a preguiça ganha a batalha. A notícia boa é que a vontade sempre chega, em geral depois que começamos a fazer o que tem que ser feito. Já reparou que, mesmo quando não tem vontade de ir à academia, depois que está lá se sente bem? O que acontece é que a ação precedeu o sentimento, e isso foi mediado pelo pensamento. Legal, né?
 
Não esqueça que a indisciplina dispersa energia, a disciplina condensa. Ser disciplinado significa obedecer às ordens que você dá a si mesmo. Só que você tem de dar ordens certas, senão o mundo começa a se meter na sua vida.
 
Disciplina é liberdade
 
Muitas pessoas sentem-se condenadas a ser escravos de seus desejos de prazer e tornam-se presas fáceis da preguiça que as castiga e limita. Para elas a vida é mesmo uma fonte inesgotável de obrigações tediosas para as quais temos imensa dificuldade de dedicar nossa energia vital, e das quais não podemos fugir sob pena de sermos alcançados pelas garras do fracasso e da impotência. Estamos condenados, sim, mas à liberdade, a não ser que entreguemos, por opção, o comando de nossa vida ao mero destino e à vontade dos outros. E essa é a opção da preguiça, acredite.
 
Eu sei que não é fácil, mas o antídoto que sabemos que não falha, porque foi testado ao longo da história humana, é mesmo a disciplina. Sempre que a essência do homem foi colocada em teste, como na guerra, nos esportes e nas ciências, a disciplina mostrou seu valor. Tivemos até alguns mestres nessa área. Um deles foi Sêneca, senador romano de origem espanhola que viveu entre 4 a.C. e 65 d.C. Ele adaptou e aplicou à vida prática a filosofia estóica, criada pelo grego Zenão no século 4 a.C., em que a disciplina é absolutamente fundamental. De acordo com essa filosofia, a principal causa do sofrimento humano é a fraqueza da vontade, e isso termina por levar o homem a condutas deploráveis, como a preguiça, a inveja e a cobiça. Sêneca repetia que a pessoa que domina sua vontade comanda seu destino, e aquele que não domina sua vontade é apenas arrastado pelo destino, que foge do controle. Pois é, parece que a indisciplina e a preguiça podem ter efeito fatal em nossos sonhos!
 
O estoicismo acabou transformando-se, por essa via, na postura intelectual predominante no Império Romano. No estoicismo grego considerava-se a disciplina uma virtude. Já no estoicismo romano ela passou a ser encarada como dever cívico. Os estóicos acreditavam que a virtude poderia levar o homem à criação de uma razão universal, da qual deriva o conceito do jus naturale, ou direito natural, que passou a fazer parte do direito romano, o pilar da maioria dos sistemas jurídicos modernos, a maior contribuição do pensamento romano à atualidade. A disciplina, entretanto, não pode depender nem da exigência jurídica nem da imposição de outras pessoas. Ser disciplinado não significa ser chato, quadrado, metódico. Significa controlar os impulsos primitivos que buscam, acima de tudo, o prazer e a economia de energia. Depois vem o resto. Só que o mundo de hoje quer esse resto, que a preguiça teima em não conceder. E, nesse caso, parodiando Macunaíma, o herói sem caráter, em sua carta aos Icamiabas: “Pouca vontade e muita preguiça, os nossos males são”.
 
Em tempo: Mário de Andrade escreveu Macunaíma bem ao estilo de seu personagem: em seis dias, deitado em uma rede. É verdade que isso só foi possível após anos de pesquisa, estudo e leitura. Eu escrevi este artigo em um fim de semana passado em Salvador, à beira do mar. Agora acabou a moleza, e tenho que voltar para São Paulo, Mas, sinceramente, ai que pregui…
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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