Ambição

Há predicados que são obviamente elogiosos, enquanto outros são, escancaradamente, depreciativos. Dizer que alguém é elegante, culto ou boa gente equivale a elogiar e enaltecer as qualidades da pessoa. Já chamar uma pessoa de arrogante, burra ou vulgar não deixa dúvidas sobre o baixo conceito que temos desse indivíduo.

E quando alguém é classificado como ambicioso? É bom ou ruim? Elogioso ou crítico? Você, afinal, quer estar ao lado de uma pessoa assim, ambiciosa? Aliás, quando seu chefe, ou seu amigo, ou sua namorada ou namorado dizem que você é ambicioso, como é que você se sente, envaidecido ou preocupado?

Este é um desses temas cuja discussão não se esgota, e que, como todas as polemicas, acaba sendo resolvido pelo famoso “caminho do meio”. Tipo assim: um pouco de ambição faz bem, demais deteriora o caráter; ou: depende dos meios que utilizamos para atingir nossos objetivos; e por aí vai. Mas isso é pouco.

Recentemente me deparei com uma discussão bastante acalorada com um grupo de executivos durante um workshop, em que se procurava definir os atributos da liderança e do empreendedorismo, duas qualidades muito desejadas no mundo das empresas.

– Não há grandes líderes que não sejam ambiciosos – afirmou um jovem promissor.

– Os mais ambiciosos são os empreendedores, que transformam ideias em projetos – retrucou outro candidato a milionário.

O assunto rendeu, e as conclusões, afinal, foram muito esclarecedoras. A primeira foi que sem ambição, o ser humano ainda estaria morando nas cavernas. Foi por desejar uma vida melhor, mais segura e confortável que nosso ancestral botou seu recém surgido córtex pré-frontal para imaginar novas possibilidades e seu polegar opositor para fazer as coisas funcionarem como ele desejava. E não parou mais. Da roda ao computador de bordo foi apenas uma questão de escala. E tempo, claro.

A criatividade e o trabalho, visto dessa forma, são instrumentos a serviço da ambição humana, e, como tal, podem ser bem ou mal usados. Destreza é uma questão de treino, mas iniciativa depende da vontade, e esta varia tanto entre as pessoas quanto a cor do cabelo ou a predisposição para engordar. Tem de tudo.

A segunda foi que, assim como a intensidade da ambição varia entre as pessoas, também varia o tipo. Sim, há mais de um tipo de ambição, e seriam justamente essas características que teriam influencia sobre a postura da pessoa e até sobre o trabalho ou a posição para o qual ela está mais indicada na empresa e na sociedade em geral.

A ambição e seus tipos

O comum é que se atribua ao ambicioso o forte desejo de ganhar dinheiro, e, apesar de não haver nada de errado com isso, foi dessa visão limitada que nasceu a dúvida se ambição é uma qualidade ou um defeito. Afinal, textos sérios já se pronunciaram sobre isso com alguma severidade, a começar pela Bíblia, em que lemos que “O amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” – 1 Timóteo 6:10.

Interessante notar que o texto diz que “o amor ao dinheiro”, e não o dinheiro em si, é a raiz de todos os males. E isso tem, sim, a ver com a qualidade da ambição, e com a maneira como é exercida. Esse assunto já deu muito pano pra manga ideológica e intelectual.

Em 1904 o sociólogo alemão Max Weber escreveu um extenso artigo intitulado A ética protestante. No ano seguinte publicou outro, em continuação, chamado O espírito do capitalismo. Anos depois, a junção das duas reflexões e dos dois títulos deu origem à sua obra mais conhecida, A ética protestante e o espírito do capitalismo.

Ao tentar entender as causas do enriquecimento de algumas nações, como a Inglaterra e a Alemanha, e a estagnação econômica e social de outras, Weber identificou algumas, entre elas, a maneira como a religião reinante interpreta o enriquecimento pessoal, a ambição do ter.

Suas observações mostraram que os países de predomínio do Catolicismo aceitavam a ética (costume) da humildade como sinônimo de pobreza. Para eles, ganhar dinheiro era pecaminoso, não agradava a Deus. Já os protestantes, especialmente os calvinistas, aceitaram que ganhar dinheiro com o trabalho duro é uma forma de seguir os ensinamentos divinos. Para eles, as habilidades humanas, como a arte e o comércio são dádivas divinas que devem ser estimuladas e valorizadas. E bem pagas, claro.

Ainda que esta não seja a única causa do enriquecimento (o clima e a temperatura, os recursos naturais os investimentos em educação, o respeito à ciência estão entre os demais), a não pecaminização do dinheiro contribuiu, sim, para o desenvolvimento dessas nações durante os séculos XIX e XX. Olhando mais de perto esse estudo, e outros, vamos verificar que a ambição produz riqueza e, quando bem conduzida, produz desenvolvimento. Para isso temos que entender que há mais de um tipo de ambição, e que a combinação deles pavimenta o melhor caminho.

 

 Ambição de ter

Esta é a ambição clássica, a de ambicionar dinheiro e bens materiais, e que é, com frequência, confundida com ambição propriamente dita. Apesar de não haver erro algum em querer ganhar dinheiro para comprar coisas, possuir bens, gostar de luxos, esse tipo de ambição, quando não compensada por bons atributos morais, corre o risco de deslizar para a vala lamacenta da vulgaridade. O erro, em resumo, estaria em se limitar a ambição a essa primeira categoria.

Ambição de ser

Esta, na discussão com os jovens executivos, foi classificada como a “ambição dos grandes homens”, aqueles que desejam deixar atrás de si uma imagem positiva. Faz sentido. Afinal, como você quer ser visto por seus filhos, por seus amigos e colegas, por seus vizinhos e, principalmente por você mesmo quando se olha no espelho da consciência?

Que tipo de ser humano você ambiciona ser, afinal? Há quem deseje ser reconhecido por sua elegância, outros por sua cultura, alguns por serem pessoas altamente confiáveis. Todos nos lembramos de alguém que é simpático, agradável, bom, disponível, e nos aproximamos dele, ao mesmo tempo que evitamos aqueles que nunca se preocuparam com desenvolver essas qualidades em sua própria personalidade.

A ambição de ser é subjetiva, está longe de ser tangível como ambicionar ter sua própria empresa ou um apartamento de luxo. Mas é tão ambição quanto. Em outras palavras, é um projeto de futuro, que, como todos os demais, merece atenção diária, planejamento, intenção.

Ambição de aprender

Pessoalmente, tenho dois sentimentos quando entro em uma dessas mega livrarias que existem atualmente. O primeiro é de alegria por constatar o imenso conhecimento ali disponível em forma de livros. O segundo é de angustia pela percepção de que não terei tempo para ler todos, ainda que dedique minha vida a isso. Tenho, sim, ambição de aprender.

Basta uma rápida olhada sobre o mundo em que vivemos para se perceber a diversidade de opções de aprendizado. Livros, sites, novas áreas de conhecimento, línguas que podemos aprender sem sair de casa, poemas antigo e novos, habilidades clássicas e competências modernas.

Ambição de fazer

Conheço pessoas cujo desejo de realizar, de fazer coisas, é tão forte que se transformaram em verdadeiros dínamos de produção. Em geral muito trabalhadores, não estão satisfeitos a não ser que estejam produzindo, criando, inventando, inovando. Esta é a ambição dos empreendedores, daqueles que abrem companhias, que conquistam mercados, que inventam produtos, e também dos que se candidatam a sindico do prédio, a diretor do clube, e que se tornam referências comunitárias. São os fazedores, sem os quais o mundo estagna.

Ambição do transformar

Não há como discordar dos que dizem que há muito a se mudar no mundo para que ele venha a ser realmente um bom lugar para se viver. Injustiças, desigualdades, inseguranças, desconfortos, medos estão ao nosso redor, basta lançar um olhar criterioso. Mudanças são necessárias em todos os lugares, não podemos nos acomodar.

Esta é a visão dos que têm real ambição por transformar o mundo, se não todo o planeta, pelo menos a parcela sobre a qual podemos exercer a influência de nossas ideias e nossas ações. O mundo está, sim, em transformação crescente, e tem gente que não se contenta em ser observador, quer ser protagonista. Ambiciona ser um transformador.

O conjunto da obra

Como vimos, ter ambição é muito mais do que querer ganhar dinheiro apenas. Quando esta é a única ambição, seria melhor se a chamássemos de ganância. E o mais interessante é que quando a ambição se resume ao ter, é mais provável que nunca se realize. Ganhar dinheiro é consequência.

A conclusão do grupo foi que a ambição varia em escala e qualidade entre os humanos. Os líderes teriam mais fortes a ambição do ser e do transformar. Os empreendedores seriam mais ambiciosos em ter, aprender e fazer.

Como em quase tudo, o equilíbrio é o desejável. Imagine alguém que possua todas essas ambições, e que seja uma pessoa generosa, com personalidade estruturada e caráter sólido. Estaríamos diante de um dínamo humano capaz de conquistas, realizações, transformações. Seria ele um estadista?

De qualquer maneira, o tema ambição deve ser olhado com cuidado, pois quando a mesma não é acompanhada por qualidades pode ser frustrante ou angustiante. Para resumir o cuidado – principalmente o de não confundir ambição com insatisfação – lembro de um texto do genial Millor Fernandes sobre o assunto:

Certo dia uma rica senhora viu, num antiquário, uma cadeira que era uma beleza. Negra, feita de mogno e cedro, custava uma fortuna. Era tão bela, que a mulher não titubeou – entrou, pagou, levou para casa.

A cadeira era tão bonita que os outros móveis, antes tão lindos, começaram a parecer insuportáveis à simpática senhora. (Era simpática). Ela então resolveu vender todos os móveis e comprar outros que pudessem se equiparar à maravilhosa cadeira. E vendeu-os e comprou outros.

Mas, então a casa que antes parecia tão bonita, ficou tão bem mobilada que se estabeleceu uma desarmonia flagrante entre casa e móveis. E a senhora começou a achar a casa horrível.

E vendeu a casa e comprou uma outra maravilhosa.

Mas dentro daquela casa magnífica, mobilada de maneira esplendorosa, a mulher começou, pouco a pouco, a achar seu marido mesquinho. E trocou de marido.

Mas mesmo assim não conseguia ser feliz. Pois naquela casa magnífica, com aqueles móveis admiráveis e aquele marido fabuloso, todo mundo começou a achá-la extremamente vulgar

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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