Ansiedade

Em uma recente viagem de avião para Salvador, não pude deixar de acompanhar o curto diálogo de um casal sentado nas poltronas do outro lado do corredor. Ela estava aparentemente apreensiva com a decolagem, e seu acompanhante a repreendeu dizendo algo como:”Relaxe, você precisa parar de ser tão ansiosa”. Entretanto, algum tempo depois,em pleno vôo, ele volta a falar, agora sobre ele mesmo: “Estou realmente ansioso para chegar e tomar um bom banho de mar”.
 
Esse pequeno episódio me deixou pensando sobre a ambivalência dos sentimentos humanos, especialmente sobre a ansiedade, pois esta havia sido mencionada duas vezes, em curto espaço de tempo, e de duas maneiras totalmente diferentes.Na opinião dele, a ansiedade dela era ruim, injustificada e devia ser dominada. Já a dele era compreensível, justificada e aceitável. A primeira era a ansiedade causada pelo prenúncio do medo, a segunda pela expectativa do prazer. Na verdade, ambas as ansiedades encontram justificativa no tempo, que demora a passar. Ela queria que a viagem terminasse logo para que também terminasse o medo de avião. Ele queria chegar logo para ir para a praia.
 
Uma coisa é uma coisa…
E outra coisa é outra coisa…
 
Para início de conversa, é bom separar a ansiedade do transtorno de ansiedade.A ansiedade pura e simples é a manifestação fisiológica de um estado de atenção, ligado ao instinto de preservação da vida. A ansiedade é a expectativa da decisão de fugir ou lutar diante de um perigo iminente. É um estado anterior ao estresse. Como nosso ancestral estava praticamente o tempo todo exposto ao perigo, seu estado de alerta estava sempre ligado. A qualquer momento ele poderia ser atacado, e então teria que decidir o que fazer para salvar sua vida. A primeira decisão costumava ser a de fugir, e, se não fosse possível, lutar. E essa decisão precisava ser tomada em instantes. O sintoma de que o sistema de alerta está sempre ligado é o que podemos chamar de ansiedade. E isso não só é normal como é desejável.
 
Já o transtorno de ansiedade não é fisiológico, é patológico e faz sofrer. Quando uma pessoa desencadeia um sentimento de ansiedade desproporcional à causa, ou até na ausência desta, dizemos que ela está sofrendo de um transtorno de ansiedade. E isso é mais comum do que se pensa. De certa forma, todos nós já experimentamos essa situação, que só se torna preocupante quando é recorrente e constante.
 
Os transtornos de ansiedade costumam ser diagnosticados e tratados não como oscilações emocionais, e sim como estados de fobia, por estarem sempre ligados a algum tipo de medo.O mais expressivo é exatamente chamado de transtorno do medo, em que a pessoa passa a confundir a ansiedade com o medo até transformar totalmente a primeira no segundo, e começa a temer coisas e fatos que normalmente seriam tratados até com algum desdém. Como o futuro é desconhecido, passa a ser também temido, e há quem sinta medo do próprio medo. Pelo desconforto que ele causa, o medo passa ser temido. Como um uróboro, a serpente que come sua própria cauda, o medo se alimenta dele mesmo.
 
Medo do medo
 
Há também as variantes desse transtorno, ligados a situações específicas. O transtorno agorafóbico, por exemplo, está ligado ao medo de estar em locais públicos, longe da proteção do lar e dos familiares. Ágora significa praça em grego, local aberto, desprotegido. Essa ansiedade é tão insuportável que leva a pessoa a isolar-se do mundo e não querer sair de casa. Quando ela sai, experimenta palpitação, sudorese, agitação, sensação de perigo próximo. Esse é o primeiro passo em direção à síndrome do pânico.
 
Há a fobia social, um tipo de transtorno em que a vítima sente-se permanentemente vulnerável ao julgamento dos demais. Como isso causa insegurança e sofrimento, ela evita o contato com outras pessoas, especialmente as desconhecidas. E, ao fazer isso, reforça a certeza de que é melhor ficar afastada. Fobias outras aparecem cá e lá, com alguma freqüência. Certamente você já ouviu falar de alguém com acrofobia (medo de altura), ou claustrofobia (medo de lugares fechados), ou mesmo aracnofobia (medo de aranhas). São medos específicos que se manifestam no cotidiano por uma grande sensação de desconforto e que podem prejudicar o andamento normal da vida. Quando isso acontece, é bom não brincar. O tratamento especializado é necessário.
 
Ok, você pode não ter nenhuma dessas fobias e mesmo assim viver ansioso. Sim, porque você tem aquele gene ancestral que diz que você tem que estar atento para decidir diante do perigo, e o dito-cujo está a um passo. Só que, em geral, esse passo não é dado, e você até preferia que ele acontecesse para acabar logo com isso. Mas coisas demoram a acontecer. Ufa, que ansiedade! A vida moderna tem menos perigos físicos, mas tem vários perigos emocionais, que exigem atenção, também.
 
E, como se não bastasse, temos que ficar o tempo todo lidando com a decisão, que é, como vimos, a mãe da ansiedade. Costumo dizer que, para mim, um dos grandes locais geradores de ansiedade é a sorveteria. Diante dos meus olhos há pelo menos 30 sabores a escolher, mas eu só tenho direito a dois. Ó dúvida cruel! O conselho é: escolha logo – e a ansiedade passa à primeira lambida.
 
O grande mal-estar
 
“É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação – isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e as admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida.” Essa frase parece dar a grande pista para a compreensão da ansiedade moderna. A busca de coisas a serem admiradas e a impossibilidade de conseguir todas.Trata-se da frase que abre um dos livros mais importantes escritos por Freud – O Malestar da Civilização. E o velho mestre não deixou por menos. Generalizou logo para toda a humanidade, incluindo ele mesmo.
 
Segundo o psicanalista vienense, todos vivemos constantemente sendo assolados por três ameaças: a natureza, as outras pessoas e nós mesmos. A natureza, que significa o meio ambiente em que estamos, que tem seus perigos próprios, como as intempéries, os movimentos, as feras. As outras pessoas, pois estas querem em primeiro lugar cuidar de seus próprios interesses, mesmo que seja à nossa custa. E nós mesmos, porque não conseguimos satisfazer nossos desejos e porque temos compreensão da finitude da vida e da decadência física de que seremos vítimas.
 
Diante desse quadro um tanto pessimista – bem próprio do Sig, aliás –, chegamos à conclusão que estamos condenados à ansiedade, pois o que nos foi dado é um paradoxo existencial. Queremos curtir a natureza e a cidade, mas as tememos.Desejamos a companhia de pessoas, mas sabemos que elas poderão ser causa de aborrecimento. Esperamos realizar coisas que dependem de tempo e queremos que este passe depressa, mas ele é o mesmo que, ao passar, nos envelhece.
 
Mas, como sempre, nem tudo está perdido. Sem querer ser o otimista inconseqüente, a Pollyana que só vê o lado bom das coisas, vale lembrar que o próprio Freud apontou caminhos. Por isso escreveu a obra, porque queria jogar uma luz sobre as trevas do sofrimento existencial. Para ele, o grande caminho é também o único: o autoconhecimento.
 
É claro que há medidas paliativas, aquelas tomadas na expectativa da solução imediata.Eu,por exemplo, na vigência de uma ansiedade que incomoda, respiro fundo.Respirar fundo é raro, no dia-a-dia, você já havia percebido? Respirar fundo ocupa a mente por alguns instantes, causa uma sensação de prazer, oxigena os tecidos, diminui a freqüência cardíaca, põe as coisas no lugar, em resumo.Não adiantou muito? Respire mais uma vez!
 
Respirar fundo é um pequeno exercício reconfortador.Mas há outros, maiores, mais poderosos, que deveriam ser realizados regularmente, e são todos parentes do famoso respirar fundo. Esporte, exercício físico, ioga, hobbies, artes, cinema, música, comida, namoro, risada, sexo. Tudo o que dá prazer e serve para equilibrar a balança, pois no outro prato está uma legião de causadores de ansiedade.
 
É isso mesmo, o equilíbrio que é quebrado, mas que se recompõe. Ninguém é de ferro que possa se expor a perigos constantes sem momentos de trégua para recarregar as baterias. Causas para a ansiedade temos muitas. Precisamos também de causas para a paz interior.
 
10 dicas para espantar a ansiedade:
 
– Organize-se: Quando as coisas estão em seus devidos lugares, colocamos menos energia em resolver o cotidiano.
– Priorize: Faça primeiro o que é mais importante.
– Confie: De pouco adianta suspirar pelas coisas que são de responsabilidade de outros. Aprenda a confiar mais nas pessoas.
– Valorize: Atenha-se ao que realmente tem valor, como a amizade, a saúde e a ética, e não às picuinhas, à inveja, às fofocas.
– Diversifique: Não ponha toda sua energia em uma só atividade. Trabalhe, sim, mas também namore, pratique seus hobbies etc.
– Relaxe: A partir do relaxamento muscular chegamos ao relaxamento mental.
– Divirta-se: O bom humor, o riso e a alegria são antídotos poderosos contra a ansiedade. Não leve a vida tão a sério.
– Compartilhe: Quando dividimos nossas ansiedades com alguém de confiança, passamos a compreender melhor os motivos.
– Medite: Reserve momentos para ficar em silêncio, sem fazer nada.
– Cuide-se: Orientação psicológica ajuda a conviver com as dificuldades da vida.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.

 
Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br