Antes tarde do nunca

Costumamos ouvir a expressão “antes tarde do que nunca” em duas circunstâncias diferentes.
 
A primeira , mais freqüente, ocorre quando alguém se atrasa com um compromisso e finalmente cumpre com o esperado. Nesse caso, pronunciamos a conhecida frase com uma conotação que mistura uma sensação de alívio com uma censura irônica. Algo assim como – “Ufa! Antes tarde do que nunca. Mas da próxima vez, vê se não demora tanto…”. A ênfase vai para a palavra “tarde”, e os olhos de quem a pronuncia abrem-se em uma reprovação esbugalhada.
 
Quando isso acontece, o que está em discussão é o comportamento reprovável de não ter compromisso com horários, nem respeito pelo tempo dos outros; ou ainda o de cultivar o hábito de deixar tudo para a última hora e acabar se atrasando. É claro que todo mundo já se atrasou ou demorou para concluir um trabalho, mas para algumas pessoas isso já virou rotina. Dessa forma, dificilmente alguém construirá uma imagem de cidadão responsável.
 
A segunda maneira de usarmos a famosa frase é melhor, mais alegre e até edificante. Ocorre quando alguém faz alguma coisa que, pelos padrões convencionais, estaria muito velha para fazer. Neste caso pronunciamos a frase com ênfase no “nunca”. O tom é outro. A expressão facial também. Há um meio sorriso desenhado nos lábios, ao mesmo tempo em que os olhos se fecham ligeiramente, como se a pessoa quisesse olhar para dentro dela mesma.
 
Eu mesmo já falei assim várias vezes, ainda que através de variações do tipo: – “puxa, que bom, sempre é melhor fazer tarde do que não fazer nunca!”.
 
Lembro-me, por exemplo, de meu velho amigo Sady. E digo “velho” no bom sentido, o de amigo saudoso, o “velho de guerra”. Ele era formado em farmácia, e até os anos 60 os farmacêuticos eram autorizados a conduzir a anestesia dos pacientes durante as cirurgias, pois não havia número suficiente de médicos anestesistas.
 
Só que de um dia para outro, os farmacêuticos foram proibidos de aplicar anestésicos durante cirurgias, e o Sady perdeu sua profissão. O que poderia ele fazer, considerando que já tinha passado dos 60 anos, o que, na época, dava-lhe status de “idoso”? Que tal uma aposentadoriazinha? Para muitos seria a saída lógica. Mas não para o Sady. Sua opção: estudar medicina.
 
O tempo a gente faz
 
Tive a sorte de ser colega do Sady. Ele não tinha a mesma facilidade para acompanhar as aulas, principalmente considerando que ele vinha todos os dias de ônibus desde sua cidade no Paraná, Ponta Grossa, para estudar em Curitiba, viajando, 200 quilômetros diariamente. Mas durante todos os anos de convivência nunca o escutamos queixar-se das dificuldades, da viagem, do governo, da sorte. Nada disso. Ele não era homem dado a queixas, e sim a superações.
 
Quando cursamos a disciplina de técnica operatória, que incluía muitas cirurgias realizadas em animais, principalmente em cães, quem era o anestesista? O Sady, é claro. Ele anestesiava com arte e um indisfarçável orgulho. E quer saber? Ele era muito bom no que fazia. Enquanto outros animais muitas vezes morriam, não por causa da cirurgia, mas por causa dos erros anestésicos, aqueles atendimentos pelo experiente anestesista nunca tiveram nenhum problema.
 
Penso em meu colega toda vez que ouço alguém se queixar que já está muito velho para um novo empreendimento, para uma volta aos estudos, para uma viagem longa, para mais um casamento, para ter um filho, ou para qualquer tipo de iniciativa que exija a tal “juventude”, como se isso fosse uma espécie de qualificação profissional, e não o que realmente é: um estado de espírito. Conheço maravilhosos “jovens” de 70 anos que continuam a produzir e “velhos” de 30, sem disposição para nada.
 
Somos o que pensamos
 
Na verdade, tudo depende do como cada pessoa encara a vida. Ou seja, depende de uma postura, uma atitude. E a atitude começa na cabeça. Há gente que se considera velha, e há gente que parece estar sempre recomeçando, o que absolutamente não significa negar o que já foi feito. Portanto, depende da percepção que a pessoa tem de si mesma.
 
Perceber significa “apoderar-se de uma imagem”, “aprender pelos sentidos”. E os sentidos variam muito entre os indivíduos. Duas pessoas olham para uma dificuldade. Uma vê um problema, a outra uma oportunidade. Duas pessoas olham para si mesmas. Uma vê um jovem, a outra vê um velho. E na maioria das vezes, velha é apenas a maneira de ver a si mesmo.
 
Há um capítulo do estudo da mente humana, chamado “psicologia da consciência”. Quem lhe deu início foi o médico americano William James (1842-1910) que, antes de estudar medicina tentou ser um explorador da Natureza, tendo estado inclusive na Amazônia. Depois dessa viagem, declarou que se sentia mais estimulado pelos mistérios do espírito humano do que pelas florestas tropicais.
 
De acordo com James, “todo pensamento tende a ser parte de uma consciência pessoal”, o que significa que o pensamento deriva das experiências e das percepções próprias de cada indivíduo. Inclusive as experiências e percepções sobre si mesmo, o que coloca o indivíduo fora de si, como se fosse um agente externo. E este agente pode estar “envelhecido” e “derrotado” pelas experiências e pelos estímulos recebidos durante a vida. Ou o contrário disso.
 
Mas ele também afirmou que “dentro de cada consciência, pessoal o pensamento está sempre se transformando”. Boa notícia. Isso quer dizer que podemos ver o mesmo objeto, ouvir o mesmo som, saborear a mesma comida, e nossa consciência dessas percepções mudar a cada vez. Ou seja, cada um de nós pode aprimorar a maneira como se percebe, e isto está na dependência de sua própria vontade. E, claro, das atitudes que decorram dessa vontade. Assim, você estará “fora do tempo” apenas quando decidir.
 
Disposição para recriar
 
Tem gente que organiza seus pensamentos a partir de uma consciência construída sobre bases saudáveis e sempre positivas. Meu amigo Carlos Júlio, um bem-sucedido executivo que consegue associar uma grande competência nos negócios com uma contagiante alegria de viver, relata uma experiência que o marcou muito. Esteve recentemente visitando o escritor Peter Drucker, autor de obras clássicas sobre a dinâmica corporativa das empresas, em sua casa na Califórnia, Estados Unidos.
 
Ele conta que no meio da conversa o velho mestre disse que havia parado de dar aulas há 16 anos . No entanto, logo depois comunicou que teria que se retirar, pois precisava preparar uma aula que daria no dia seguinte pela manhã. Ao ser indagado sobre a contradição, Drucker explicou: ele tinha parado de dar aulas de administração de empresas, mas agora estava lecionando arte oriental!
 
Havia se apaixonado pelo tema há apenas cinco anos mas, para ele, tempo suficiente para se transformar em uma autoridade, a ponto de virar professor. E o melhor: relatou ao atônito brasileiro, que quando ele tinha vinte anos de idade (está com 95), tomou a decisão de dedicar-se a estudar em profundidade um assunto a cada cinco anos. Passados setenta anos, ele domina em profundidade pelo menos 15 assuntos, além daqueles ligados à sua profissão de administrador. O último tema, arte oriental, começou a estudar com afinco aos quase 90 anos. Tarde? Pois se não fosse agora, seria nunca! O que é melhor?
 
Ser inteiro em cada ação
 
A História está repleta de figuras que realizaram grandes feitos em idades avançadas, pois tiveram a capacidade de perceber que não há limites para a determinação. Para elas, nunca é tarde, pois quem acha que é tarde acaba não fazendo nunca.
 
O compositor italiano Giuseppe Verdi escreveu a sua obra-prima , a ópera Falstaff, aos 80 anos, e continuou escrevendo ainda depois. O artista italiano Michelangelo aceitou a encomenda de pintar a Capela Sistina aos 63 anos. O filósofo grego Platão deu aulas em sua academia já octogenário. O ator e diretor Charles Chaplin dirigiu o filme a Condessa de Hong Kong aos 78. E o arquiteto Oscar Niemeyer já está com 96 anos e continua debruçado na sua prancheta em Copacabana, produzindo maravilhas em concreto e vidro.
 
Há esses heróis que são eternos por suas obras e também por suas atitudes perante a vida. E também há os heróis do cotidiano. Todos conhecemos alguém, uma pessoa comum, ou aparentemente comum, que não passará à posteridade pela literatura, mas que cumpre a missão de dar o exemplo de uma vida digna . Que tiveram a coragem de buscar a felicidade em uma nova atitude, que não deixaram de arriscar novos rumos, independente da idade e do tempo.
 
O poeta português Fernando Pessoa , assinando em seu nome, ou no nome de um dos seus inúmeros heterônimos, escreveu sobre as várias facetas da alma humana. Produziu muito sobre aqueles que cruzam a vida sem sonhos e que , por medo de errar , simplesmente deixam de fazer e de viver. Neste trecho de um poema, ele parece dar conselhos àqueles que se acham pequenos e pensam que já é tarde:
 
Para ser grande, sê inteiro
Nada teu exagera ou exclui
Sê todo em cada coisa
Põe quanto és no mínimo que fazes
Em cada lago a lua toda brilha
Porque alta vive…
 
Afinal, em qual dos dois sentidos você quer ouvir a frase “antes tarde do que nunca”? No sentido de viver correndo atrás do tempo e fazendo as coisas tarde demais, desrespeitando as pessoas ao seu redor? Ou com outro significado, de continuar fazendo coisas, desprezando o conceito do tarde e colocando energia para mostrar que o nunca é um tempo que não existe de verdade? A escolha é só sua.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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