As aparências enganam

Quando penso em quantas vezes eu fui enganado pelas aparências, lembro de uma viagem uma viagem que fiz pelo deserto da África. Estávamos em um caminhão especial para enfrentar as areias, e quem o conduzia era um israelense simpático chamado Avi. Em uma das paradas, tirava algumas fotos, quando o guia chamou minha atenção:
 
– Olhe lá um tuaregue.
 
– O quê? – perguntei, pensando que não estava entendendo seu inglês.
 
– Tuaregue, um habitante do deserto. É um povo nômade, que viaja pelo deserto o tempo todo, apesar de que alguns já se transformaram em fazendeiros, em regiões onde chove o suficiente. Mas eles gostam mesmo é de andar por aí…
 
– OK, Avi, eu sei sobre os tuaregues, mas você pode me dizer onde é que ele está, afinal de contas?
 
Meu amigo, cujos olhos estão acostumados às imagens enganosas do deserto, fez bastante esforço para que eu conseguisse finalmente enxergar um homem que puxava seu camelo preguiçosamente. Então, eu percebi o porque de minha dificuldade em vê-lo: ele era da mesma cor ocre do camelo, que era da mesma cor da duna de areia em que estava, que, por sua vez, era da mesma cor do resto do deserto.
 
– Incrível, nem parece que tem alguém…
 
– Pois é, meu caro, no deserto nem tudo o que é, parece ser, e nem tudo o que parece ser, realmente é. Você vê miragens, que são coisas que não existem, e não vê os habitantes das areias que são reais e estão ali na sua frente. Aliás, no deserto é como na vida, as aparências costumam enganar.
 
Realmente a vida é assim, enganosa em suas aparências. O filósofo grego Platão dizia que existem dois mundos interconectados: o das formas e o dos sentidos. No primeiro vive a verdade, a real essência das coisas, e no segundo vive a ilusão, pois este mundo é dependente da observação que fazemos do outro através de nossos sentidos – que não são confiáveis
 
Platão poderia explicar o título deste artigo da seguinte forma: Vemos o mundo através do que ele aparenta ser, e nem sempre as aparências correspondem à realidade, principalmente quando não prestamos a devida atenção aos fatos.
 
Ilusão pela imagem
 
O que eu presenciei no deserto foi um exemplo de um fenômeno comum na natureza: o mimetismo. A palavra grega mimetós significa imitação, e mimetismo é um fenômeno em que um animal se parece com outro, ou se confunde com o meio em que vive, com a finalidade de levar alguma vantagem nessa simulação.
 
Há dois tipos: o mimetismo batesiano e o mimetismo milleriano. O primeiro é uma homenagem ao cientista inglês H.W.Bates (1825-1892), e o segundo ao naturalista Fritz Muller (1822-1887), que nasceu na Alemanha mas passou a maior parte de sua vida em Blumenau, Santa Catarina, onde morreu, e de onde se correspondia com seus colegas europeus, principalmente Charles Darwin.
 
O mimetismo batesiano é o do animal que não quer ser visto. Ele ilude o observador, confundindo-se com o ambiente onde está, como o camaleão que assume a cor do local; ou o linguado que se cobre com uma camada de areia no fundo do mar; ou ainda o bicho-pau, frágil inseto que se parece com um graveto. Foi também o caso do habitante do deserto.
 
Já o milleriano é o mimetismo do animal que quer parecer mais do que é. Trata-se de um exibicionista, que tenta impressionar e assustar o observador, como a borboleta que, de asas abertas, parece-se com uma coruja, o que afasta o passarinho que poderia comê-la; ou o sapo que infla seu papo, ficando muito maior do que de fato é, o que lhe dá um aspecto ameaçador.
 
As lições da natureza muitas vezes nos ajudam a entender as pessoas, pois há muitas, senão todas, que também fazem seus mimetismos. Enquanto algumas tentam não parecer o que realmente são, outras tentam parecer o que não podem ser. Tipos diferentes de mimetismo humano, que podem aparecer combinadas dependendo do personagem.
 
O mundo inteiro é mimético, inclusive o mundo do dia a dia, aquele em que vivemos sem grande preocupação, pois parece ser totalmente conhecido. A verdade é que estamos apenas acostumados a ele, então paramos de investir na qualidade de nossa observação e análise.
 
Quando isso acontece, passamos a ser enganados pelos sentidos. Num primeiro momento, só percebemos as aparências, e estas, com freqüência, nos enganam, e como…
 
A difícil tarefa de julgar
 
Uma das características do ser humano, é que ele está sempre emitindo julgamentos. Toda vez que conhecemos algo ou alguém , nos apressamos em criar um juízo, tentando avaliar suas qualidades, seus defeitos e, principalmente, suas intenções. Para tanto usamos a percepção, que é construída a partir de como “sentimos” as coisas e as pessoas.
 
O problema é que somos todos, sem exceção, maus juizes, pelo menos enquanto não juntamos todos, ou pelo menos quase todos os elementos que precisamos para concluir com mais qualidade o que pensamos e o que sentimos sobre as outras pessoas e sobre determinadas situações. E isso não é fácil, principalmente porque os julgamentos, quando precipitados, tentem a ser emocionais, relegando a razão a, segunda instância. E quando, ao contrário, tentamos ser racionais demais, também erramos, pois passamos a desconsiderar valores humanos importantíssimos na composição da pessoa integral.
 
Juntar todos os ingredientes que nos permitiriam um julgamento perfeito é quase impossível mesmo porque, como vimos, todos nós fazemos mimetismos para nos enquadrar em contextos sociais diferentes. Uma vez que sabemos que assim somos, recomenda-se a cautela. A impressão negativa causada pela aparência de uma pessoa simplória pode se desfazer quando lhe damos a oportunidade de falar. E se ela ainda por cima estiver desprovida de máscaras e disfarces e for mais natural, melhor será a apreciação.
 
Mas não se culpe, julgar pelas aparências é normal, a psicologia nos explica. A primeira análise que fazemos de uma pessoa ou de uma situação, é aquela que busca defender nossa integridade física, portanto é uma análise puramente instintiva. Nosso cérebro primitivo sempre grita “cuidado!” diante do desconhecido, principalmente se sua estética não for parecida com a nossa, ou com o padrão que apreciamos. A segunda análise será emocional, e apenas em terceira instância fazemos o exame racional. Por isso, dê sempre um tempo, antes de emitir um juízo de valor e tenha consciência de que eles nunca serão completamente fidedignos.
 
Imaginar o desconhecido
 
Santo Agostinho alertou para o fato de que estamos sempre tentando imaginar o desconhecido e o futuro. Coisas do tipo, como será a vida de um jovem daqui a dez anos? Ou qual será o progresso de uma relação que se inicia? Estas ou quaisquer outras situações semelhantes dependem de um julgamento nosso, e é justamente nesses momentos que corremos o risco de cometer uma grande injustiça. Dizia ele que nesses momentos temos que levar em consideração dois fatores: o cálculo e a esperança.
 
O cálculo seria o representante da lógica, pois considera as variáveis numéricas, avalia as probabilidades, considera a estatística e, pronto, diz como será o futuro, sem medo de errar. Já a esperança diz que, apesar de tudo isso estar certo, não podemos desconsiderar a probabilidade, ainda que pequena, de que o cálculo possa falhar. E, em nome dessa probabilidade, filha da esperança, devemos aumentar nossa cautela ao julgar.
 
Erros de cálculo
 
Há várias histórias que contam célebres erros de julgamento justamente porque as aparências enganam. Uma delas refere-se à invenção do jogo de xadrez, no século IV, pelo matemático persa Séssa, a pedido do rei, que se sentia entediado. A satisfação do rei com o novo jogo foi tão grande, que, para recompensar o inventor, mandou que ele lhe pedisse qualquer coisa.
 
– Majestade, respondeu Séssa, – ficarei satisfeito se me der um grão de trigo para a primeira casa do tabuleiro de xadrez, dois para a segunda casa, quatro para a terceira, e assim por diante, na mesma proporção, até a 64ª. casa do tabuleiro.
 
O rei considerou o pedido pequeno demais, quase insignificante, e ordenou que o mesmo fosse atendido. Esse foi seu julgamento apressado. Quando as contas foram feitas, verificou-se que o total a ser dado ao inventor seria de 18.446.744.073. 709.551.615 grãos! Supondo que o máximo contido em um metro cúbico fosse de 20 milhões de grãos, seriam necessários 922.337.205.685 m³ de trigo, o que, para ser plantado precisaria aproximadamente 8 vezes mais do que a superfície da Terra poderia produzir em um ano, se fosse integralmente semeada de trigo. Ninguém, por mais que soubesse que existe um cálculo chamado “progressão geométrica”, imaginaria esse número absurdo antes de examinar com cuidado a situação. E, como o rei não poderia atender ao pedido de Séssa, o premiou com um valor de moedas para viver bem até o final da sua vida.
 
Um julgamento precipitado pode provocar graves enganos. Seja pelo cálculo, seja pela esperança, ao analisarmos pessoas e novas situações, desafios e dificuldades, perigos e calmarias, fracassos e vitórias, acabamos chegando a conclusões que não necessariamente serão as melhores. Apesar disso temos que continuar a viver, o que inclui continuar a julgar. Parar de julgar não é o que se pede, e sim julgar menos e com menos preconceito.
 
E, para que possamos almejar uma aproximação ao mundo das formas, como queria Platão, mesmo sabendo da dificuldade de se chegar lá, só nos resta uma alternativa: aguçar nossos sentidos e aumentar nossa lucidez. Ser lúcido significa refletir a luz que se recolhe de fora, do mundo, do universo, do ser humano .
 
Como acontece com os diamantes. Aquele que brilha mais é o que foi mais bem lapidado, porque, na prática, o que ele faz é receber a luz do sol e devolvê-la para nossos olhos, e nós nos alegramos com a capacidade daquela pedrinha “brilhar”. Esquecemos que quem a ajuda a brilhar é o artista que a lapidou.
 
As pessoas também são assim, podem ser “lapidadas”, ou seja, educadas, aprimoradas em sua capacidade de se relacionar com o mundo, incluindo a clareza no trato com as aparências. Pessoas lúcidas julgam menos, e quando o fazem, não recorrem às aparências, pois sabem que estas são peritas na arte de enganar.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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