As sobremesas

Participo muito de ventos corporativos, que acontecem principalmente em hotéis, o que me transformou em profundo conhecedor dos chamados buffets, aquele tipo de almoço em que você mesmo se serve. O bom desse tipo de refeição é que é rápida, pois a comida já está servida quando você chega, e você tem a liberdade de escolher o que quiser, montando seu próprio prato.
Claro, já almocei em buffets espetaculares e outros bem básicos. Varia bastante a diversidade de escolhas e, principalmente, a qualidade, mas todos eles têm em comum a estrutura. O que estou querendo dizer é que um buffet é, tradicionalmente, dividido em três secções: a das saladas, a dos pratos quentes e a das sobremesas.
Em um workshop que participei, um pouco antes do almoço falávamos sobre os fatores motivacionais nas empresas. O que, afinal, motiva as pessoas a trabalharem com empenho, foco e comprometimento? Tentando simplificar, expliquei minha teoria:
– Em qualquer lugar e a qualquer momento, as pessoas são motivadas por duas grandes forças: suas necessidades e seus desejos. As necessidades visam evitar sofrimento, e os desejos têm como objetivo a obtenção do prazer. Assim somos. Queremos evitar sofrimentos e ter prazer na vida.
Eu estava, claro, tentando fazer uma conexão com o mundo do trabalho. Quem trabalha só pela necessidade do salário está apenas parcialmente motivado. É necessário que tenhamos prazer em fazer o que fazemos, e o prazer no trabalho vem da percepção de seu significado, do orgulho que ele nos causa e do bom ambiente humano no local onde trabalhamos. Antes que eu alongasse minha explicação, um dos participantes me interrompeu, meio aflito:
– Eugenio, por falar em necessidades, preciso te dizer que estou morrendo de fome.
– Boa lembrança – respondi – então vamos almoçar, mas, antes, quero fazer uma observação. Almoçar é uma necessidade, pois se não comermos vamos passar fome e sentir indisposição. Certo? Então estamos todos motivados para almoçar. Confere?
Todos concordaram com a observação, já se mexendo nas cadeiras, fechando suas pastas e animando-se com a interrupção. Mas eu continuei:
– Então vamos fazer assim: fisiologicamente, nós temos necessidade de comer a salada, pois ela nos dá vitaminas, sais minerais e ajuda a digestão com suas fibras. Também precisamos no prato quente, que nos fornece proteínas, carboidratos e gordura. Tudo na dose certa. Concordam?
– Concordamos – falou meio impaciente o mais afoito, ou mais faminto, de meus alunos – então vamos logo, professor.
– Calma, deixa eu terminar o raciocínio – torturei – Acontece que tem um terceiro balcão lá no restaurante. Nele há coisas que o corpo de vocês absolutamente não precisa. Estou falando do pudim de leite, da cocada mole, do quindim, do mousse de maracujá…
– Como é que é? Você está dizendo que a gente não precisa da sobremesa? Pois eu adoro doce. Chego a escolher o restaurante pela qualidade da sobremesa. Eu simplesmente pre-ci-so dela – argumentou uma executiva do grupo.
– Aí é que está, querida – disse eu – você, na verdade não precisa da sobremesa, seu corpo já está adequadamente nutrido, mas você vai comer assim mesmo. E sabe por que? Simplesmente porque você quer… não porque você precisa. Porque a sobremesa dá prazer, e o prazer nos estimula, nos dá alegria de viver. Só não exagere…
– É mesmo, professor. Pode ser que meu corpo não precise do doce, mas que é gostoso é – completou ela, e ainda arrematou o pensamento – a vida seria muito chata sem sobremesa.
 
O básico e o essencial
Marquei esta frase para sempre. “A vida seria muito chata sem sobremesa”. Verdade. Imagine fazer só o básico, sem os pequenos supérfluos tão importantes para nossa alegria.
Para que, afinal, serve a flor no vaso da sala? Para que os quadros na parede? Qual a utilidade da decoração da mesa no jantar de Natal, a almofada no sofá, o candelabro com a vela aromática, a gravata alegre completando o terno azul? Para que o colar no colo da mulher amada? Para que música, poesia, moda, arte, arquitetura, paisagismo?
São todos “sobremesas”. Sem essas coisas todas poderíamos continuar levantando para trabalhar, comendo na hora das refeições, abrigando-nos da chuva, descansando o corpo em uma cama. Poderíamos viver sem esses adendos da vida. Mas que seria chato, seria, não é mesmo? Acho que não estaríamos vivendo de verdade, apenas sobrevivendo. Imagine uma vida totalmente básica, em que apenas as necessidades essenciais são atendidas, sem espaço para o “algo mais”.
Alguém disse, por exemplo, que o futebol não é importante, mas que, entre as coisas não importantes, é a mais importante de todas. Pensando bem, a vida de um torcedor não vai mudar porque seu time perdeu, mas ele gostaria muito de tê-lo visto campeão. A segunda-feira fica bem mais divertida.
Precisamos, sim, dessas coisas não importantes que, ao final, compõem a sinfonia de nosso cotidiano, que não pode ser composta apenas de movimentos básicos. Também precisa dos dançantes, dos minuetos e dos scherzos, para dar alegria e leveza antes de chegar ao movimento final, conclusivo, épico. Nem nossos ouvidos dispensam a sobremesa.
Procura-se uma rosa é um filme de 1964 estrelado por Leonardo Vilar e Tereza Rachel. Conta a história de um casal de suburbanos do Rio de Janeiro. Ansioso por dar presentes para sua mulher, e com o dinheiro curtíssimo, o sujeito acaba se metendo em confusões ao se aproximar de bandidos, o que faz com que sua amada, a Rosa, se afaste dele e desapareça. O drama é grande, pois, entre outras coisas, ele acaba sendo acusado de tê-la matado. O final, entretanto, recupera a verdade e o amor entre eles.
Em uma cena ela o questiona sobre os presentes que ele lhe dá, perguntando para que tudo aquilo. Ele então diz algo como: “Para que presentes? Então podemos perguntar também para que flores, para que passarinhos, para que filhos. Precisamos disso para dar alegria às nossas vidas, e eu, para minha amada, quero tudo o que há de melhor no mundo”.
Mesmo assim ela o abandona, pois não concorda com sua conduta. Trata-se de um dilema moral. A trama joga com a ideia de que tudo tem limite, que não podemos extrapolar nossas possibilidades, que não vale a pena abrir mão dos valores para suprir os desejos. Verdade.
Mas também nos deixa refletindo sobre o papel fundamental de tudo o que enfeita nossa vida. O básico é essencial. O resto é básico. A vida, sem sobremesas, definitivamente, seria muito chata. Só convém não exagerar…
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br 

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