Assim não dá

Quem assistiu ao filme A Era do Gelo com certeza lembra do simpático esquilo, que é uma figura paralela à trama. Ele não participa da história central, tem seus próprios interesses (acumular avelãs) e nunca interage com os demais personagens. Entretanto, já na primeira cena, ele dá um espetacular exemplo de como a ação de um indivíduo pode repercutir na vida dos outros, por mais improvável que isso possa parecer a princípio. Ao tentar enterrar uma avelã, o esquilo provoca, no solo gelado, uma fissura que se alastra rapidamente. Ela sobe uma montanha dividindo-a ao meio. Então, termina por provocar o deslocamento de imensas massas de gelo, o que quase o esmaga e modifica totalmente a paisagem. A cena é cômica, emocionante e impressiona pela qualidade da animação (detalhe: foi dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha).
 
Não, caro leitor. Esse artigo não é sobre desenhos animados. É sobre a repercussão de nossos atos, a dimensão da responsabilidade dos que detêm o poder e sobre a indignação de quem vê destinos de pessoas, cuidadosamente planejados, serem atropelados pela interferência de outros. A cena do filme é apenas uma caricatura dessa realidade — uma ação com graves conseqüências.
 
Os recentes acontecimentos na aviação brasileira culminaram no acidente de Congonhas, e este tem sido, cansativamente, relatado como uma “tragédia anunciada”, parafraseando o título do livro de Gabriel García Márquez,Crônica de Uma Morte Anunciada. Na obra do genial colombiano, um jovem chamado Santiago Nasar é morto pelos irmãos de Ângela Vicário, sob pretexto de que ele a havia desonrado, o que era mentira da moça. O incógnito narrador da história anuncia que, se ela não fizer o desmentido, a tragédia se consumará, como de fato aconteceu. Ângela se omite, e Santiago morre.
 
Epíteto exagerado? Não, se atentarmos para o número de acontecimentos, denúncias e omissões que há tempos — pelo menos dez meses — anunciavam as causas que culminaram na tragédia do aeroporto de São Paulo. Os especialistas (de repente apareceram tantos!) insistem em dizer que um acidente desse tamanho nunca tem uma causa única. Que se trata da soma de vários fatores que, em conjunto, se potencializam e culminam em tragédia. É uma boa estratégia para pulverizar a responsabilidade, punir levemente algumas pessoas e aguardar que o tempo exerça sua função de esquecimento. Simples assim.
 
Mas vamos estudar mais fundo essa questão.Faça você mesmo, leitor, uma análise de alguma coisa que deu errado em sua vida. Tente listar todas as causas envolvidas, e eu garanto que você vai chegar à conclusão de que causas reais foram poucas, quando não apenas uma. Essa causa é chamada de causa determinante. Se houve outras, elas apenas permitiram que essa se manifestasse e, por isso, são chamadas de causas predisponentes. Só que, comumente, dá-se mais valor a essas, porque elas são muitas, em geral pequenas, e podem ser distribuídas entre vários protagonistas, desviando a atenção do foco central, do verdadeiro responsável.
 
Causas determinantes são grandes e fortes, mas são criadas lentamente, por isso às vezes não são percebidas. E em geral são compensadas, por algum tempo, pelo controle das causas predisponentes. Quando algumas dessas escapam do controle, a bomba explode.O que determina o infarto são a genética, o colesterol e a pressão alta; o que predispõe são o cigarro, o estresse e o sedentarismo. O que determina a falência de uma empresa são o passivo grande, o ativo pequeno e a impossibilidade matemática da reversão; o que predispõe são os erros de gestão, o desânimo e a perda de credibilidade. De pouco adianta parar de fumar sem controlar a pressão alta, assim como será desastrosa uma campanha publicitária para uma empresa em que o custo de produção é maior do que o de venda. De nada vai adiantar também culpar o médico pelo colapso do coração e o mercado pelo colapso da empresa.
 
O acidente no aeroporto de Congonhas tem muitas causas predisponentes — a chuva, a falta do grooving, o peso do avião, o reverso desativado, e tantas outras.Mas onde está a causa determinante? Provavelmente em algum espaço governado pela imprevisão, pela irresponsabilidade e pela falta de percepção de que qualquer ação terá uma repercussão futura e que, o que é muito pior, qualquer omissão também.
 
No final, o número de inocentes será maior do que o de culpados. E provavelmente isso estará certo, pois os inocentes não interferem nos fatos nem nos rumos. Quem poderia fazer isso são os poderosos, que costumam se esquecer que, sendo os inocentes impotentes, os poderosos deveriam ser poderosos porque são responsáveis. Bom vôo!
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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