Bancos e idéias

Duas pessoas entram no metrô por portas diferentes, cada uma à mesma distância do único banco disponível naquele vagão. Ambas estão cansadas após longo dia de trabalho e, cada qual, com o sapato apertado. São do mesmo sexo, têm a mesma idade, o mesmo porte físico e carregam a mesma quantidade de objetos. As duas são iguais, inclusive no sentimento de que está, cada uma, mais cansada que a outra sendo, portanto, mais merecedora do prêmio de sentar-se durante a viagem. Qual conseguirá sentar-se? Estamos presenciando um conflito?
 
Disputas por bancos de metrô não são comuns, pois fazer prevalecer o espaço para os glúteos não parece ser tão importante assim, logo haverá outro banco e logo a viagem terminará. No entanto, fazer prevalecer idéias, opiniões, parece ser mais significativo, mais grave, e muito, muito mais freqüente.
 
Choques de interesses são comumente chamados de conflitos. Duas pessoas que desejem ocupar o mesmo lugar, conflitam. Um banco no metrô foi feito para acomodar uma pessoa, não duas. Se só houver um disponível, a outra pessoa terá que ficar de pé, e isso pode originar um conflito. O lugar em questão é físico, mas poderia ser mental. Pessoas conflitam quando insistem em que sua opinião prevaleça, ou seja, ocupe o lugar de destaque, imponha-se, vença, instale-se e, dessa forma declare e represente a força de seu criador. Ocupar um espaço foi uma preocupação humana desde sempre. Faz parte de nossa natureza, pertence ao capítulo da sobrevivência e do desenvolvimento da espécie.
 
Mas há uma diferença fundamental entre bancos de metrô e idéias, e ela consiste no fato de que, ao contrário do banco, a idéia pode ser ampliada. Entre duas pessoas, cada uma com seu cansaço, só uma ocupará o único banco disponível. Entre duas pessoas, cada uma com sua idéia, as duas podem ocupar o lugar onde a idéia deve ser depositada, ou aplicada, pois idéia não ocupa lugar, ou melhor, do que isso, cria o próprio lugar para repousar.
 
Idéias não são traseiros cansados pela luta nem flácidos pelo tempo. Idéias são dádivas divinas, presentes da natureza, representação maior da qualidade humana. Só o Homem tem idéias. Lembramos Platão, que dizia que a perfeição mora no mundo das idéias, não no mundo dos sentidos. Até o amor, idéia mais sublime, só será perfeito nesse plano, por isso o ideal é o amor platônico, livre do ciúmes, da cobrança, da posse.
 
Idéias jamais são opostas, o que se opõe são personalidades. Idéias se complementam, se ampliam, se ajudam. Uma idéia sozinha definha, pois não tem a outra para procriar a ação. Uma idéia sozinha pensa que é unânime, mas é pobre, é solitária, é fraca, é estéril, pois não conseguiu fazer com que outra idéia aparecesse. Uma idéia precisa de outra e ambas precisam do diálogo, da disposição, do entendimento. Duas teses iguais não geram uma síntese, continuam sendo teses. Teses divergentes chamam, uma à outra, de antítese. Do diálogo entre ambas nasce a síntese, que também pode ser chamada de consenso, de conclusão final, de crescimento, evolução, harmonia…
 
O conflito não é mau. O que é má é a indisposição à sua resolução. O que é mau é o sectarismo antiquado, a intolerância burra, a certeza total. Bom é o diálogo, boa é a criatividade, que encerra nosso lado verdadeiramente divino, a capacidade de criar, ou de continuar a criação, especialmente quando aplicada à resolução dos problemas próprios da arte de nos manter vivos, e não só como corpos, que temos, mas como dignidades, que somos.
 
Conflitos de idéias só serão ruins enquanto as idéias continuarem a ser tratados como traseiros cansados e, se esse é o seu caso, amigo, prefiro que você pare de ter idéias. Sempre haverá um traseiro maior que o seu.
 
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