Batendo na mesma tecla

Tenho facilidade para despertar de manhã. Se o telefone toca e estou dormindo, abro os olhos e atendo sem que a pessoa note que acabou de me acordar. Foi o que aconteceu quando meu amigo Lino me ligou um pouco depois das 6 da manhã de um sábado.
 
– Alô.
 
– Preciso de sua ajuda. Desta vez, é sério. – disse, afobado, como se das outras vezes que me ligou pedindo ajuda também não fosse séria a encrenca em que se metera.
 
– Então comece do começo – disse eu – e fale devagar.
 
– Na verdade é pouca coisa. Nada que vá tirar seu sono por muito tempo.
 
Achei interessante o “por muito tempo”. Isso significava que no mínimo eu perderia o sono por algum tempo, como já havia acontecido antes. O Lino é um desses amigos que nós costumamos amar e detestar na mesma proporção, dependendo apenas do momento. Mas, afinal, amigos são para essas coisas, como diz o ditado. Não se é amigo de alguém apenas na festa, mas também na ressaca. Eu tinha que ter paciência com ele.
 
O Lino é um jovem que costuma ser alegre como uma criança, otimista como um adolescente e, às vezes, ranzinza como um velho. O que lhe falta são os traços da maturidade, coisas como responsabilidade, segurança, tranquilidade. O número de vezes que se meteu em enrascadas pelo simples fato de tomar atitudes impulsivas e impensadas provavelmente o candidataria ao livro Guinness na categoria “Trapalhadas”, se ela existisse.
 
Festeiro como ele só, certa vez se fez passar por amigo do namorado de uma aniversariante, filha de um rico empresário, só para entrar na festa e dançar com uma das convidadas, em quem estava interessado. O que ele não sabia, é que tal moça era irmã do tal namorado. Acabou sendo desmascarado e convidado a se retirar por um dos seguranças da festa, conforme nos contou depois. No dia seguinte, claro, me ligou pedindo que eu intercedesse em seu favor junto à família da moça – que eu conhecia –, para que o mal estar fosse interpretado como uma travessura inocente, e não como uma atitude cafajeste, própria de um mau caráter.
 
E Lino, de fato, não pode ser classificado como um mau caráter. É apenas uma pessoa com dificuldades na área do aprendizado e do amadurecimento. Costuma repetir erros com uma frequência bem acima do considerado normal e aceitável dentro de um processo de crescimento pessoal. Ela já está passando dos 40, é inteligente, competente, mas não para muito tempo em um emprego. A alegação costuma ser a mesma: Lino está em busca de novos desafios. Como é muito bom no que faz, acaba se colocando rapidamente, mas vai deixando para trás um currículo recheado de decepções. “Ele é muito bom, mas é inconstante”, dizem seus antigos empregadores.
 
Naquela manhã o assunto era mais sério do que ele estava tentando aparentar, e envolvia dinheiro.
 
– Preciso de um favor – disse. Fui numa festa que tinha uma mesa de jogo e você sabe como eu não resisto a um carteado. O jogo era a dinheiro, e eu comecei ganhando, mas me empolguei e acabei perdendo tudo. Agora preciso pagar e não tenho dinheiro suficiente para sacar no caixa eletrônico. Falta pouca coisa, mas preciso de sua ajuda. Depois a gente acerta tudo, OK? O que ele precisava não era muito, então concordei com o empréstimo, e prometi que faria a transferência imediatamente pelo bankline, desde que ele viesse tomar café em minha casa para que pudéssemos conversar. Ele agradeceu aliviado e concordou animado. Quando chegou, não tinha cabeça para conversar. Deitou em um sofá e dormiu até tarde.
 
Enquanto o observava, pensei: “Porque esse ‘cabeça dura’ fica repetindo esse comportamento autodestrutivo? Será que ele não aprende nada com cada burrada que comete?”.   
 
Também me perguntei se a tendência humana de repetir comportamentos, mesmo que eles tragam consequências pouco apreciadas, seria comum a todas as pessoas.
 
Eu não queria recriminar meu amigo. Eu queria que ele me explicasse – e a si mesmo – por que ele repetia tanto um modelo de comportamento que, visivelmente, o estava prejudicando.
 
No fundo eu sabia que eu mesmo estava agindo errado, pois ao ajudá-lo eu estava, ao mesmo tempo, acobertando sua tendência a repetir erros. Naquele momento lembrei-me de uma frase do psicólogo behaviorista John Watson, que ajudou a criar a controvertida corrente da psicologia que afirma que nossas atitudes são condicionadas mais pelas respostas que recebemos do mundo ao nosso redor e menos à qualidade de nosso pensamento.  “Quando ouço uma mãe dizer ‘Ai, coitadinha!’ quando a criança cai, ou dá uma topada no pé, ou quando lhe acontece alguma outra coisa ruim, costumo caminhar uma quadra para me acalmar”.
 
Segundo Watson, ao tentar amenizar a dor com o carinho, a mãe priva a criança de aprender com o próprio sofrimento, um aprendizado que colaboraria com seu estado de atenção – qualidade importante para não repetir o comportamento que lhe provocou a dor.
 
Na prática, e eu estava fazendo isso com o Lino. Para diminuir minha culpa eu o havia ajudado, mas intimado para ouvir um sermão. Será que adiantaria alguma coisa? E será que Lino é um caso isolado? Ou é apenas um caso extremo, e todos nós temos um pouco de repetidores de padrões comportamentais destrutivos?
 
Enquanto esperava que meu amigo acordasse para ter com ele “aquela conversa” fiquei me fazendo essas perguntas e buscado em mim mesmo sinais dessa síndrome. Para meu espanto, comecei a identificar, sim, em algumas atitudes minhas, as qualidades de um repetidor contumaz de comportamentos reprováveis.
 
Lembrei-me quantas vezes procrastinei coisas importantes, deixando para a última hora as providências necessárias. Pensei em quantas vezes usei o cartão de crédito por mero impulso, para comprar coisas que não precisava. Analisei aquela vez em que, ainda muito jovem, tinha terminado um namoro pernicioso só para começar outro absolutamente igual. Sim, atitudes repetidas geram padrões de comportamento. “Padrões…” – pensei eu, como uma cobaia de laboratório. “Sou humano” – aleguei em pensamento, para minha própria defesa. Mas não adiantou muito, pois já tinha passado de juiz a réu, tendo como acusador minha própria consciência.
 
A experiência pessoal é uma grande fonte de aprendizado. Por que então as pessoas parecem não aprender nada com o que fazem repetidamente?
 
Desde que Pavlov nos explicou a existência de reflexos condicionados, sabemos que qualquer ser vivo responde positivamente a impulsos agradáveis e procura afastar-se instantaneamente dos fenômenos que o fazem sofrer. Tentar entender por que repetimos comportamentos inconvenientes exige um esforça maior do que usar os princípios do comportamentalismo. Precisaríamos entender as diferenças de percepção e de valores entre as pessoas.
 
Lembro de um treinamento do qual participei, em que o instrutor fez um exercício curioso. Cada pessoa recebeu um determinado número de palitos de fósforo, e foi orientada a criar com eles, no chão, um quadrado grande que continha nove quadrados menores em seu interior. A seguir, o desafio: mexendo apenas três palitos, transformar essa figura em três quadrados.
 
Há uma lógica na solução dessa tarefa, mas o instrutor não queria que usássemos o pensamento, apenas a percepção dos sinais externos.
 
Eu tinha que tocar um palito qualquer e observar o que acontecia a meu redor. Se não acontecesse nada, é porque o palito estava errado. Quando tocava o palito certo, ouviam-se aplausos, indicando que o caminho era esse.
 
Resolver a charada dessa forma era muito mais fácil e rápido do que tentar entender a lógica da solução. Bastava ouvir. Mesmo assim, vários participantes daquele não conseguiam resolver. Tocavam várias vezes nos palitos errados, agindo de maneira aleatória e até um pouco desesperada. À medida que o tempo passava e o nervosismo aumentava, a possibilidade de resolver pela percepção diminuía.
 
O resultado que ficou daquele exercício foi a reflexão sobre a tendência que os humanos têm de não “ler” os “sinais do universo”, para usar as mesmas expressões do instrutor. Isso acontece porque tentamos encontrar a resposta, ou a explicação, no lugar errado. Às vezes, quando temos apenas que observar, ficamos tentando racionalizar. Outras vezes fazemos ao contrário. Por quê? Responda corretamente e você se candidatará a um prêmio da academia de psicologia. É claro que essa predisposição é bastante variável entre as pessoas, como ficou provado pela diferença de tempo de resposta entre todos os participantes. Mas que todos nós temos um delay entre o acontecimento e o aprendizado, não há dúvidas.
 
Então, muita calma nessa hora. Sem julgar ninguém, muito menos a si mesmo, o que de melhor podemos fazer é continuar na luta pelo aprendizado diário. E aprender com os erros é um caminho. Não o único, mas é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada.
 
O problema que resta (sempre há mais um) é discutir o que é certo ou errado. Meu amigo Lino, por exemplo, nunca se convenceu que ele cometia irresponsabilidades. Em sua opinião, estava apenas “curtindo a vida”.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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