Bendita frustração

Você já passou por uma situação em que alguma coisa que você queria muito não deu certo, e depois você chegou à conclusão que foi melhor que não tivesse dado? Tipo uma viagem com amigos que você acabou não indo porque ficou gripado e depois soube que foi a maior gelada, que choveu o tempo todo e que rolou o maior barraco no grupo? Ou aquele negócio em que você ia entrar de sócio, mas não conseguiu o capital, e que acabou falindo e deixando as pessoas em dificuldade? Ou ainda aquele amor que parecia ser para toda a vida, mas que acabou por uma briga boba, o que permitiu que você conhecesse outra pessoa, que te faz muito feliz até hoje? Eu já. Várias vezes.

O problema é que a gente só sabe que foi melhor não ter acontecido algum tempo depois que não aconteceu. Às vezes muito tempo. Na vigência da expectativa ou logo depois, rola um sentimento de frustração, que não é o melhor do mundo. Por definição, frustração é exatamente o estado psicológico decorrente de uma expectativa não atendida, e não dá pra dizer que é agradável.

Sentir-se frustrado é o mesmo que ficar triste pela não realização de alguma coisa, e também pela perda da confiança e da esperança ao mesmo tempo. Além da sensação, também desagradável, de injustiça. Afinal, não é justo que eu não tenha conseguido algo que eu queria tanto. Que decepção. E, o pior, acho que nunca mais vou conseguir. Estou condenado à tristeza e à infelicidade. Sinto-me impotente, fraco e solitário. Ó vida.

Mas o tempo passa, outras coisas acontecem, nos reposicionamos em nosso mundo emocional e seguimos em frente. E, com frequência, chegamos à conclusão que foi bom que não aconteceu aquilo senão não teria acontecido isto.

A Martha Medeiros tem um ótimo texto sobre isso, ao qual ela deu um titulo maravilhoso: A melhor coisa que não me aconteceu. Ela atribui o título ao ator inglês Clive Owen, que teria dito a frase quando não foi escolhido para o papel de James Bond, depois dado ao Daniel Craig. Sua versão é que se tivesse incorporado o agente secreto, teria ficado estigmatizado e perdido muitos outros papeis legais que acabou fazendo.

Martha aproveita para comentar uma sonhada viagem à Disney com família que acabou não acontecendo, e que virou uma viagem de ônibus para a Bahia, onde ela conheceu as melhores amigas que tem até hoje. Se tivesse ido à Disney, não as teria conhecido – “foi melhor não ter ido”. Só que a Martha não é ingênua. Ela sabe que isso pode parecer apenas uma desculpa para se sentir melhor. Então aproveita para comentar que essa atitude de dar um crédito positivo aos “não acontecimentos” significa ter o espírito aberto, minimizar o peso da palavra derrota e dar mais leveza à alma. O que não é o mesmo que forçar uma teoria pessoal e improvisada sobre o estado das uvas.

As uvas verdes

Esse tema tão humano, como tantos outros que povoam e assombram nossa alma, já interessou a vários estudiosos, principalmente da psicologia. Mas o primeiro a aborda-lo foi o grego Esopo, que viveu provavelmente em Atenas no século VI a.C.. Citado em obras de Platão e Aristóteles, Esopo foi o responsável pela criação de um estilo literário chamado fábula. Trata-se de pequenas histórias, fáceis de reproduzir oralmente, e cujos personagens são, em geral, animais que falam e que tem fortes características humanas, como a dúvida, o medo, a preguiça, e também seus opostos.

Não podendo usar exemplos humanos sem ofender alguém, Esopo partiu para o reino da bicharada, e criou uma inesgotável literatura, com cunho didático e forte apelo moral. Daí terem surgidos os tipos eternos, como a cigarra e a formiga, os ratos em assembleia, o leão e a cegonha e tantos outros. Seu estilo foi seguido por muito outros autores, como o francês La Fontaine, o inglês George Orwell e nosso Monteiro Lobato, que encantou a imaginação de tantas crianças, que perceberam o prazer e o valor de um livro, e viraram adultos leitores.

Entre as mais conhecidas fábulas de Esopo está a da raposa e as uvas. Tendo encontrado um saboroso cacho de uvas maduras pendurado no ramo de uma videira, a raposa, com fome, tratou de alcançar o manjar. Mas, apesar de seus melhores esforços, não conseguia saltar até o cacho, o que a levou a desistir da empreitada. Enquanto se afastava, disse, para quem quisesse ouvir, mas principalmente para si mesma: “Foi melhor assim, afinal, as uvas estavam verdes”.

O grego acertou em cheio. Costumamos desenhar o que não conseguimos, como meio de nos proteger, de criar um consolo, ainda que artificial e, dessa forma, sofrer menos com a frustração. As uvas não estavam verdes, mas é melhor se convencer que estavam, e partir para outra sem olhar para trás.

A psicologia chamaria essa atitude de mecanismo de defesa, uma reação absolutamente normal, que tem o objetivo de minimizar os fatos que estão colocando em perigo a integridade do ego. Esse mecanismo de defesa em particular chama-se racionalização, através do qual a pessoa procura encontrar razões lógicas para justificar o que faz ou o que não fez. Como acontece no nível inconsciente, a pessoa, ao final, não sabe se o que ela está pensando, ou dizendo, é verdadeiro ou não passa de um ilusionismo providencial.

Olhando de relance, pode parecer que tanto faz. Se foi melhor não ter acontecido o que eu queria, ótimo, se teria sido bom que acontecesse e eu estou negando o fato, pelo menos estou reduzindo meu sofrimento.

Visto por esse ângulo, parece lógico. Mas é melhor ajustar o foco. Será que não seria melhor reconhecer que você queria muito aquilo, e que seria ótimo que tivesse acontecido, e que não aconteceu por motivos que poderiam ter sido controlados antes? Será que essa atitude que, por mais que não esconda a dor e prolongue o sofrimento, não pode ser a mola propulsora que vai projetar o futuro através do preparo e da responsabilidade?

As uvas maduras

Felizmente a personalidade saudável elabora bem essas questões, absorve o choque e segue em frente. É impossível atravessar a vida sem experimentar frustrações, e é até bom que isso aconteça, pois esses choques psicológicos nos tornam mais fortes e desenvolvem uma condição fundamental para a vida produtiva, chamada resiliência.

Pediatras, professores e psicólogos infantis chegam a aconselhar aos pais que não satisfaçam todos os desejos de seus filhos pequenos, pois eles têm que aprender a conviver com a frustração como treinamento pra lidar com os fatos da vida. Sim, a vida é frustrante. Não nos dá tudo o que pedimos a ela. E, quer saber, é bom que não dê mesmo, pois às vezes não sabemos bem o que estamos pedindo, além de que muitas vezes desejamos algo que simplesmente não nos faria bem.

O duro é elaborar o pensamento para evitar injustiça com o fato em si, que não tem nada a ver com nossas escolhas. Insistindo no assunto: será que foi mesmo melhor que não tivesse acontecido ou sou eu que estou tentando me convencer que foi melhor assim? Talvez essa pergunta não faça sentido, pois, afinal, estamos falando de algo do passado, que é totalmente imutável. Mas talvez seja melhor tentar responder para evitar frustrações futuras. Está disposto? É que dói um pouco, por isso pergunto.

E sei que dói por experiência própria. Pensando bem, tenho o hábito de considerar como sorte um monte de coisas que não aconteceram em minha vida, e tantas outras que deixaram de acontecer depois de um tempo. Tive muitas perdas na vida. Mas acho que considero sorte porque depois acabei construindo uma vida que hoje me satisfaz plenamente, que me faz sentir inteiro, realizado, feliz. Não tenho porque me queixar, pondero. E olho para o passado com complacência e gratidão pelos “não acontecimentos”.

Mas, e se minha vida não tivesse tomado um rumo legal? Que sentimento eu estaria nutrindo sobre tudo aquilo que não aconteceu? Como seria minha relação com o passado? Não sei. Também é difícil ponderar sobre o que não aconteceu quando o que aconteceu foi tão bom assim.

Confesso que comecei a escrever este texto com a intenção de explorar apenas o que ele propõe na abertura: que foi bom que não tenha acontecido o que não aconteceu. Entretanto, enquanto escrevia, meu pensamento foi desviando um pouquinho, principalmente depois que lembrei do Esopo, do Freud, da Martha. Agora acho que foi melhor que não tivesse escrito exatamente como tinha pensado no início, só enaltecendo os “não acontecimentos” para diminuir possíveis frustrações do leitor. Meu texto inicial foi um “não texto”, veja só você.

E aproveito para propor uma releitura da historinha da raposa e suas uvas. Que tal criar uma versão em que a raposa, após saltar repetidas vezes sem sucesso, desiste, por hora? E, ao se afastar, pensa: “Já sei, vou voltar para a academia e caprichar nos exercícios pliométricos para as pernas. Assim vou conseguir saltar mais alto, e da próxima vez essas uvas maduras não me escapam”. Quem sabe você, dessa maneira, possa pensar sobre a melhor coisa que não lhe aconteceu… ainda.

  Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br

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