Bola para frente

Tem dias que a gente convive com uma sensação incomoda de que era melhor não ter levantado da cama. As horas custam a passar e ficamos com a impressão de tudo parou, pelo menos em nossa vida. Se fossemos poetas, como o Chico, diríamos algo como: “tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. A gente estancou de repente, ou foi o mundo então que cresceu…”.
Não importa o que você faça, qual seja sua profissão e seu grau de sucesso, você certamente já experimentou esse sentimento de que algo está errado e que, provavelmente, nada mais dará certo. Não há ninguém no mundo que já não tenha sentido o gosto do fracasso, da perda, da desesperança. Os motivos podem ser os mais diferentes, desde a perda do emprego, até o fim de um amor, ou mesmo a percepção de que um sonho antigo, tão querido e acalentado, provavelmente não se realizará.
Em grau maior, às vezes ficamos pasmos e mudos diante das notícias do jornal a respeito do que estão fazendo com nosso mundinho em todos os lugares. Desde o bairro aqui do lado, onde um crime passional aconteceu, até aqueles países onde o fundamentalismo mostra as (feias) caras.
Tem dias que parece que a nossa bola parou de rolar. Ou pior, parece que estamos quase fazendo um gol contra. Muito cuidado nessa hora. É melhor baixar a emoção por um instante, conter o ímpeto de fazer a primeira loucura que passa pela cabeça, e só então decidir e, claro, mandar a bola pra frente, que é para onde ela sempre deve estar indo, em direção ao seu destino.
Vamos ser honestos: este texto, apesar de ser uma prosa, parece que está tentando parecer poesia, não é mesmo? Apelando para emoção, citando uma frase musical e lembrando uma das expressões idiomáticas mais utilizadas em nosso país – bola pra frente! Pois é, mas apesar dessa aparência romântica, estamos tratando de um assunto tão sério quanto corriqueiro, afinal, a necessidade que temos de olhar para frente enfrentando a carga de forças contrárias, é muito grande.
Quando comecei a pensar neste tema, detive-me em uma auto-análise, tentando lembrar quantas vezes eu vivi essa situação de ter que engolir seco e continuar o jogo, apesar das circunstâncias. Conversando com amigos, recebi a mesma informação. Todos relatam coleções de momentos de retomada do jogo. Um chegou a me dizer: “eu nunca saí do jogo, mas parece que o estou começando quase todos os dias”.
Pensando bem, é isso mesmo o que fazemos o tempo todo: começamos o jogo de novo. Quem não tem a energia necessária para esse eterno começar fica de fora do jogo e, claro, perde. E haja energia…
 
Energia para continuar
De modo geral, todos sabem o que é energia, e que resultados ela produz. E sabem também que a energia pode se manifestar de diversas formas: térmica, mecânica, elétrica, nuclear, etc. Vale lembrar que existe uma lei explicando que a quantidade total de energia no Universo, que é um sistema fechado, nunca se altera, só se transforma de um tipo em outro, e isso acontece o tempo todo. E também vale lembrar que nós todos possuímos dentro de nós uma energia só humana, a “energia psíquica”.
O ser humano, de acordo com Jung (Carl G. Jung, 1875–1961), produz e depende desse tipo particular de energia para manter a própria vida. Jung apresentou esse conceito em seu livro Metamorfose e Símbolos da Libido, no qual chamou a energia psíquica também pelo nome de “libido”. Nisto foi diferente de Freud (Sigmund Freud, 1856–1939), que atribuía à libido uma significação exclusivamente sexual. No conceito junguiano, a libido, ou energia psíquica, tem um sentido mais amplo, ligado ao instinto permanente de viver, e se manifesta por tudo o que providencia a manutenção da vida, como a fome, a sede e a sexualidade, mas também o entusiasmo, o interesse, a vontade, a resiliência.
Resiliência? O que é isso? Mais uma vez a física: é a propriedade através da qual a energia armazenada em um corpo deformado por um choque, é devolvida quando cessa a tensão causadora da deformação. Em outras palavras, é a resistência de um corpo a um choque. A energia de um chute em uma bola a deforma – mas apenas por um instante, pois rapidamente essa energia é incorporada pela bola e transformada em deslocamento. Simples assim.
Mas é bom que lembremos de um detalhe pra lá de importante: a bola é resiliente porque tem uma tensão interna própria, que permite transformar a energia externa em movimento. Bola murcha não vai longe, pois se deforma e não recupera a forma original.
E o mesmo ocorre com as pessoas. Os choques que recebemos, e não são poucos, podem ser transformados em movimento, ou podem nos deformar e nos converter em uma massa amorfa e inerte, incapaz de reagir e de ir muito longe. A diferença entre essas duas possibilidades depende da calibragem interna, da energia psíquica, da libido, da presença de Eros, o deus da Vida, em contraposição a Tanatos, o deus da Morte. Bola cheia é redonda, firme, boa de pegar, erótica. Bola murcha é desagradável, repugnante, não responde, parece morta.
Para que possamos mandar a “bola pra frente” precisamos nós mesmos estar redondos, firmes, bons de pegar, eróticos. O oposto disso você já sabe…
Jung diz que todos os fenômenos psíquicos são de natureza energética, e vê a psique em incessante dinamismo. Correntes de energia cruzam-se continuadamente. Tensões diferentes, pólos opostos, correntes em que a energia progride em um sentido e regride no outro sentido promovendo movimentos constantes, aos quais podemos chamar de “vida interior”, responsáveis também pelo relacionamento com o mundo repleto de variáveis.
 
Nada se cria, tudo se transforma
Segundo Jung, a energia psíquica se comporta como a energia física em um sistema fechado, não pode ser perdida nem criada, apenas transformada. Diz: “nenhum valor psíquico pode desaparecer sem que seja substituído por outro”. Por isso mesmo, muito cuidado para canalizar adequadamente sua energia psíquica, pois quando a mesma escapa do controle pode provocar alguns estragos.
Jung relata o tratamento de um paciente que, quando foi abandonado por sua noiva, que o trocou por outro, teve, inicialmente, uma reação indignada, mas cheia de energia construtiva, de alguém que deseja ir à forra, dar a volta por cima e não se deixar abater por esse infortúnio. No entanto em lugar de fazer isso, ele deprimiu-se, abandonou a ideia de reagir e passou a apresentar sintomas físicos, com dores que não eram explicadas clinicamente. A energia foi canalizada para o corpo, e o castigou.
Perceba a importância da “bola pra frente”. A energia que estávamos dedicando a um projeto que terminou, ou fracassou, deve ser desviada para outro, sob pena de transformarmos essa energia em uma fonte destrutiva da autoestima e do próprio corpo. Os complexos nada mais são do que “nós” de energia. Auto-imagens que criamos a partir de momentos mal resolvidos, que não conseguimos superar e reagir aos choques externos. Baixa resiliência absorve a energia e não a devolve em forma de movimento. Interioriza e somatiza, transformando frustração em doença.
Não é incomum que a gente sinta essa sensação desagradável de não estar gostando do que está acontecendo, e nesses momentos olhamos pra frente e vemos uma espécie de encruzilhada que se abre em dois caminhos, ambos misteriosos, e sabemos que um deles, com certeza, vai nos levar a sair do estado deplorável em que nos colocamos, ou nos colocaram. O problema é encontrar força e sabedoria para escolher o caminho certo, pois ir para o lado errado é uma forte tendência. Você já percebeu como tem gente que teima em escolher o lado errado da encruzilhada, e vai por aí repetindo os erros e semeando lamúrias para colher compaixões?
O sábio persa Zaratustra disse, há muitos séculos, que há momentos na vida de um homem que não basta ser apenas um homem, precisa ser um super-homem. E isso significa que ele precisa encontrar forças para vencer seus inimigos, mas alerta que nossos piores inimigos não são os de fora, mas os de dentro de nós mesmos, os “inimigos internos”, e entre eles estão o medo, a ignorância e a indolência. Portanto, “bola pra frente” não significa chutar de qualquer maneira, obedecendo ao desespero, e sim organizar a energia interna e concentrá-la no ato de reagir e continuar a vida de maneira mais coerente com os resultados que desejamos alcançar.
 
Apenas uma palavra
Nosso povo é acolhedor e dado ao relacionamento humano fraterno. É cheio de tiradas e frases de efeito, que podem alegrar, indignar, ridicularizar ou entusiasmar. Abraçar um amigo que se encontra em um momento especialmente ruim e dizer-lhe simplesmente: “bola pra frente, meu caro, que a vida continua”, pode parecer um conjunto de palavras vazias, mas pode – e comumente o faz -, ter o efeito de mobilizar a energia psíquica da pessoa que, motivada pela decepção ou pela dor, estava retida e ameaçava transformar-se em energia destrutiva.
Em seu belo livro “O velho e o mar” Ernest Hemingway relata a história de Santiago, um velho pescador cubano, que trava contato com dois infernos. O primeiro inferno foi a ausência de sorte, que o levou a ficar oitenta e quatro dias sem pescar um peixe sequer. Diziam os outros pescadores que ele havia se transformado em um salao, que em sua linguagem significava um azarento da pior espécie.
Essa fase ruim levou Santiago a conhecer a penúria, e sua tristeza ficou maior quando perdeu seu auxiliar, um garoto que o ajudava e o admirava, e que se transferiu para um barco de melhores resultados. Mas Santiago não é homem de lamúrias, muito menos de desistências. Parte sozinho para alto mar, sentindo falta do garoto, mas acompanhado por uma forte certeza de que “hoje será um grande dia para a pesca de marlins”.
O segundo inferno ele conheceu após ter visitado o céu. Fisgou um peixe enorme, com o qual travou uma batalha de três dias. Conseguiu vencê-lo, trazê-lo até o pequeno barco, e amarrá-lo ao costado, pois dentro não cabia, uma vez que era maior que o próprio barco. Santiago era só contentamento.
Foi quando começou o novo martírio. Tubarões, atraídos pelo sangue do peixe morto, começaram a aparecer a arrancar-lhe pedaços. Santiago ainda conseguiu matar três e, em um momento gritou alto: “um homem pode ser destruído, jamais vencido”. Continuou a lutar com o que lhe restava de forças e de ferramentas. Todo em vão, pois os tubarões não paravam de chegar e, quando finalmente atingiu a praia estava arrastando um enorme esqueleto inútil.
A cena que segue é repleta de tristeza, mas é bela. Seu amigo, o garoto aprendiz, o procura, declarando sua preocupação com o desaparecimento do mestre por três dias, e lhe diz que vai voltar a pescar com ele, pois quer aprender mais. Santiago, desolado diz “não é mais possível, a sorte me abandonou por completo”. E o garoto retruca: “não se preocupe, eu levarei a sorte comigo”. Este argumento foi o suficiente.
A desesperança de Santiago durou apenas uma frase. Na seguinte ele já disse: “precisamos de uma nova lança. Podemos fazê-la com qualquer chapa de aço de um velho Ford”. E seguiu dizendo que ainda haveria pelo menos três dias de brisa forte, e que deveriam ser aproveitados. A sorte voltaria, trazida pela brisa da esperança. E foi como a vida deve ser; sempre pra frente…
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.