Carreira X Vida Pessoal

Quarta-feira à noite. Estou viajando a trabalho. Chego ao hotel e, enquanto desfaço a mala, ligo a televisão para ter alguma companhia. Vejo um rosto familiar, de um amigo, o Marcos Nascimento. Ele é um conhecido executivo de recursos humanos. Trabalhou para grandes empresas, morou no exterior, é fera no assunto. Mas, para minha surpresa, ele não está falando sobre gestão de pessoas ou liderança. Nem sequer está vestindo um elegante terno com gravata bem combinada. O Marcos usa um avental de cozinha e está atrás de um fogão, participando de um programa de culinária.
 
No primeiro momento, achei que se tratava de uma “pegadinha” da TV. Mas não. Ele preparava uma moqueca de peixe e mostrava ao apresentador do programa como colocar os ingredientes em camadas: “Primeiro o peixe, depois os camarões; fatias de tomate, cebola e pimentão e camarões miúdos. A ordem é importante, os sabores se encaixam, os produtos se complementam”, dizia ele. Fiquei impressionado como meu amigo estava transformando o preparo de um prato da culinária brasileira em uma metáfora da vida.
 
Assistindo ao programa, fui percebendo que aquilo não era um teatro ensaiado, uma peça que obedecia a um script e a um diretor de cena. Ele estava tão à vontade quanto nas reuniões profissionais em que eu já o havia visto atuar. Então concluí: meu amigo não estava dando aos telespectadores uma aula de culinária, mas um exemplo de como é possível ter sucesso profissional e também ser proprietário de uma vida pessoal bem cuidada, boa de viver. Enquanto cozinhava, entre dicas e macetes dignos de um chef, falava de seus valores, das experiências da vida, de seus sonhos e projetos. Em nenhum momento vangloriou-se de seus dotes ­ é um homem comum: faz o que qualquer um de nós é capaz de fazer, desde que estejamos munidos de vontade, disciplina e atitude.
 
Aí mora o perigo. Corremos o risco de desperdiçar os melhores momentos se não tivermos esses três ingredientes, tão importantes para a vida quanto o dendê é para a moqueca baiana.
 
Vontade de viver a vida em sua plenitude, de produzir, ganhar dinheiro e ter sucesso profissional. Mas também vontade de viver um amor, ter saúde, conviver com os filhos, possuir aquela cultura geral que nos torna pessoas interessantes. E justo essas conquistas da vida correm o risco de ficar apenas na vontade se não forem acompanhadas de disciplina e atitude. Obrigado pela dicas de como preparar um bom prato de vida, mestre Marcos.
 
Dualidades da vida
 
Tenho muitos mestres. Outro chama-se Rubens Portugal, mora em Curitiba e é um educador da velha guarda. Certa vez, conversando com ele a respeito do excesso de trabalho e do pouco tempo que eu estava dedicando à vida pessoal, especialmente à família, ele me disse, sorrindo, como costumava fazer:
 
– Em primeiro lugar, agradeça por ter trabalho e por ter uma família. Vivemos um tempo em que a maioria das pessoas não tem nenhum dos dois. E, em segundo lugar, aprenda o significado da palavra “dualidade”.
 
– Ok, você tem razão, estou grato pela plenitude de minha vida – respondi – e sei o significa “dualidade”. É o caráter oposto que os fatos adquirem.
 
– Negativo! – disse ele enfático. – Coisas opostas, antagônicas, inconciliáveis criam o “impasse”. A “dualidade” é feita de coisas complementares. A guerra e a paz formam um impasse. O dia e a noite, uma dualidade. Chegamos a um impasse quando esgotamos a capacidade de argumentar, de usar a lógica e de construir um consenso. Vivemos uma dualidade quando percebemos que a vida é feita de fatos e elementos que se encaixam, ocupando o centro da cena alternadamente.
 
Nessa altura eu já tinha endireitado a coluna, aberto bem os olhos e ligado todos os neurônios.
 
– Continue – pedi.
 
– Não há mistério nisso. Trata-se apenas de aguçar os sentidos e desenvolver uma disciplina capaz de lhe dar liberdade de participar de todos os atos da peça da vida sem se cansar. Você sabe que fui militar, diretor de banco, produtor rural, e que também me dediquei à educação, ao desenvolvimento de pessoas. Sempre trabalhei muito, chefiei uma missão na Palestina, criei uma universidade… Mas, veja bem, nunca deixei de curtir a vida, amar mulheres, educar filhos, cultivar amizades. Acredite, é perfeitamente possível viver a dualidade da vida e atender com a mesma qualidade os compromissos de trabalho e a vida pessoal, familiar, afetiva.
 
– Sim, eu sei, mas está mais difícil, pois o trabalho exige cada vez mais e as opções para a vida pessoal são cada vez maiores também. Como conciliar?
 
– Eu vou lhe dizer uma coisa de que talvez você não goste – disse ele, aproximando-se mais e olhando-me por trás dos pesados óculos. – Isto eu aprendi na vida militar: sem disciplina você não conseguirá nem administrar bem suas obrigações profissionais, quanto mais sua vida plena. O segredo, meu caro, é a disciplina, a organização, o método. Ser organizado não o torna chato nem careta. A organização lhe dá asas, liberdade, paz interior. Priorize, mas viva plenamente a dualidade da vida.
 
A carreira e a vida
 
O americano Jack Welch é um exemplo interessante. Foi presidente mundial da General Electric, uma das maiores empresas de todos os tempos. Quando se aposentou, virou escritor e consultor de empresas. Escreveu um livro chamado Paixão por Vencer, que se tornou obrigatório para os executivos pelo mundo afora, inclusive no Brasil. Seus escritos colaboram com quem deseja construir uma carreira vencedora, pois o autor é um homem experiente e de imensa legitimidade quando o assunto é “vencer nos negócios e na carreira”. Mas ele, revelando uma insuspeita honestidade, não deixa de alertar para o preço de tal sucesso.
 
O livro é cheio de dicas e orientações aos líderes, executivos e empresários, mas, curiosamente, contém um ponto que o próprio autor reconhece ser o menos consistente e conclusivo, aquele que versa sobre o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal. Jack transformou-se no executivo mais festejado do mundo, mas não goza da mesma popularidade entre aqueles que pertencem a sua vida pessoal. Relata que teve pouco contato com seus filhos, que foram criados praticamente por sua primeira esposa, Carolyn, de quem acabou se separando, pois se transformaram em estranhos um para o outro. Seu lazer era o golfe, esporte que ele aproveitava para fazer contatos e fechar negócios. Pois é, foi sua opção, e ele assume total responsabilidade por ela.
 
Entretanto, esta é a parte boa: ele reconhece a importância do equilíbrio trabalho/vida e sua influência sobre a produção. Considera que as pessoas que têm êxito no trabalho e na vida pessoal costumam ser mais felizes, e afirma que a felicidade é um coadjuvante dos bons resultados. Diz: “Seu chefe quer que você seja feliz, pois isso contribui para a vitória da empresa”. Ele não dá fórmulas, e chega a dizer que “tantas são as equações de equilíbrio vida/trabalho quantos são os habitantes do planeta”.
 
Jack atribui seu sucesso ao fato de sempre ter sido muito focado em sua carreira, à custa de sua vida pessoal, mas hoje, mais maduro, experiente e sábio, ele diz que não precisaria ser assim. Há um caminho do meio. Ser focado é, sim, importante para a carreira, mas, justamente por aceitarmos o poder do foco, é prudente um exame mais minucioso sobre o próprio.
 
O foco alienante
 
Um foco é um ponto de convergência. Focar significa concentrar atenção ou esforço em um único ponto, evitando a dispersão. Quando nossa atenção e nossa energia estão voltadas para o mesmo tema, dizemos que estamos focados, o que, no mundo do trabalho, é útil e apreciado. Pessoas “não focadas” costumam pagar por isso. Não estar focado é o mesmo que atirar para todos os lados e dispersar a energia necessária para realizar bem o trabalho.
 
Mas cuidado, há um engano comum a respeito do assunto. A questão não é ter só um foco de atenção para poder se concentrar nele, e sim ter vários e atender a todos, mas um de cada vez. Pessoas muito focadas no trabalho costumam descuidar da vida pessoal, o que não é necessário nem desejável. Não é necessário porque podemos ter mais de um foco, desde que tenhamos desenvolvido a habilidade de desligar um antes de ligar o outro ­ a disciplina mais uma vez. E não é desejável porque a concentração de energia durante muito tempo sobre o mesmo tema volta-se contra a pessoa ­ estresse à vista.
 
No filme O Último Samurai, o personagem de Tom Cruise, o militar ianque Nathan Algren, apanha sistematicamente de seus instrutores na arte de manejar a espada samurai, até que um deles lhe diz: “Você tem muita coisa na cabeça. Esvazie a mente. Foque no que está fazendo no momento”. A partir desse conselho, tudo começa a mudar, e o americano surpreende os japoneses com sua destreza. A principal lição que ele aprendeu não foi o manejo da espada, mas a importância de se colocar inteiro na tarefa. Além de aprender a lutar, ele ajudava a cuidar da horta, ensinava beisebol para as crianças e ainda arrumou tempo para conquistar uma linda dama, claro. Sempre colocando-se inteiro naquilo que fazia no momento. É uma lição que todos nós deveríamos aprender, mas temos dificuldade pela característica multifacetada do mundo pós-moderno, que nos oferece muitos focos de atenção simultaneamente.
 
Então vale a pena aprender um pouco mais com a filosofia oriental. O mestre hindu Paramahansa Yogananda afirma: “Uma das principais causas de fracasso no mundo é a falta de concentração. A atenção é como a luz de uma lanterna: quando seus raios são espalhados em uma área vasta, sua habilidade de focalizar um único objeto se torna fraca, mas, se focalizados em uma coisa de cada vez, se torna poderosa. Grandes homens são os de concentração: eles investem todo poder mental em uma coisa de cada vez”. Eu mesmo escrevi um livro com uma seleção de colunas publicadas em VIDA SIMPLES que tem como título Uma Coisa de Cada Vez (Editora Gente), e me orgulho dele.
 
Portanto, devemos focar, sim, mas sem esquecer que nossa inteligência é multifocal e respeitando o princípio de que “posso fazer muito, mas uma coisa de cada vez”.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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