Ciúmes

Caro leitor, você está autorizado a atirar a primeira pedra se nunca sentiu ciúme. Se nunca sofreu com essa angústia que parece um verme que se alimenta do sofrimento que provoca. E, por paradoxal que pareça, você não queria sentir ciúme, mas também não queria deixar de sentir. Qual é, então, o mistério desse sentimento que, depois do amor e do ódio, foi o que mais alimentou a literatura?
 
O clássico Otelo, por exemplo, alerta para o poder destrutivo do ciúme. Shakespeare, que entendia de pessoas, constrói, a partir deste, um cadinho onde todos os outros sentimentos se misturam. A inveja, a raiva, a vingança e o sofrimento estão juntos nos diálogos mais importantes, como este:
 
Iago: “Acautele-se, meu senhor, contra o ciúme. É ele o monstro de olhos verdes que zomba da carne com que se alimenta. Que minutos desgraçados passa aquele que adora, porém duvida, suspeita, porém ama com intensidade!”
Otelo: Oh, miséria!
 
Ao chamar o ciúme de “monstro de olhos verdes”, Shakespeare criou a imagem de algo monstruoso que também é belo – sentir ciúme é um sofrimento ligado ao privilégio de ter de quem sentir ciúme.
 
O personagem central, que dá nome ao livro, é um nobre a serviço do Estado de Veneza que é nomeado governador de Chipre. Como é mouro e, ainda por cima negro, desperta entre muitos um ciúme mortal, especialmente em seu alferes Iago. E, como se não bastasse, Otelo casa-se com a bela Desdêmona, filha do senador Brabâncio. É demais para o fraco e vingativo Iago, que passa a tramar contra seu chefe, fazendo-o sentir exatamente o que ele sentia: ciúme.
 
Iago arma para que Otelo pense que Desdêmona o trai com o belo tenente Cássio. O fim dessa trama é um dos mais dramáticos da obra do bardo inglês, rivalizando em tristeza de amor trágico apenas com Romeu e Julieta – Otelo asfixia Desdêmona e depois se apunhala.
 
Iago também é punido, mas é tarde, pois a tragédia já esta consumada. Aliás, essa é uma sina comum dos ciumentos. Punem-se a si mesmos, num impulso irracional que acusa e infelicita, mas, infelizmente, não fazem justiça, pois já é tarde, o mal já está feito e a relação comprometida.
 
Ciúme bom e mau
 
Mas há o outro lado da moeda (sempre há). O ciúme não é errado em sua essência, e sim em sua dose e em sua aplicação. Analisemos a origem da palavra: ciúme deriva do latim zelumen que é mais bem traduzido por zelo, atenção, cuidado. Portanto, sua aplicação é boa, útil e até necessária. O ciúme não é destrutivo quando demonstra o bem querer e cria a sensação de proteção. Mau é o ciúme que gera sentimento de posse, que asfixia, maltrata e destrói. Pode ser que o ciúme seja um bom tempero para o amor, como diz a poesia, desde que você acerte a quantidade (pitadas são suficientes), pois não há paladar que agüente tempero em excesso. O impulso de proteger aquele que amamos para não perde-lo é salutar e está presente em todas as pessoas. Os que erram a mão e batem de frente com a desgraça são os que vêm perigo onde não existe.
 
Alguns estudos justificam plenamente o ciúme. A etologia, que é a ciência que se dedica a estudar o comportamento e os hábitos dos animais, ensina que todos os animais, todos mesmo, são de alguma forma, ciumentos. Estão sempre “de olho” nos “concorrentes”, que podem estar cobiçando seu espaço, seu alimento ou seu parceiro. Desde os invertebrados mais simples até os vertebrados superiores, incluindo o homem – que não está “separado” da natureza como querem alguns –, possuem instintos que preservam suas vidas (ciúme do espaço e do alimento) e a sobrevivência de sua espécie (ciúme do parceiro). Se algum acontecimento novo colocar em risco esses valores de vida, será rapidamente percebido e a reação será imediata.
 
Por esse ângulo, concluímos que não é natural não ter ciúme. O cuidado com seu mundo pessoal é próprio de qualquer se vivente, para garantir a sobrevivência. Quando falamos de seres humanos, trilhamos as mesmas teorias, com algumas diferenças, é claro. A primeira delas é que os animais preocupam-se apenas com a sobrevivência física, sua e de sua espécie. Já os humanos também estão interessados em sua sobrevivência emocional. Esta é a novidade, e é aí que a porca (ôps) torce o rabo.
 
Então entra em ação a psicologia. Segundo Freud, todos temos reações psíquicas que exprimem nosso estado afetivo, e são dois os afetos básicos: amor e ódio. Quando postulou o complexo de Édipo, ele explicou a tensão e o conflito que existem entre esses dois afetos, permanentemente. Segundo ele, dirigimos à mesma pessoa, amor e ódio, ambos justificados por nossos instintos.
 
A sombra que assombra
 
Portanto, amamos amar uma pessoa porque o amor nos dá segurança, conforto, prazer. Mas odiamos amar porque amar gera comprometimento, limita movimentos, preocupa, dá trabalho. E o ciumento é o que mais odeia amar. “Ah, como seria boa minha vida se eu não tivesse que me preocupar se serei traído ou não!” – pensa ele. E assim pensando, sofre e faz sofrer. O ciumento de carteirinha ama e sofre em proporções não ditadas pela lógica, e sim pela emoção. É passional, fleumático. Já se disse que se fosse o racional Hamlet no lugar de Otelo, ele teria desmascarado Iago de cara. E se fosse o passional Otelo no lugar de Hamlet, teria traspassado Cláudio com sua espada antes mesmo do funeral de seu pai, o rei da Dinamarca.
 
Não, não é errado sentir ciúme. Só os insensíveis não sentem. O errado é transformar o ciúme em uma compulsão irracional, que é subproduto da desconfiança ou da baixa auto-estima. Olhando mais de perto, os teóricos dividiram em duas as origens do ciúme: causas externas e causas internas.
 
O ciúme de causa externa é o provocado pela pessoa que é o objeto do ciúme, ou por alguém que dela se aproxime de modo inconveniente. Se o comportamento de sua namorada, por exemplo, desperta cuidados, está na hora de “discutir a relação”. É claro que ninguém agüenta sua namorada, ou namorado, desrespeitando os limites do bom senso e abrindo espaço para que outro, ou outra, se sinta convidado a entrar em sua intimidade. Civilização pressupõe limites, sim. Relações civilizadas também.
 
Já o ciúme de causa interna é o que nasce da insegurança e da baixa auto-estima. É o ciúme do indivíduo que tem certeza da infidelidade da namorada apenas porque esta cumprimentou um ex-colega de classe, ou sorriu educadamente para um cavalheiro que lhe cedeu a vez na entrada do elevador. É o ciúme que estraga a lua de mel, que tira o prazer do final de semana na praia, que pode chegar à fronteira da patologia. O ciumento que tem medo de perder porque carrega uma insegurança inconsciente, com freqüência também tem ciúme de coisas, e não apenas de pessoas.
 
Mas o que vai diferenciar e definir o “grau de normalidade” do próprio é a motivação e a dose. Assim sendo, podemos inventar um “ciumômetro”: quanto maior o grau, mais o ciúme é destrutivo. Veja onde você se encaixa na tabela abaixo.
 
Ciumento tipo 1: Zela pela pessoa amada. Cuida de sua segurança e busca sua companhia, tratando de fazer com que ela também aprecie a sua, mas entende e aceita que ela tenha amigos e mantenha interesses anteriores à relação.
 
Ciumento tipo 2: Compreende que seu parceiro tenha sua própria vida, mas lhe oferece a opção de seu próprio círculo, diminuindo a superfície de contato com seu passado.
 
Ciumento tipo 3: Consegue manter uma aparência de compreensivo, mas deixa claro para seu parceiro que preferia não ter que compartilhá-lo com ninguém, muito menos com alguém que pertença a outro círculo de relações.
 
Ciumento tipo 4: Não tolera que o amado se relacione com ninguém além das pessoas que ele mantém sob seu controle direto. Desencadeia uma discussão sustentada por uma lógica própria, com pouco espaço para a argumentação e para outros pontos de vista.
 
Ciumento tipo 5: É o conhecido “armador de barracos”. Não suporta nem aceita qualquer tipo de conduta que não seja cem por cento ditada ou aprovada por ele. Considera um “bom dia” um assédio sexual. Precisa de ajuda urgente.
 
Na dose certa
 
Na língua portuguesa é comum que um substantivo vire adjetivo. O contrário é mais raro, mas pode acontecer. Machado de Assis, que era um mestre, inventou um nome próprio a partir do que era, até antão, uma qualidade de certas pessoas. Ser casmurro significa ser sorumbático, triste, ensimesmado. Daí Dom Casmurro, o personagem-título de seu romance publicado em 1900.
 
Dom Casmurro era assim chamado por ter exatamente esse estado de espírito. Quem o via passar, sempre cabisbaixo, como que maldizendo a própria sorte e sofrendo calado, dizia dele: “aí vai o casmurro”. Acrescentar o Dom foi uma questão de tempo. Seu verdadeiro nome era Bentinho, e se transformou em Casmurro por obra de quem? Do ciúme, ora!
Bentinho era um advogado criado com desvelo pela mãe, que fazia gosto que ele se dedicasse à vida religiosa. Mas ele se casa com a filha dos vizinhos, Capitu, com quem tem um filho, Ezequiel. É amigo muito próximo de Escobar que, por usa vez, é casado com Sancha, amiga de Capitu.
 
A trama se precipita depois do falecimento do amigo Escobar, porque, durante o velório, Bentinho estranha o excessivo sofrimento de Capitu denunciado pela maneira como ela contempla o falecido. Escobar morre e o ciúme nasce, se instala e cresce no espírito de Bantinho. E, para agravar, à medida que cresce, Ezequiel fica cada vez mais parecido com Escobar. Ó maldita dúvida!
 
Com o tempo, Bentinho transfigura-se e passa a ser apenas uma sombra do homem que fora um dia. A alegria se esvai, a relação com Capitu deteriora e, como conseqüência, vem a separação. Capitu se muda com Ezequiel para a Europa e Bentinho fica no Rio de Janeiro vivendo apenas com suas lembranças e com sua eterna dúvida. Transforma-se, então, em Dom Casmurro. O livro é escrito na primeira pessoa, como se o próprio Bentinho relatasse sua história, sem chegar, entretanto, a ter certeza da infidelidade de Capitu. Se ela traiu, ou não, Bentinho, é um dos segredos da literatura machadiana.
Pelo que se sabe, não há, em Dom Casmurro, nenhum, viés autobiográfico de Machado. Ele abordou o tema do ciúme por ser profundo conhecedor da alma humana. Diz-se dele que inaugurou a literatura psicológica, criando personagens que não são heróis e sim pessoas que têm defeitos e virtudes, conquistas e sofrimentos, como todos nós. E que, claro, sentem ciúmes.
 
Mas não se transforme em um Casmurro ou Otelo. Use o ciúme para demonstrar seu zelo e seu amor, e não para sua insegurança. Tempere moderadamente, na hora certa, senão a pressão sobe. Ame a pessoa que está ao seu lado, ame a si mesmo e ame a vida.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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