Cócegas no Sangue

Eu tinha um amigo que costumava dizer que estava com cócegas no sangue. Bobagem, né? Ninguém pode sentir cócegas no sangue, todo mundo sabe disso. Sentimos cócegas embaixo do braço, na sola dos pés, atrás do pescoço, quem sabe em outros lugares, mas não no sangue. Sujeito bobo, esse meu amigo.

Pois é. Só que esse meu amigo era médico. Será que ele sabia algo que eu desconhecia? Quem sabe foi descoberto um tipo de reação alérgica que provoca uma coceira no corpo inteiro porque, na verdade, era o sangue circulante que sentia cócegas? Nunca se sabe. A ciência faz revelações incríveis às vezes. Melhor ficar esperto, porque meu amigo, além de médico, era muito estudioso e bastante inteligente.

Então o sangue sente cócegas… Só que não! Negativo, concluo. O sangue, apesar de conter células de vários tipos e ser considerado um tecido, não tem algo que é necessário para se sentir cócegas: nervos. Sem inervação não é possível sentir dor, não há a sensação de frio ou calor e, muito menos, cócegas. E então, o que meu amigo queria dizer?

Acontece que ele não era só médico. Ele também era uma criança grande. Um daqueles sujeitos que você admira pela seriedade com que encaram seu trabalho, e ama pela leveza de sua alma. Um daqueles caras que são capazes de brincar com um problema só para deixar o ambiente mais leve e, dessa forma, encontrar a solução mais criativa. Meu amigo era dado a trocadilhos infames dos quais ele mesmo ria, e ríamos também porque era engraçado como ele ria de si mesmo. Era inteligente, meu amigo. Seu raciocínio ia tão longe às vezes, que eu fingia que entendia enquanto pensava na pergunta que faria para que ele esclarecesse sua teoria. Quando eu estava com ele, duas coisas eram certas: eu ia aprender algo e me divertir muito. Existem pessoas assim. Elas são raras, especiais e necessárias.

Certa vez, tínhamos um convite para um almoço na casa de outro amigo comum. Resolvemos que iríamos juntos. Só tinha um problema. Era no Rio e eu tinha recém feito uma cirurgia e recebido a orientação médica de não viajar de avião por 30 dias. Meu amigo se prontificou: iríamos de carro e ele seria o motorista. E lá fomos nós, com nossas mulheres, amigas também.

Apesar de ser médico psiquiatra, meu amigo era um apaixonado por educação, assim como eu. Aproveitamos, então, a viagem de carro para fazer algo simples: resolver todos os problemas da educação no Brasil. Simples assim… As ideias fluíam com uma facilidade pedagógica, e nós não entendíamos por que as autoridades não tomavam as devidas providências para implementar coisas óbvias, que começavam pela modernização na gestão da rede pública, pela valorização dos professores e, claro, pela participação ativa das famílias. Afinal, quem ama educa, insistia ele… E ele sentia cócegas no sangue quando falava essas coisas pelas quais era apaixonado.

Aliás, só sente cócegas no sangue quem é apaixonado. Essa é uma condição de poucos. Ser apaixonado significa viver com intensidade, pois cada coisa que você faz, se coloca inteiro, não mede esforços e não vê o tempo passar, está sempre inteiro e feliz. Sim, meu amigo era feliz. Por isso sentia cócegas no sangue.  Cócegas no sangue.

Não que não tivesse problemas. Claro que tinha, como todos nós. Talvez até mais que a maioria. Era filho de imigrantes japoneses e nasceu em uma pequena cidade do interior de São Paulo, de onde só se sai com muito esforço, e nunca sem um bocado de provações. Mas ele tinha um destino que só é reservado às pessoas que são inteligentes e têm bom humor. Ou seja, para aqueles que são capazes de sentir cócegas no sangue. E ele veio estudar na capital. E lutar judô, outra de suas paixões. E se impôs, porque tirava boas notas e dominava uma arte marcial. Impunha respeito, meu amigo, apesar de não ser daqueles sujeitos grandões, que mostram a força o tempo todo. Ele não precisava disso. Só mostrava a força que tinha quando ela era necessária. E sobrava força…

Ele se formou, se especializou, fez pesquisas, publicou artigos, escreveu 30 livros, foi escolhido para presidir uma associação internacional em sua área. Era fera. Quando foi para namorar e casar, o que fez? O que se espera de alguém que sente cócegas no sangue. Casou logo com a garota mais bonita, uma portuguesa de traços delicados e fortes ao mesmo tempo. Além de linda, a namorada dele era do tipo que não renega a luta, que tem sonhos grandes, que é companheira de verdade. Acho que ela também sente cócegas no sangue. Tiveram três filhos. Eles também são meus amigos.

Eu e a Lu, minha esposa, viemos do Sul e não temos família em São Paulo. Eles descobriram. Pronto, já tínhamos família. Já sabíamos onde passar o Natal, para quem ligar se precisássemos de uma orientação, uma ajuda. Família é para essas coisas, não é mesmo? Para estar por perto quando a gente precisa, mesmo que não possa ajudar. Para dar força, mostrar solidariedade. Foi o que aconteceu quando eu fui parar no hospital para operar um aneurisma. Ele ia me ver quase todos os dias. Na primeira visita eu senti que estava ali o médico. Na segunda, já era o amigo. Ele ficava no quarto jogando conversa fora, alcançando o papagaio, esvaziando meu xixi na privada. É isso que os amigos fazem.

Na ocasião falamos sobre a morte, que é algo que faz parte da vida. E concluímos que a morte nunca nos  alcançaria, pois, quando ela chegasse, nós iríamos embora. Rimos dessa, mesmo falando de algo triste. Claro que a morte é triste, para quem fica. É triste quando morre um homem bom. É mais triste quando se vai um jovem cheio de sonhos. É ainda pior quando parte uma criança com curiosidade no coração.

É por isso que eu fiquei tão triste, três vezes triste, quando meu amigo se foi. Porque ele tinha a cabeça de um homem, o coração de um jovem e o espírito de uma criança. É por isso que também sentíamos coceira no sangue quando estávamos com ele. E agora, o que será de nós sem sua presença? Mas o que teria sido de nós sem sua amizade?

Meu consolo é que seu legado está aqui, entre nós, e vamos procurar segui-lo. E também porque o céu ficou melhor. Quero acreditar que um dia nos veremos, Içami Tiba. Como você também dizia: “O Sol se foi, agora ficaram as estrelas”.

Eugenio Mussak já escreveu sobre muita gente, mas só faz isso quando admira muito a pessoa.
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