Como obter comprometimento

Não combina muito comigo, mas meu primeiro emprego foi em um banco. Eu era ainda um garoto, totalmente despreparado para a vida, principalmente para a vida bancária, organizada, metódica, exigente. Mas valeu, porque hoje, não tenho duvidas quanto ao poder pedagógico dessa experiência.
 
Tirei desse tempo vários aprendizados, inclusive o de que não era essa a vida que eu queria para mim. Um de meus mestres, naquela escola de disciplina, foi o senhor Edson, o contador, protótipo do “guarda-livros”, que era como se chamavam os contabilistas antigamente. Era quase totalmente calvo, usava óculos na ponta do nariz e costumava guardar um lápis acomodado sobre a orelha direita, mesmo sem nunca utiliza-lo. Não aprendi com ele contabilidade, mas fiquei sabendo o que significa comprometimento:
 
– Menino, você só vai fazer bem feito um trabalho se estiver comprometido com ele – disse-me certo dia, severo.
 
Na ocasião eu não avaliei a profundidade de seu conselho, mas é evidente que o ele queria dizer, é que eu não estava correspondendo à sua expectativa, que eu era inadequado para a função e que devia repensar minha opção de ser bancário. Sábio conselho. De fato, eu não estava comprometido porque não era o que eu realmente queria fazer.
 
Ao longo de minha vida voltei a me encontrar várias vezes com o tema do tal comprometimento. Uma ocasião muito mais grave foi quando recebi um fora de uma namorada que resumiu assim a causa do rompimento:
 
– Você simplesmente não está comprometido com o nosso namoro.
 
Será que ela disse isso só porque eu preferia, no domingo à tarde, ir ao futebol com meus amigos do que ir ao cinema com ela? Ou porque eu me atrasava para nossos encontros tendo, inclusive, esquecido de um deles por ter ficado lendo um livro novo? Suprema incompreensão…
 
Questão de dedicação
 
Os dois exemplos acima mostram situações em que eu não estava comprometido com a relação, seja de trabalho, seja de namoro, mas é claro que eu também coleciono passagens em que estive profundamente comprometido, tanto com atividades quanto com pessoas. E foram estas as ocasiões em que eu fiz coisas que deram certo e que valeram a pena.
 
Quando eu era garoto, o Paraná pegou fogo. Uma longa estiagem secou os campos e alguns pequenos focos de incêndio acabaram por se transformar em uma tragédia de grandes proporções. A fumaça e a fuligem chegavam até Curitiba, sujavam as ruas a faziam os olhos das pessoas ardere.
 
Eu estudava no Colégio Bom Jesus e fazia parte do grupo escoteiro. Um professor, que também era chefe escoteiro, convocou todos os jovens a fazer alguma coisa a respeito da tragédia de nosso Estado. Movidos pelo respeito que tínhamos pelo professor e pelo senso de responsabilidade que ele foi capaz de despertar em todos nós, fomos à luta.
Constituímos uma força-tarefa e saímos pela cidade conseguindo doações de roupas, remédios e mantimentos, e também criamos um albergue para as crianças que eram enviadas para a cidade pelos pais que permaneciam tentando salvar suas propriedades. O resultado impressionou até o governador, que mais tarde se referiu ao “espírito de comprometimento” daqueles jovens estudantes, com a causa da reconstrução das regiões atingidas pelo incêndio. Sinto orgulho daquilo.
 
Muitos anos depois, trabalhando como consultor de empresas, volto a me deparar com o fenômeno do comprometimento, pois, assim como aquele contador e o chefe escoteiro, os gestores modernos estão interessadíssimos em formar equipes com pessoas comprometidas. Então surge a pergunta de um milhão de reais: afinal, é possível entender o fenômeno do comprometimento, e providenciar que as pessoas se comprometam com uma causa, uma missão, um trabalho ou mesmo com uma relação?
 
Então vamos direto ao “segredo do mistério”. Ainda que haja variações, as pessoas costumam responder favoravelmente a alguns fatores de que determinam o comprometimento. Os principais são cinco: a admiração, o respeito, a confiança, a paixão e a intimidade.
 
Se existirem essas cinco condições básicas, o comprometimento será mera conseqüência. Se um casal com problemas de relacionamento procura um terapeuta especialista, verá que ele não questionará o comprometimento em si, e sim as cinco condições acima, pois se uma delas estiver deficiente, prejudicará o comprometimento que sustenta o casamento.
 
E essas condições, que sustentam a relação entre duas pessoas também garantem a boa relação das pessoas com a empresa onde trabalham, com uma instituição com que colaboram, com um grupo de amigos de final de semana, com a igreja que freqüentam, com o time para quem torcem, e assim por diante.
 
Uma análise cuidadosa nos remete a uma situação circular: uma relação só vale a pena se as partes estiverem verdadeiramente comprometidas com ela; e as pessoas só se comprometem com uma relação, se ela valer a pena.
 
A relação Eu – Tu
 
Com algumas variações, este tema já foi abordado antes por vários pensadores interessados na alma humana. Um deles foi o austríaco Martin Buber, que morreu em 1965, e deixou uma obra comumente chamada de “a filosofia do diálogo”. Segundo ele, as relações humanas acontecem baseadas em princípios que originam dois tipos básicos, que podem ser denominados relações do tipo Eu-Tu, ou do tipo Eu-Isso. No primeiro caso, há verdadeiro comprometimento entre as pessoas envolvidas, no caso, eu e tu. No segundo, a relação é impessoal, e não gera o comprometimento verdadeiro.
 
Buber não é um escritor conhecido do grande público. Nasceu em Viena em 1878 e foi criado pelo avô Solomon, um importante estudioso de hebraico. Martin escreveu mais de oitenta livros, especialmente sobre o hasidismo, um movimento judeu do século 18, e que é inspirado na cabala. Entre seus livros, o mais conhecido chama-se exatamente Eu e Tu. Apesar de ser quase restrito a meios acadêmicos, esse livro está relacionado entre os cem livros mais influentes de toda a história da literatura.
 
Ele alerta para o fato de que uma relação do tipo Eu-Tu corre o risco de virar Eu-Isso se não houver investimento sério em sua manutenção. E, nesse investimento, duas práticas são fundamentais: saber ouvir e saber receber. Como essas qualidades estão em baixa – o mais comum é saber falar e saber pedir – na sociedade contemporânea assistimos a um crescimento exponencial de relações do tipo Eu-Isso. Já em 1920 Buber alertava para o risco da falta de espaço para as relações Eu-Tu, provocado pela despreocupação crescente com a qualidade do diálogo.
 
Bem mais perto de nós, no tempo e no espaço, Vinicius de Moraes, escreveu seu “Soneto da Fidelidade”, e explicou o que é a essência da relação Eu-Tu, ou ainda, a essência do comprometimento: “Que não seja imortal, posto que é chama,Mas que seja infinito enquanto dure”
 
O poeta tocou no ponto certo. Comprometimento não é construir relações eternas, mas relações infinitas; e se a relação for infinita, então terá chance de ser eterna.
 
Os laços do comprometimento
 
A admiração. Sentimento gostoso de sentir e de provocar. Fundamental para qualquer tipo de relação, a admiração provoca o desejo de permanecer junto à pessoa admirada ou de engajar-se em uma tarefa cujo resultado se admira. Não conseguimos permanecer ao lado de alguém que não admiramos nem sermos eficientes trabalhando em uma empresa cujos valores não provocam em nós nenhuma admiração.
O respeito. Não há comprometimento sem respeito, e ele deve ser mútuo. Deriva da admiração, e dá o passo seguinte.
A confiança. Só confiamos em quem admiramos e respeitamos. E só nos comprometemos com alguém se confiamos nele.
A paixão. Esse sentimento surge com freqüência por alguém a quem admiramos, respeitamos e em quem confiamos. Fácil assim.
A intimidade. Sim, pois queremos ficar ao lado, convivendo e misturando nossa vida com a pessoa por quem estamos apaixonados. E também podemos nos apaixonar por causas, empresas e, claro, times de futebol.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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