Controlando o monstro

Tarde da noite, ao passar em frente à porta de um bar londrino já fechado, Richard presenciou uma cena de agressão de um homem baixo e grotesco contra uma garota que por ali passava. Reagindo rapidamente, conseguiu impedir que o pior acontecesse, imobilizou o agressor e, junto aos familiares da garota que acabaram por chegar, estava prestes a chamar a polícia, quando o homem fez uma proposta. Ele pagaria pelo dano causado à moça, se o deixassem ir embora, prometendo não mais aparecer por ali.
 
A família, precisando de dinheiro, concordou. O homem então assinou um cheque de uma quantia razoável, e foi libertado. Para surpresa de todos, depois verificaram que o cheque pertencia a um respeitável médico da cidade, e a surpresa maior foi descontar o cheque normalmente, atestando sua veracidade. Afinal, o agressor era o médico? A figura era totalmente diferente, mas o cheque foi aceito pelo banco. O que existe por trás desse mistério?
 
Esse relato consta do primeiro capítulo do livro “O médico e o monstro” (Strange Case of Doctor Jekyll and Mr. Hyde) do inglês Robert Louis Stevenson (1850-1894), cuja primeira publicação ocorreu em 1886, e se transformou em uma das obras primas da literatura inglesa. O doutor Henry Jekyll é um símbolo de probidade. Respeitado como profissional e como cidadão, representa o que há de melhor tanto na sociedade quanto no interior de uma pessoa. O senhor Edward Hyde é o seu oposto. Mau, perverso e imoral, representa o que de pior pode ser encontrado em termos de caráter. Só que eles são a mesma pessoa.
 
Na verdade, o Dr. Jekyll liberta o Mr. Hyde quando faz uso de uma poção desenvolvida em seu laboratório. A intenção clara do autor é propor uma reflexão sobre os conceitos de “bondade” e de “maldade”, considerando que ambos existem dentro de todos nós, embora tenhamos uma tendência a análises puramente maniqueístas, dividindo as pessoas em “boas” e “más”, conforme padrões sociais estabelecidos. No enredo do livro, torna-se claro que a natureza má e sádica do homem ganha uma posição de inevitabilidade e até de necessidade, na medida em que o Dr. Jekyll, após libertar seu lado mau, vê-se tentado a provar cada vez mais a sensação de ser Mr. Hyde, até que este passa a ser a personalidade dominante. Diz o Dr. Jekyll – “Aquele ali também era eu. Parecia-me natural e humano, mais claro e mais inteiro do que o semblante que eu até então estivera acostumado a chamar de meu”.
 
O livro de Stevenson é uma metáfora do homem. O próprio nome do monstro, Mr. Hyde, deriva da palavra inglesa hide que quer dizer escondido. Ou seja, todos temos um monstro escondido dentro de nós, e o que o impede de se manifestar é, provavelmente, um controle social. Essa é a questão central; devemos matar o monstro, ou apenas controlá-lo considerando que algumas de suas características podem ser úteis em um mundo em que a competitividade é a marca registrada?
 
Na vida diária, o monstro pode ser representado pela raiva, pelo ciúme, pela inveja, pela agressividade e pelo medo, principalmente. Serão estas qualidades necessariamente más, monstruosas? Devemos criar poções, modelos educacionais capazes de eliminar das pessoas seu lado Mr. Hyde? Toda a inteligência dedicada ao controle emocional das pessoas sinaliza para o equilíbrio. Uma pessoa sem agressividade nenhuma não será combativa, se não for ciumenta não cuidará do que é seu, se não tiver medo, será imprudente, e assim por diante. O segredo está na dose.
 
Os chamados “sentimentos negativos” são tão humanos quanto os demais. Eliminação não é uma política adequada, controle sim. E este vem da educação, da percepção dos valores sociais, morais e éticos. E não pode ser exercida de fora, pois será coerção, mas de dentro, quando então se chama consciência. É impossível matar Mr. Hyde, mas é possível controlá-lo, e a isso nos dedicamos, quando educamos a nós mesmos, processo que não deve parar nunca; e quando a sociedade educa seus integrantes, o que é próprio da civilização.
 
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