Crises existenciais

– Sabina, você melhorou, está curada. Pode voltar para casa e retomar sua vida normal, não tem por que continuar internada neste hospital.
 
– Não posso, doutor, não vou conseguir viver sem seus cuidados, sem as orientações que você me dá e que me deixam tão segura.
 
– Você não precisa mais de mim, acredite, está curada. Só está com medo de enfrentar sua nova vida. Está vivendo a crise de passar de um mundo conhecido para outro que, quando imaginado, parece assustador. Depois você verá que foi apenas a fase de transição que lhe causou a insegurança e a sensação de abandono.
 
– Você não entende, Carl, eu… estou totalmente apaixonada por você.
 
Uau! Estamos diante de um caso clínico ou de uma história de amor? Ambos. A jovem russa Sabina Spielrein tinha uma relação muito difícil com seu pai, e apresentava episódios freqüentes de histeria. Acabou sendo internada em um hospital psiquiátrico em Zurique – o que a deixou ainda mais desesperada, pois agora, longe de casa, sentia-se totalmente insegura. O diretor designou, para cuidar dela, um médico jovem chamado Carl Gustav Jung, que estava experimentando uma terapia nova, ainda duvidosa, criada por um tal doutor Freud, e que se baseava em muita conversa e em interpretação de sonhos. A terapia funcionou e a paciente melhorou. Ela venceu a doença, mas surgiu um efeito colateral: ela criou uma enorme dependência afetiva pelo médico. O diálogo do início é imaginado, mas a história é real e pertence aos primórdios da psicanálise. Jung corresponde à paixão da paciente e vive com ela um tórrido romance – na época, a relação médico-paciente ainda não estava bem estruturada.
 
O apimentado episódio aparece no filme Jornada da Alma, uma versão romanceada das transformações que os tratamentos das doenças mentais sofreram no início do século passado e das vidas de alguns de seus principais protagonistas. O filme transformou-se em um exemplo de como as pessoas têm dificuldade de abandonar uma fase da vida e ingressar em outra, ainda que esta seja, aparentemente, melhor.
 
Como a vida de todos nós é formada por vários períodos de mudança e transformação, não temos como fugir das crises, que são naturais. Mas podemos aprender a lidar com elas. Isso exige amadurecimento das emoções e controle dos pensamentos, o que, acredite, leva tempo e provoca algum sofrimento. Existem algumas estratégias. A jovem Sabina, por exemplo, depois mergulhou de cabeça no mundo do autoconhecimento, estudou medicina e acabou por se transformar, ela mesma, em psicanalista. Levou os conceitos científicos ainda incipientes para sua Rússia natal e fundou uma instituição chamada Creche Branca para ajudar crianças com problemas psicológicos. Infelizmente, ela acabou sendo morta ainda jovem pelos nazistas.
 
Os ciclos da vida
 
Ciclo é um fenômeno evolutivo, em que vários acontecimentos se sucedem em uma ordem determinada. A natureza é cheia de ciclos. Há o ciclo da água, do oxigênio, do carbono, do nitrogênio etc., e nós participamos deles comendo, excretando, respirando e também nascendo e morrendo.
 
Sim, somos ciclos ambulantes, e não só na biologia; na psicologia também. Só que nesse setor a complexidade é maior. Temos várias fases na vida que, na verdade, são ciclos em si. Têm começo, meio e fim, precisam ser abertos pelos motivos certos e fechados quando se esgotam verdadeiramente. Caso contrário, deixam marcas psicológicas que teimam em continuar doendo.
 
Os ciclos psicossociais são abertos pela idade (infância, adolescência, maturidade), pelas relações (namoros, casamento, família) e pelas atividades (escola, vestibular, empregos). E nunca passamos de um desses ciclos para o seguinte impunemente, sempre é traumático, cada vez é uma crise. Haja fôlego. Entretanto, se por um lado não temos como fugir dessas crises existenciais, por outro aprendemos com elas – e por isso amadurecemos e evoluímos. Na evolução natural das coisas, uma crise é um momento ou fase difícil em que fatos, idéias, status ou situações são questionados e levados a mudar. Crise significa ruptura, perda de equilíbrio.
 
Se por um lado as crises são vistas como momentos perigosos e decisivos, por outro são identificadas como oportunidades de crescimento, de transformação para melhor. Só que, para isso, é necessário um certo grau de amadurecimento, coisa que, nas primeiras crises da vida, nós não temos, óbvio. Leva-se tempo para virar um “gestor de crises”. Você já havia notado?
 
Voltando a falar dos ciclos, temos que lembrar que, por definição, eles se completam em si mesmos. Um ciclo só se resolve quando se fecha. Quando isso não acontece, levamos resquícios mal resolvidos para o novo ciclo que já está se abrindo ­ e que acaba sendo prejudicado pela não-resolução do ciclo anterior. Por exemplo, quando alguém termina uma relação amorosa sem fechar o ciclo, ou seja, sem, de fato, ter chegado ao final dela, tem dificuldade de engrenar a próxima relação. No final dá certo, mas leva mais tempo. Honestamente, quem já não passou por isso? E fechar ciclos não é assim tão fácil – exatamente por pressupor algo desconhecido, o início de um novo tempo, com coisas novas, excitantes, mas perigosas.
 
É de praxe dividir a vida de uma pessoa em quatro fases: infância, adolescência, maturidade e velhice. Mas, no mundo moderno, cada uma dessas quatro fases apresenta-se dividida em um número variável de subfases, a tal ponto de algumas delas já serem consideradas novas etapas.
 
Entre a adolescência e a maturidade atualmente colocamos mais uma, bem definida, que, curiosamente, é chamada de fase dos Anos de Odisséia (nome proposto pelos psicólogos). É que é justamente nessa idade que o jovem enfrenta sua primeira crise existencial diante do imenso conjunto de oportunidades que estão à disposição de sua vida – uma verdadeira odisséia. Escolhas são difíceis porque pressupõem renúncias. Quando escolhemos uma profissão, por exemplo, abrimos mão de todas as outras – ou pelo menos é o que o jovem-dono-do-futuro acredita. A escolha de uma carreira transforma-se em uma espécie de condenação. É como se a pesada mão do destino apontasse para ele um dedo acusador e dissesse, com voz cavernosa: “Você está condenado a ser engenheiro pelo resto de sua vida”. Pobre garoto, que olha maravilhado para o imenso cardápio que a vida lhe estende com uma mão generosa e ouve transtornado a voz egoísta que diz que ele tem que decidir já seu futuro. Crise!
 
E entre a maturidade e a velhice acabamos de colocar mais uma fase, chamada de envelhescência (nome proposto pelo escritor Mário Prata). É a adolescência do adulto, que não quer ficar velho. E ele pode deter-se, por algum tempo, nesse intervalo, em que ele poderia ser chamado de velho, mas não se comporta como tal. Já passou dos 60, mas continua produtivo como nunca, sua saúde está sob controle e ele ainda está fazendo planos. Só que, assim como o adolescente, ele tem dúvidas sobre o futuro. O adolescente não é mais uma criança, mas ainda não é um adulto, apesar de achar que já é. O envelhescente ainda não é um velho, mas também já não é simplesmente um adulto, apesar de achar que ainda é. Crises!
 
Então console-se, caro leitor, você não está sozinho nessa floresta de crises que cresce no terreno fértil da incerteza humana; estamos todos condenados a enfrentar crises existenciais na medida em que amadurecemos e vamos experimentando as várias fases da vida. Sofremos? Sim. E isso é ruim? Longe disso! Acompanhe o próximo capítulo.
 
O valor da crise
 
O americano Jack Welch é um exemplo interessante. Foi presidente mundial da General Electric, uma das maiores empresas de todos os tempos. Quando se aposentou, virou escritor e consultor de empresas. Escreveu um livro chamado Paixão por Vencer, que se tornou obrigatório para os executivos pelo mundo afora, inclusive no Brasil. Seus escritos colaboram com quem deseja construir uma carreira vencedora, pois o autor é um homem experiente e de imensa legitimidade quando o assunto é “vencer nos negócios e na carreira”. Mas ele, revelando uma insuspeita honestidade, não deixa de alertar para o preço de tal sucesso.
 
O livro é cheio de dicas e orientações aos líderes, executivos e empresários, mas, curiosamente, contém um ponto que o próprio autor reconhece ser o menos consistente e conclusivo, aquele que versa sobre o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal. Jack transformou-se no executivo mais festejado do mundo, mas não goza da mesma popularidade entre aqueles que pertencem a sua vida pessoal. Relata que teve pouco contato com seus filhos, que foram criados praticamente por sua primeira esposa, Carolyn, de quem acabou se separando, pois se transformaram em estranhos um para o outro. Seu lazer era o golfe, esporte que ele aproveitava para fazer contatos e fechar negócios. Pois é, foi sua opção, e ele assume total responsabilidade por ela.
 
Entretanto, esta é a parte boa: ele reconhece a importância do equilíbrio trabalho/vida e sua influência sobre a produção. Considera que as pessoas que têm êxito no trabalho e na vida pessoal costumam ser mais felizes, e afirma que a felicidade é um coadjuvante dos bons resultados. Diz: “Seu chefe quer que você seja feliz, pois isso contribui para a vitória da empresa”. Ele não dá fórmulas, e chega a dizer que “tantas são as equações de equilíbrio vida/trabalho quantos são os habitantes do planeta”.
 
Jack atribui seu sucesso ao fato de sempre ter sido muito focado em sua carreira, à custa de sua vida pessoal, mas hoje, mais maduro, experiente e sábio, ele diz que não precisaria ser assim. Há um caminho do meio. Ser focado é, sim, importante para a carreira, mas, justamente por aceitarmos o poder do foco, é prudente um exame mais minucioso sobre o próprio.
 
O foco alienante
– Você vai entrar em crise; é inevitável, disse o professor a seu aluno atento e amedrontado diante das circunstâncias da vida.
 
– Mas eu não posso tomar providências para evitar a crise?, perguntou o jovem com o coração acelerado.
 
– Não, o que você pode fazer é antecipá-la, nunca evitá-la. Se você não tiver disposição para enfrentar as crises, estará condenado a não se desenvolver e evoluir. A crise tira as pessoas da zona de conforto, desperta a criatividade. Se você não provocar a crise, ela virá de qualquer maneira. E pode ser que você, então, não esteja preparado para enfrentá-la e aproveitar seu potencial de estímulo ao crescimento.
 
O jovem saiu da visita de aconselhamento com seu professor mais confuso do que estava antes. Ele pretendia viver driblando as crises da vida a partir de medidas preventivas, e acabara de receber uma ducha de água fria de seu mestre, que insistia no valor e na importância das crises, chegando ao limite de dizer que, se você está em calmaria, deve provocar uma crise, exatamente para poder mantê-la sob controle. Segundo o mestre, a crise é protagonista da evolução da pessoa e da sociedade.
 
O diálogo acima foi adaptado de uma história real, protagonizada por um executivo que eu conheço, durante seu curso universitário. Detalhe: a disciplina do professor em questão não era psicologia nem filosofia – era economia. Segundo os economistas, qualquer agrupamento econômico, como uma empresa, por exemplo, só prospera se fechar seus ciclos de crescimento, que são formados por quatro etapas: expansão, recessão, depressão e recuperação.
A recuperação, entretanto, só ocorre porque na depressão a empresa – e as pessoas que a compõem, é claro – entram em crise e se tornam mais criativas e produtivas. Há empresas, entretanto, que usam a crise para procurar culpados e não soluções. Quando tentam evitar a crise, estão fazendo de conta que ela não existe, até que não dá mais para não vê-la: o bode entrou na sala. Estas vão fechar as portas mais cedo. Já as empresas espertas aproveitam a crise para criar uma nova fase, mais produtiva. Pois na vida das pessoas é a mesma coisa. Se você não entra em crise vai se acostumando com a situação, mesmo que ela não seja favorável.
 
Há uma experiência curiosa realizada com sapos: se você jogar um na água quente, ele certamente pulará fora. O sapo percebe que o ambiente é hostil e provoca sofrimento. Mas se você o colocar na água fria e for esquentando devagar, ele não sentirá a mudança de temperatura. Quando menos espera, o sapo morre cozido. Ele não reage à mudança porque não a percebe. Não entra em crise, entra em marasmo.
 
É o que acontece conosco. Somos salvos pela crise porque reagimos a ela. Caso contrário, vamos morrer lentamente, sendo enganados pelo calorzinho do conforto proporcionado pela estabilidade e pela conformidade.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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