Dançar e dançar

Está no Aurélio. Dançar significa “executar movimentos corporais de maneira ritmada ao som de música, girar, rodar, bailar”, mas também quer dizer “sair-se mal, não alcançar o que esperava”. De onde vem uma definição tão diferente da original?
 
Tendo a cigarra, em cantigas,
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema,
Na tormentosa estação.
 
Etologia é a ciência que estuda o comportamento dos animais. Tem uma aplicação óbvia dentro da Biologia, de quem pode ser considerada um capítulo, mas também tem a atenção da Psicologia, pois a observação de reações dos animais, a determinadas mudanças ambientais, especialmente em grupo, nos ajudam a compreender o comportamento das pessoas.
 
Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.
 
Apesar de ter sido consagrada como ciência apenas na década de 1970, a observação do comportamento do mundo animal sempre animou a inteligência humana. O melhor exemplo vem do francês Jean de La Fontaine, que viveu entre 1621 e 1695, e deixou vasta obra, entre contos, poemas e pensamentos.
 
– Amiga, disse a cigarra.
Prometo, à fé de animal,
Pagar-vos, antes de agosto
Os juros e o principal.
 
No prefácio de sua primeira coletânea, La Fontaine escreveu: “sirvo-me dos animais para instruir os homens”.
 
A formiga nunca empresta,
Nunca dá; por isso, junta.
– No verão, em que lidavas?
À pedinte, ela pergunta.
 
“Uma moral nua provoca tédio. O conto faz passar o conceito com ele. É uma espécie de fingimento, mas é preciso agradar para instruir. Contar apenas por contar, não me parece uma boa prática” diz La Fontaine, com muita lucidez.
 
Responde a outra: – Eu cantava
Noite e dia, a toda hora.
– Oh! Bravo! – torna a formiga.
Cantava? Pois então dança agora!
 
Sem dúvida, a cigarra “dançou”, desta vez dentro do segundo conceito de dançar. Já o compositor Braguinha dá uma nova versão para o final dessa estória, e termina com a formiga rendendo-se à capacidade da cigarra de curtir a vida: “Eu acho que tem razão, / minha cigarra querida. / Vivo juntando mil coisas / e desperdiçando a vida”.
 
Parece que saber dançar é uma arte, e saber “não dançar” também. Que tal aprender as duas? Aproveite as lições da vida, e divirta-se!
 
Texto publicado sob licença da revista Vencer.
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