Dedução ou indução?

A ciência, como se sabe, é responsável por apresentar soluções para os problemas que costumam infelicitar o homem. Quem aceita a realidade como ela parece ser, e não tenta fazer nada para mudá-la, por pior que pareça, é um determinista, ou seja, acredita que nosso destino está pré-determinado, e pronto, não há nada que possamos fazer, a não ser nos conformar com nossa sorte ou azar.
 
Os primeiros pensamentos científicos surgiram nos séculos XVI e XVII, através de obras como as do astrônomo Galileu Galilei, do médico William Harvey e do multimídia Leonardo da Vinci. Depois veio o francês René Descartes, que começou a aplicar conceitos da matemática ao entendimento filosófico, plantando, dessa forma, os alicerces do Racionalismo e da Metodologia Científica.
 
Descartes afirmava que a única maneira da fazer ciência é “duvidar de tudo”. Escreveu o livro Discurso do Método, publicado em 1637, criando o método cartesiano, que tinha quatro princípios:
 
a) aceitar como verdadeiro só o que está claro;
b) dividir cada problema em partes menores;
c) ligar o conhecimento da cada parte ao todo e
d) levar em conta cada possibilidade de erro, por menor que seja.
 
Pense um pouco. Se você aplicar essa filosofia à sua vida pessoal ou profissional, estará utilizando metodologia científica para resolver problemas não científicos. E isso é errado? Claro que não. Além de resolver problemas intrincados, a ciência serve para nos fazer pensar. Portanto, ciência não é só para cientistas.
 
A ciência existe para perguntar e para responder, e o faz através do método, que usa a chamada indução. Enquanto a dedução é a base da lógica clássica, a indução é a base da ciência. E podemos utilizá-la em nossa vida prática. Passamos a vida tentando “deduzir”, quando podíamos também “induzir”.
 
De origem latina, deduzir significa “levar”, e induzir significa “trazer”. O método dedutivo parte do geral para o particular e o indutivo, do particular para o universal. Quando deduzimos algo, partimos de premissas já conhecidas, portanto chegamos a verdades praticamente inquestionáveis. Por exemplo, voltando a Descartes, todos os homens que existem pensam. Eu penso, logo existo. Esse exercício também pode ser chamado de silogismo, que é a forma clássica do raciocínio dedutivo.
 
Já a indução é mais complexa. Ao partir do particular para o geral, está buscando a generalização, que é muito mais difícil de ser provada. A dedução pode ser apenas um exercício do pensamento. A indução depende também da experiência. E é nesse ponto que surge a ciência. No método experimental, para provar premissas especulativas. Essa busca é fabulosa na criação de conceitos definitivos, e é justamente na tentativa da busca do conhecimento científico que desenvolvemos nossa capacidade de pensar.
 
O pensamento da indução científica contaminou a humanidade. É claro que pensamos diferente depois do telescópio de Galileu, da maçã de Newton, da relatividade de Einstein.
 
Quando Descartes disse “penso, logo existo”, queria dizer que se existe uma dúvida é porque existe, na verdade, alguém para duvidar. E é isso mesmo que nos transforma em seres humanos. A capacidade de duvidar, e de tentar resolver essa dúvida. Maravilhosa capacidade de observar, pensar, duvidar, inconformar-se, interferir, mudar.
 
Este é o homem. Um ser que pensa e por isso constrói seu futuro, pois seu pensamento nada mais é do que o outro nome que se dá ao seu destino. O homem faz ciência sem perceber, e nem precisa, pois o simples ato de pensar já nos transforma em cientistas, uma vez que somos capazes de modificar o mundo. Só nos resta torcer, e também trabalhar, para que haja mais pessoas interessadas em mudá-lo para melhor, e não o contrário.
 
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