Deixa que eu faço

Desde que o homem começou a formar conjuntos humanos com a finalidade de viver mais protegido e ter mais facilidade para obter caça, a humanidade tem evoluído através de três qualidades: a linguagem, o pensamento e a ação. E essa evolução aconteceu em forma de pequenos saltos, sempre propostos por alguém, dentro do conjunto geral. Esse alguém é do tipo que assume a responsabilidade por fazer algo diferente, que poderá, depois, ser incorporado pelo conjunto. Portanto, evoluímos quando alguém na multidão toma a dianteira e diz algo como “deixa que eu faço!”.
E até hoje é assim. Em todos os ambientes em que vivemos, sempre alguém, diante de uma necessidade, solta o famoso “deixa que eu faço”, o que pode provocar tanto alivio quanto calafrios. Isso acontece porque essa frase, quando pronunciada por alguém que conhecemos, pode desencadear dois tipos diferentes sentimentos: respeito pela pessoa, quando confiamos nela, ou preocupação quando temos lá nossas dúvidas de que ela dará conta do recado.
Em princípio, o “deixa que eu faço” é uma atitude louvável, mas não podemos esquecer que ela envolve um risco, e portanto está ligada a alguns fatores: à responsabilidade, à coragem, à capacidade, à maturidade. Quem diz que vai fazer alguma coisa que afetará outras pessoas, deve saber que está assumindo o risco de falhar e, portanto, deve estar dotado dessas qualidades que são, antes de tudo, a melhor garantia do bom resultado.
 
Deixa, pois eu sou responsável
Responsável é a pessoa que responde pelos seus próprios atos, ou pelos atos de outras pessoas, pelas quais ele é “responsável”. Assumir responsabilidade significa incorporar o demérito de um possível fracasso e, ao mesmo tempo, ter a grandeza de compartilhar o mérito de um possível sucesso. “Deixa que eu faço. Se der certo é mérito de todos. Se der errado eu assumo a responsabilidade”. Essa é a pessoa que queremos perto de nós.
Se, por um lado, ser responsável é “responder pelos próprios atos”, por outro também significa “corresponder” às expectativas das outras pessoas, sejam colegas, chefes, subordinados ou clientes. Quando uma pessoa diz que vai fazer, está assumindo uma responsabilidade que, se não for bem sucedida, afeta não só quem não fez, mas também quem esperava que fosse feito.
A sociedade moderna está construída para valorizar cada vez mais a cadeia de produção. Hoje fazemos tudo coletivamente. Há muito acabou a época do artesão independente, que, como um sapateiro, comprava o couro, cortava, costurava, preparava a sola, montava o sapato e ainda o vendia. Hoje quem faz isso é a equipe, e é justamente dessa mudança que veio o progresso.
Por isso a responsabilidade está tão em alta. A falha de um compromete o trabalho de todos, portanto, o produto final. O ditado “nenhuma corrente é mais forte do que seu elo mais fraco” nunca foi tão moderno. Uma equipe pode ter e até deve ter diferenças. Conhecimentos, habilidades, velocidades, percepções, tarefas podem ser diferentes. Responsabilidade não. Essa deve ser igual para todos os membros. A reação em cadeia provocada por um ato irresponsável aparentemente pequeno pode por tudo a perder.
Portanto, quando você diz “deixa que eu faço”, faça. Se você está tendo que pronunciar essas palavras, é porque aquilo que você está pretendendo fazer interessa não só a você, mas também a outras pessoas, se não você faria sem dizer nada para ninguém.
 
Deixa, que eu não tenho medo
Assumir que se vai fazer também inclui coragem porque o homem, por princípio biológico, é um ser que, apesar de evoluir através das mudanças, em princípio resiste a elas. Nosso instinto é o de resistir a toda atividade que consuma energia – até caminhar, se fosse possível. Fazer algo novo exige, sim, uma dose considerável de coragem, pois quem muda está indo contra uma condição estável. Mudanças incomodam, pois exigem esforço pessoal de desacomodação.
Disse Confúcio: “O homem tem três maneiras de agir com sabedoria. A primeira é a meditação, a mais nobre. A segunda é a imitação, a mais fácil. A terceira é a experiência, a mais amarga”.
Informar a outras pessoas que você vai assumir a responsabilidade de fazer algo, envolve uma experiência que gera medo. Mas todos sentimos medo. É normal e é bom, pois o medo é que nos protege da exposição a perigos e nos preserva a vida. Trata-se de uma condição psicológica previsível, desejada e saudável, no entanto, todos nós ouvimos, em várias fases de nossa vida, conselhos para “não ter medo”.
Coisas do tipo: “vou apagar a luz, mas não tenha medo, a mamãe está no quarto ao lado”; “não tenha medo da prova, você vai se sair bem”; “vá para a entrevista e não tenha medo, o entrevistador não morde”. Lembra-se? E quando alguém deseja falar no afirmativo diz: “tenha coragem”, o que não é o mesmo que não ter medo, e sim ter capacidade para enfrentá-lo e vencê-lo.
O medo é definido como um fenômeno psicológico com forte caráter afetivo, marcado pela consciência de um perigo ou de um mal. Mas, preste atenção: o medo nasce do perigo, mas também das incertezas. E nas incertezas pode morar um perigo real, mas o mais provável é que more um perigo imaginário.
Males da modernidade. Vivemos uma era de incertezas, e, portanto, do medo escondido nelas. Se você tem sentido os efeitos da desconfiança com relação à política, à economia, à paz mundial, está sofrendo do mesmo mal que milhões de outras pessoas que leem o jornal ou assistem ao noticiário e são assaltados pelas notícias do desaquecimento da economia, da falta de empregos, da insegurança que não é apenas física, mas também social, moral e emocional. Os medos morais, de perder o emprego, do dinheiro não chegar, da crise aumentar, são até maiores, porque mais presentes, do que os medos físicos, dos assaltos, do terrorismo, das epidemias.
Para viver melhor, temos que aprender a separar os dois: o medo do perigo do medo da incerteza. E depois disso temos que aprender a lidar com as incertezas, diminuindo seu sentido abstrato. Equivale a dizer: transformar as incertezas em situações conhecidas, portanto sob controle. Para tanto, aumentar a percepção, a informação, o conhecimento a cultura geral, são os melhores atalhos.
Se você tem medo de tomar uma atitude e fazer algo novo, este medo habita o território das incertezas. Se, por outro lado, você tem certeza que está fazendo tudo o que pode, da melhor maneira possível, para ser bem sucedido em sua empreitada, não precisa ter medo, ou pelo menos, pode manter seu medo sob controle. E neste caso, se você disser “deixa que eu faço”, é porque sabe com o que está lidando.
 
Deixa, pois eu sei o que estou fazendo
Sabe mesmo? Espero que sim, pois toda dificuldade enfrentada pressupõe uma habilidade desenvolvida. Se você pede a bola durante o jogo, podemos imaginar que você está mais bem posicionado em campo, e que saberá o que fazer com a bola nos pés após recebê-la. Perder o gol depois de pedir a bola não é lá muito bonito.
Mas às vezes acontece. O acadêmico canadense Laurence Peter, falecido em 1990, disse uma vez que todos somos promovidos até o limite de nossa incompetência. Até hoje sua teoria é lembrada com o nome de “princípio de Peter”, e pode ser aplicada a qualquer lugar onde haja atividade humana.
O que ele queria dizer, é que em uma organização as pessoas vão sendo promovidas em suas funções de acordo com a competência que mostram, mas sempre galgando responsabilidades maiores. Até que um dia, a promoção pode colocar a pessoa em uma função superior à sua competência. Isso basta para acabar com uma carreira de sucesso até então. Cruel, não é mesmo? O professor canadense chama nossa atenção para sempre medirmos bem nossa real condição de aceitar uma tarefa, ou de dizer “deixa que eu faço”.
Todos sabemos que fracassos fazem parte da vida. Mas também sabemos que existe pouca tolerância a eles. Portanto, muito cuidado nessa hora. “Deixa que eu faço” significa exatamente a mesma coisa que “deixa que eu sei fazer”. Se não for, não faça, vai ficar mais bonito.
 
Deixa, porque eu sou adulto
Ser adulto até pode estar ligado com ter idade, mas não necessariamente. O que importa é que é a condição necessária e suficiente para assumir riscos com mais segurança. E isso pode acontecer em qualquer idade, como também pode, a qualquer tempo ocorrer o contrário, e provocar catástrofes. Quase todos os dias podemos encontrar nos jornais notícias sobre pessoas que são vistas como adultas, mas que estão fazendo o que não deveriam fazer. Provavelmente em algum momento disseram “deixa que eu faço” e não fizeram; ou fizeram mal; ou fizeram o mal.
A adultos assim, prefiro as crianças. Estas pelo menos, não dizem que vão fazer – simplesmente fazem. E podem agir assim, pois estão aprendendo e terão suas falhas toleradas, especialmente quando estas não afetarem ninguém e não trouxerem prejuízos maiores.
Assumir responsabilidades, bancar os riscos, confiar nas habilidades são os pré-requisitos do “deixa que eu faço” e são também as marcas registradas do homem adulto. Daquele que avalia a dificuldade e a compara com sua habilidade. Se forem equivalentes, ou se a habilidade puder ser desenvolvida durante a ação, então vá em frente.
O contista e poeta inglês Rudyard Kiplig, que nasceu na Índia e foi o primeiro britânico a ganhar o prêmio Nobel de Literatura (1907) escreveu um poema de grande beleza e força, chamado simplesmente “Se”, no qual ele examina as condições para que uma pessoa possa ser considerada um adulto.
Diz ele que você será um “homem”, no sentido de ser adulto, “se for capaz de manter a calma quanto todos ao teu redor já a perderam e culpam você pela situação”. Segue o poema, dizendo que você será um adulto “se for capaz de continuar a crer em si mesmo quando já todos estão duvidando”, pois a autoconfiança ancorada na realidade é fundamental. Em geral, quando alguém diz “deixa que eu faço” com segurança, está atendendo a essas duas demandas.
Na parte mais bela do poema, o autor lembra que você será um adulto “se, encontrando a desgraça e o triunfo, conseguir tratar da mesma forma esses dois impostores”, pois quando sabemos o que fazemos, o resultado tende a ser previsível e, neste caso, não há bons ou maus resultados, há apenas resultados.
Em outro poema atribuído a Kiplig, encontramos uma reflexão sobre o risco. Ele faz uma comparação entre o risco de tentar com o risco de não tentar. E termina dizendo: “tentar é arriscar-se a falhar, mas lembre-se que viver é arriscar-se a morrer. Aquele que não arrisca não faz nada, não tem nada, não é nada…”.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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