Dilemas morais

– É claro que você pode. Mas você deveria se perguntar se você deve.

 

Com essa afirmação questionadora, o professor Jorge respondeu à minha insolência. Eu havia perguntado, valendo-me de certa liberdade conquistada com o mestre, se eu poderia assinar a lista de presença por meu colega Ricardo, que estava ausente e andava meio pendurado em faltas.

 

Estávamos no curso médico, e aquela era uma aula de laboratório, e meu amigo, como eu, lutava para estudar medicina, pois não vinha de uma família de recursos. Ainda que em uma universidade pública, o curso de medicina é caro, pois precisa de muitos livros e instrumentos, além de revistas e ocasionais cursos e congressos que se aconselha participar. Eu sabia que o Ricardo estava trabalhando, ou deveria estar.

 

E sabia disso porque eu também era da turma que tinha que defender uns trocados para conseguir manter a rotina de um curso extremamente exigente, em presenças e estudo. Com nosso espírito transgressor não víamos nada de mais de um cobrir a falta do outro, assinando em seu nome na lista de presença de vez em quando. Eu não via nada de mal, até aquele dia.

 

Quando o professor Jorge aproximou e contrapôs os dois verbos – poder e dever – ele abriu a porta de um dilema moral que eu jamais havia enfrentado conscientemente. Descobri que há coisas que podemos fazer (basta ter a competência), o que não significa que devemos fazer – e, para decidir, temos que consultar nossa lista de valores pessoais, além da lista de nossas necessidades.

 

A consciência de conduzir sua vida levando em consideração essas duas qualidades – o poder e o dever –, é um sinal da maioridade do homem. Em seu livro O que é ilustração, Immanuel Kant nos explica que há uma imensa quantidade de pessoas que parece que se esforçam para ficar na menoridade; o que, aliás, não tem nada a ver com a idade, e sim com a conduta. Um homem em estado de menoridade é aquele que transfere suas decisões e nega-se a assumir responsabilidade pelo que se faz a outro, um condutor, que define o que o menor pode e deve fazer. Ainda que ninguém esteja livre de receber a influência dos outros, os menores são os que dependem permanentemente dessa influência. E os menores não lidam bem com os dilemas morais da vida.

 

Então um dilema moral nos coloca diante de uma decisão existencial. Mas a escolha não estaria relacionada com a necessidade do momento?

 

Vejamos algumas estórias esclarecedoras. Primeira: Ignácio está passeando com sua namorada Claudia, por quem está perdidamente apaixonado. Eles estão no Rosedal de Buenos Aires, um maravilhoso parque localizado no badalado bairro de Palermo, onde se cultivam mais de mil diferentes espécies de rosas. De repente, Claudia insinua que adoraria ter uma daquelas só para si. Pode Ignácio, em um arroubo, arrancar uma, apenas uma daquelas milhares de rosas e oferecê-la a Claudia, que ele descobriu ser a mulher de sua vida, provando que seu amor não vê barreiras para se manifestar? É claro que ele pode sim, para isso basta ultrapassar a cerquinha meramente delimitadora que separa o passeio do jardim, abaixar-se e colher a rosa que lhe parecer mais bonita. Ignácio pode fazer isso, claro. É fácil e rápido.

 

Mas e a segunda questão?  Deve ele fazer tal travessura?  Se ele achar que sim, estará considerando que aquele jardim lhe pertence, é propriedade dele, portanto pode dispor dele como lhe parecer melhor. Só que o jardim não é do Ignácio; o jardim da rosas é público, pertence à cidade, é propriedade de todos os cidadãos e turistas que por lá passam todos os dias. Aquelas flores foram plantadas para embelezar a cidade, e não para facilitar a vida de um galanteador. Se cada pessoa que lá for decidir pegar uma rosa, adeus jardim. Ignácio pode, mas não deve.

 

Segunda: o jovem Severino está procurando um emprego desde que chegou do Piauí. Ele veio atraído pela informação de que em São Paulo está sobrando trabalho. Ele tem certeza de que vai se dar bem.Recém chegado, Severino é recebido por seus conterrâneos que vivem em uma espécie de república do Piauí, onde sempre cabe mais um, seguindo a lógica da generosidade nordestina. Só que ele seria bem-vindo apenas enquanto estivesse procurando emprego, depois teria que procurar outro lugar para morar, uma vez que já teria renda para pagar um aluguel. Seu dever era, a partir de segunda-feira, encontrar um trabalho. E ele era consciente de seu dever.

 

Com o jornal na mão, bem cedo, foi atrás do sonhado emprego, que lhe daria vida digna a confortável. Mas os dias e as semanas se passaram e Severino percebeu que a vida na cidade grande era mais difícil do que imaginava. Havia, sim, empregos, mas sua parca qualificação não lhe abria as portas de nenhum deles. Severino era um analfabeto funcional. Ele devia arrumar um emprego, mas não podia. Sua permanência em São Paulo estava tremendamente ameaçada e ele se culpava por isso.

 

Terceira: Maurílio é um escritor que tem como costume observar o comportamento das pessoas em ambientes públicos. Naquele dia estava no aeroporto de Congonhas esperando a chamada para embarque. Sentado bem à sua frente está um sujeito com cara de executivo preocupado. Ele fala ao celular enquanto remexe em papéis de uma pasta que equilibra no colo. É um jovem que aparentemente está iniciando uma carreira, e, como tal, anda sobrecarregado e um tanto estressado. Quando desliga o celular começa a reorganizar a pasta que havia se transformado em uma bagunça. De repente, olhou o painel eletrônico, saltou do banco e desatou a correr em direção às escadas rolantes que levam ao piso inferior. Seu embarque havia mudado de portão e já aparecia o aviso de última chamada. Seu impulso foi tal que não percebeu que sua carteira de identidade, que ele segurava em uma mão, e que atualmente precisa ser apresentada junto com o cartão de embarque, escorregou entre sua poltrona e a vizinha. Ele simplesmente não conseguiria embarcar sem ela. Adeus, importante reunião.

 

Maurílio tentou avisá-lo, mas ele já estava longe. Sentiu então que devia fazer algo para ajudar aquele rapaz. Mas ele podia? Decidiu que sim, podia. Devia e podia. Só que para isso ele tinha que apanhar o documento e iniciar a mesma correria, procurando pelo jovem no piso inferior do setor de embarque de um aeroporto enlouquecido. Não seria fácil, mas ele resolveu tentar. E achou o jovem aspirante a CEO, que lhe olhou com espanto e o abraçou com gratidão. A decisão e o esforço valeram a pena.

 

Se os dilemas morais referem-se a essas duas variáveis, a busca da vida digna também está relacionada com a potência e o dever?

 

De fato, nem tudo o que podemos fazer, devemos fazer, e às, vezes, o que devemos, não podemos. Na prática, ocorre uma espécie de jogo entre esses dois verbos. E há sim, uma disputa ética entre ambos. Ignácio podia, mas não devia, por isso não fez. Severino, coitado, devia, mas não podia, por isso não conseguiu fazer. Maurílio podia e devia, por isso fez.

 

Repare que por trás dessas decisões há um terceiro componente: o querer. Kant também se debruçou sobre essa força. Disse ele que nós somos comandados por nossos desejos e nossas vontades, mas que há um terceiro no comando: o arbítrio. No fim é este que dá a palavra final. Ignácio teria colhido a flor se decidisse querer, Maurílio não teria se cansado pelos corredores do aeroporto se não quisesse. Já o querer de Severino ainda teria que passar por um período de estudo, preparação, qualificação. Ainda assim, tudo isso é profundamente dependente de seu querer.

 

No caso da assinatura por meu amigo de faculdade, eu me vi nessa situação de descobrir o que queria fazer com o dilema que estava instalado. Se assinasse estaria enganando a faculdade, o professor e os outros colegas que lá estavam. Se não assinasse, não estaria protegendo um amigo que estava em dificuldades. O que era mais importante naquele momento? A ética ou a amizade?

 

Pois é, a vida muitas vezes joga conosco colocando-nos nessas ciladas. É como se dois anjos brincalhões ficassem observando nosso comportamento e fazendo apostas sobre nossas reações.

 

– Aposto uma nuvem que ele não assina, confio em seu caráter – diz um anjo.

 

– Pois eu aposto minha harpa nova que ele vai assinar, conheço a fraqueza dos humanos – responde o outro.

 

E assim eles vão nos colocando em ciladas, bloqueando o caminho que já conhecemos só para nos ver procurar outros, como se fossemos cobaias em um laboratório. Se você prestar atenção, verá que toda a construção de nossa vida depende da relação harmônica entre o poder e o dever. Na prática, o poder deve se subordinar ao dever, enquanto o dever depende do poder. Confuso? Talvez, mas a compreensão dessa equação semântica pode nos ajudar a evitar alguns mal entendidos com o mundo.

 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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