Dize-me com quem andas…

… que te direi quem és
 
Agrupamentos de pessoas existem desde que existe a espécie humana. No começo os indivíduos se aglutinavam para garantir a sobrevivência física. Juntos seriam mais fortes. Hoje, as pessoas se reúnem também pela necessidade de sobrevivência emocional. Juntos os homens têm identidade, sabem quem são.
 
Jung escreveu: “Ninguém pode se tornar consciente de sua individualidade a menos que esteja íntima e responsavelmente relacionado a seu próximo. Ele só pode se descobrir quando está ligado de forma profunda e incondicional a alguém. Em geral relacionado a muitos indivíduos com quem ele pode se comparar e através dos quais ele é capaz de discriminar a si mesmo”.
 
O psicanalista suíço queria dizer que, se não identificamos qual é o nosso grupo, não podemos identificar a nós mesmos, pois não temos parâmetros de comparação. Não é por acaso que uma frase bíblica foi incorporada pela linguagem popular, que há muito tempo sentencia: “Dize-me com quem andas que te direi quem és”. O equivalente para a psicanálise seria algo como: “Digo-me com quem ando para saber quem sou”.
 
A personalidade
 
Ao observar com quem andamos, criamos uma imagem mais precisa de nós mesmos – uma identidade. Se estivermos felizes com as características de nossos companheiros, isso indica que temos afinidade com eles, e que, até certo ponto, somos como eles. Senão nos sentiremos como peixes fora d’água.
Essa necessidade de pertencer a um grupo explica muitos comportamentos humanos, como o de torcer fervorosamente por um determinado time. Qual é a lógica? Nenhuma. É só emoção. A emoção de se sentir pertencendo a uma tribo, a uma turma, a uma “grei”. Aliás, é a partir dessa palavra – que significa algo como rebanho – que somos classificados como animais gregários (sociais).
 
Por sermos gregários, precisamos encontrar nosso grupo. E o procuramos comparando nossos valores pessoais com os valores dos grupos disponíveis. Quando há coincidência, entramos nele e por ele somos aceitos. E o grupo reforçará nossos valores, o que ajudará a construir nossa personalidade – ou personalidades.
 
Os atores gregos usavam máscaras para dar significado aos papéis que estavam representando. Com essa técnica, um mesmo ator podia representar vários papéis, bastando para isso segurar diante do rosto a máscara do personagem – e trocar de máscara de acordo com a evolução da história. Às vezes um só ator conseguia “dialogar”, alternando rapidamente duas máscaras sustentadas por um pequeno cabo de madeira. O nome latino dessa máscara é persona, e dele derivam as palavras pessoa e personalidade.
 
A psicologia chama de persona a maneira como nos apresentamos perante o mundo, como nos relacionamos com os outros e como somos vistos pelos demais. A persona inclui os papéis sociais que representamos, a maneira como nos expressamos verbalmente, nossos hábitos cotidianos e até o estilo de roupa que optamos por vestir.
 
Poderíamos dizer que a persona é o papel que representamos e não nosso verdadeiro eu. Mas, à medida que representamos esse papel continuamente, nos adaptamos a ele. Em outras palavras, acabamos nos tornando aquilo que rotineiramente representamos.
O papel é incorporado de tal forma que praticamente não podemos mais nos livrar dele, como acontece com alguns atores de cinema ou televisão, que serão para sempre confundidos com seu papel mais marcante.
 
O grupo social a que pertencemos tem papel fundamental na construção de nossa personalidade. Eis a razão pela qual as mães, mesmo sem nada entender de psicologia, costumam ter grande preocupação com as amizades dos filhos e das filhas. Sabem intuitivamente que os jovens, cuja personalidade está em construção, precisam afirmar-se através de personas que, se forem representadas por muito tempo, serão incorporadas. “Cuidado com as más companhias” – esse é um dos principais conselhos das mães zelosas.
 
A pluralidade
 
O lado bom dessa história é o fato de que podemos pertencer a vários grupos sem descaracterizar nossa personalidade – podemos ter várias personas e continuarmos a ser um só, indivisível, porém plural. O indivíduo e sua turma se confundem, mas, ao contrário do que era antigamente, hoje você pode freqüentar grupos tão diferentes como um clube de golfe e uma oficina de teatro, uma igreja pentecostal e uma boate gay, um sarau de literatura na sexta à noite e um jogo no Pacaembu no domingo à tarde.
 
Na comédia romântica Dança Comigo?, com Richard Gere e Jennifer Lopez (remake do filme do japonês Masayuki Suo, de 1996), um advogado caretão, cansado de sua vida rotineira e desbotada, resolve freqüentar aulas de dança de salão. Para sua surpresa, encontra na escola um colega de escritório, dançando como se só tivesse feito isso na vida. No primeiro momento um fica com vergonha do outro, para depois virarem cúmplices dessa “identidade secreta”. É claro que os colegas do escritório ficaram sabendo e os dois viraram motivo de piada, até que deram o troco, mostrando que faziam o que queriam com seu tempo livre porque eram pessoas maduras, estruturadas, dispostas a retirar da vida tudo o que ela pode oferecer.
 
No caso dos advogados dançarinos, a personalidade venceu o preconceito, mas isso não é fácil. Pertencer a grupos díspares expõe a pessoa a situações de conflito, que só podem ser resolvidas pelo exercício da tolerância com as diferenças, o que nem sempre acontece. Há preconceito envolvido na questão? Certamente, mas é assim que a sociedade se comporta.
 
Apesar disso, você tem o direito de não ser meramente confundido com o grupo. Ter o direito de estar onde quiser, com quem desejar, quando lhe der na telha, e comportar-se em todos os lugares com a desenvoltura de quem tem a consciência de que é, acima de tudo, um cidadão do mundo.
 
As personas podem ser alternadas constantemente, sem que haja agressão ao eu interior, só que isso requer maturidade e confiança em sua capacidade de exercer escolhas. Caso contrário, as pessoas vão continuar julgando você pela marca do grupo que você freqüenta. E aí vão continuar aplicando o ditado popular, com suas variáveis, como a do Barão de Itararé: “Dize-me com quem andas e eu te direi se irei contigo”.
 
Ora, um advogado pode ser também um bailarino. Ele não será julgado pela aparente contradição de atividades, e sim pela maneira como se dedica ao que faz em cada momento. O que importa é ser um bom advogado e um bom bailarino, por dedicar-se inteiramente ao que faz em cada momento. O risco da pluralidade é a dispersão de energia que compromete a qualidade. Mas não precisa ser assim, pois temos energia para dois papéis e muitos mais. Na maioria das vezes, o que falta é organização, não energia.
 
Três em um
 
Há exemplos espetaculares de pluralidade humana. Veja o caso de três amigos muito diferentes que se reuniram porque tinham uma paixão em comum: a poesia. Foi em Portugal, no início do século passado. Alberto, o mais velho, era um homem simples, do campo. Quase não estudou, era pacato e escrevia uma poesia singela e contemplativa, como: “O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério”.
 
Já Ricardo era erudito, estudou em colégio jesuíta, formou-se em medicina com louvor. Sua poesia é clássica, racional, moral: “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”.
 
O terceiro amigo, Álvaro, era um homem pragmático, dinâmico, progressista. Preocupado com a evolução do mundo, mostrava uma personalidade audaciosa, impulsiva e às vezes irônica. Estudou engenharia naval em Glasgow, mas não se dedicava a fabricar navios, e sim a construir poemas, através dos quais esperava interferir no mundo. Inconformado com a vida, dizia coisas como: “Quem dera houvesse um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois. Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem…”.
 
Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos são três indivíduos muito diferentes, mas na verdade não são três pessoas, e sim três personalidades de uma só pessoa. São figuras literárias criadas pelo gênio da poesia portuguesa, Fernando Pessoa. Não existiram de verdade – são os heterônimos do poeta.
 
O gênio criativo de Fernando Pessoa foi tão intenso que ele precisou “dar à luz” outros poetas, como que para formar uma equipe. Sua imensa diversidade poética poderia despersonalizar seu estilo perante a conservadora sociedade lisboeta, então ele preferiu dividir a autoria com seres imaginários, dotados de personalidades fortes, com nome, profissão, data e local de nascimento e, às vezes, de morte. No total foram mais de 70 heterônimos. Os três citados acima são os mais conhecidos.
 
Então, pode-se acusar Fernando Pessoa de ter enganado seus leitores? Podemos dizer, em sã consciência, que alguém dotado de tamanho espírito criativo é desfocado, incoerente ou sem personalidade? Ora, ser flexível não significa ser despersonalizado. Ao contrário, significa ser múltiplo, capaz de interagir com as várias faces do mundo, com pessoas e grupos sociais muito diferentes – e aprender com isso. Aumentar nossa percepção do mundo proporciona capacidade de adaptação, que é responsável pelo desenvolvimento – já nos ensinava Charles Darwin. Perceber, adaptar-se, evoluir: o tripé do progresso. Aliás, como disse Fernando Pessoa – ele mesmo, o ortônimo: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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