Domenico de Masi

Muito além do Dolce Far Niente
 
Mais do que defender o ócio criativo, o sociólogo italiano Domenico De Masi tem muito a dizer sobre o comportamento do profissional do futuro
 
Escolha um trabalho que você ame e não terá de trabalhar um único dia em sua vida.” Era isso o que Confúcio dizia no século 5 a.C. Durante os 25 séculos que nos separam desse filósofo chinês, a relação entre o homem e o trabalho já foi revista várias vezes. Os gregos achavam que a finalidade maior da vida dos cidadãos era a vida contemplativa, o chamado bios theoretikos. Já Santo Agostinho insistia na importância da qualidade do trabalho como a principal obrigação do ser humano, acima até de suas convicções espirituais. No Brasil imperial, trabalhar não era visto com bons olhos, uma vez que só os escravos se dedicavam a essa atividade. Hoje, o trabalho é encarado de outra maneira. Um bom exemplo é a célebre frase do físico alemão Albert Einstein, que dizia que o único lugar em que o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.
 
O sociólogo italiano Domenico De Masi é uma das vozes mais ouvidas sobre esse tema. Professor de sociologia do trabalho e diretor da Faculdade da Ciência da Comunicação da Universidade “La Sapienza” de Roma, na Itália, De Masi é autor de cerca de 40 livros sobre trabalho — sete deles lançados no Brasil. De Masi tornou-se conhecido por suas idéias a respeito do que ele chama de “ócio criativo” e de “economia do ócio”. Mais do que conceitos ligados ao dolce far niente, no entanto, as teorias desse sociólogo envolvem conceitos complexos do comportamento pessoal e profissional modernos. A entrevista a seguir é parte das idéias que o professor De Masi apresenta na palestra que fará no dia 30 deste mês, em São Paulo, durante a Career Fair da VOCÊ S/A.
 
A sociedade industrial sabia exatamente que tipo de trabalhador desejava. Hoje, podemos definir com clareza as características dos profissionais que integram o mercado de trabalho?
 
Depois do sétimo dia, Deus descansou. Desde então, os seres humanos continuam com a criação do mundo. Progressivamente, o saber aumentou. Com isso, as necessidades tornaram-se mais sofisticadas e multiplicaram-se também as profissões. A cada dia o progresso tecnológico e a globalização destroem velhos ofícios e inauguram novos. É impossível alcançar essa dinâmica veloz. Por isso, classificar os cargos e as profissões é uma utopia. Assim como também é muito difícil determinar que características cada profissional deve ter.
 
Que peso tem a especialização e a flexibilização no comportamento dos profissionais de hoje?
 
As máquinas se apoderaram dos trabalhos repetitivos e banais. Para o homem restaram as tarefas que exigem flexibilidade e criatividade. Os cargos criativos associam imaginação com capacidade de realização. Para isso, além da especialização, é necessário que o profissional tenha uma vasta cultura geral.
 
No futuro, quais serão as vantagens competitivas dos executivos, especialmente os mais jovens?
 
Uma vez que a maior parte dos trabalhos estará fundamentada na produção de idéias e na capacidade de traduzi-las para a prática, as primeiras duas vantagens competitivas serão a capacidade de fantasiar e a de não perder o contato com a realidade. Outras duas vantagens consistirão na presença simultânea da especialização acompanhada de uma boa bagagem de cultura geral. Por último, sabemos que dois valores fundamentais da atualidade são a percepção da estética e o comportamento ético. Ética e estética passam a ser também vantagens competitivas.
 
O que é um profissional “adaptado” ao mundo atual e como se preparar para desenvolver tal aptidão?
 
Considerando que o mundo está em permanente transformação e que deve ser sempre melhorado, é necessário não se adaptar nunca à situação atual. Um profissional adaptado é um profissional privado da insatisfação necessária para ser criativo, ou seja, é um profissional morto. A única adaptação possível é a relativa a uma situação que ainda não aconteceu. Para isso, o melhor é olhar para o futuro.
 
Há uma teoria que sustenta que, além de estarmos vivendo um tempo de mudança, presenciamos também uma mudança de tempo. O senhor concorda com isso?
Como Daniel Bell, Alvin Toffler e Alain Tourrain, eu também sou um sociólogo que acredita no surgimento da sociedade pós-industrial em substituição à industrial, que, por sua vez, sucedeu à sociedade rural. A transformação da sociedade industrial em pós-industrial aconteceu sob os estímulos de cinco fatores: o progresso científico-tecnológico, o desenvolvimento organizacional, a globalização, a massi- ficação da mídia e a difusão da escolarização. No plano social, além do aumento da expectativa de vida, houve outras mudanças:
 
– passamos a ter capacidade de produzir mais bens, serviços e idéias com menos cansaço físico;
– dispomos de mais tempo livre;
– descobrimos o planejamento em longo prazo;
– vimos emergir valores como intelectualização, criatividade, ética, estética, subjetividade, emancipação feminina, desestruturação do tempo e do espaço e a virtualidade e a qualidade da vida.
 
Como o senhor vê a influência do modelo educacional brasileiro na formação dos jovens e o que eles devem fazer para corrigir as falhas?
 
O modelo educacional brasileiro tende a garantir a persistência das quatro maiores qualidades dos brasileiros: sensualidade, espontaneidade, alegria e hospitalidade. Tudo isso aproxima as pessoas da fantasia. Talvez seja necessário corrigir o sistema educacional de modo a cultivar fantasia e realidade com a mesma atenção.
 
O ócio a que o senhor se refere está relacionado com o impulso criativo e trata-se de um estado de espírito. Esse estado pode ser atingido mesmo quando se faz um trabalho rotineiro?
 
O que eu chamo de ócio criativo consiste num estado de ânimo em que o estudo, o trabalho e a diversão se encontram e em que a fantasia e a realidade atuam com igual intensidade. Por isso, o ócio criativo é oposto ao trabalho rotineiro e à burocracia.
 
O senhor mediu o número médio de horas que uma pessoa vive (cerca de 700 000) e não se cansa de falar sobre a importância de gerir bem esse patrimônio intangível chamado tempo. Qual é a melhor maneira de fazer isso?
 
O que nos ajuda na boa gestão do tempo é o que os gregos e os romanos chamavam de sabedoria. E isso está distante da maioria das pessoas, especialmente quando influenciadas por valores como o estresse da vida americana ou uma certa apatia da vida islâmica. O modelo clássico, latino, pode oferecer a melhor receita para viver bem no mundo atual. Tanto que, no próximo ano, organizarei um congresso sobre esse assunto.
 
Quais são as principais características do modelo latino de gerir o tempo?
Em relação à metade do século 18, quando a indústria apareceu e começou a influenciar a sociedade, os países mais avançados viram dobrar a expectativa média de vida, aumentar o bem-estar e o tempo livre triplicar em relação ao tempo dedicado ao trabalho. Atualmente, vivemos mais e, em geral, trabalhamos menos e melhor. Por que, então, nos parece que o tempo é curto e que precisamos acelerar o ritmo para cumprir nossas atividades? O desafio que o progresso nos impõe é aceitar a inevitável hibridação entre o trabalho e o tempo livre e imprimir à junção de ambos um sinal de vitalidade, de leveza, de plenitude que talvez só a cultura latina ainda seja capaz de garantir. O modelo latino valoriza a agradável tarefa de substituir o tempo definido pelo tempo escolhido e reorganizar os lugares de nossas atividades, de tal forma que trabalho, estudo e diversão sejam uma síntese equilibrada e feliz. Nos países latinos, mais que em quaisquer outros, mantiveram-se a arte do ócio criativo, o culto ao belo, o prazer da solidariedade, o sentido da história, a capacidade de “ser leve como uma andorinha, não como uma pluma”, segundo o poeta francês Paul Valéry.
 
Então a capacidade de aproveitar adequadamente o tempo está ligada ao modelo cultural?
O modelo consumista estressante que hoje triunfa, sobretudo nos Estados Unidos, sabe produzir a riqueza, mas não sabe distribuí-la. Disso derivam diferenças entre as pessoas, como as existentes entre escolarizados e analfabetos, ricos e pobres. A todas essas desigualdades acrescenta-se a desigualdade digital. A falta de recursos tecnológicos provoca atraso e o excesso traz o estresse. O modelo de vida que produz todas essas aberrações consente com o progresso da ciência e da tecnologia, mas ignora a beleza, a sabedoria, a felicidade. A questão da felicidade, por exemplo, coincide só em parte com a do progresso tecnológico, da riqueza e da eficiência produtiva. Tanto que os povos tecnologicamente mais desenvolvidos, ricos e eficientes vêem crescer a cada dia suas contradições e inquietações. Por outro lado, o modelo fundamentalista do Oriente leva ao extremo o papel social da religião e reage às injustiças sofridas por parte dos países dominantes, impondo a seus fiéis um comportamento público e privado estranho às conquistas do pensamento democrático e do estado de direito. A isso se acrescenta a apatia que bloqueia o progresso em quase todos os países orientais.
 
Mas o senhor não concorda que os povos latinos também têm suas contradições?
Sim, mas eles conservam uma atitude que tende ao equilíbrio, à sabedoria, à alegria, à sensualidade, ao acolhimento e à festa popular, algo que quase todos os outros povos já perderam. É por isso que é mais provável que os latinos apresentem um modelo de sociedade capaz de garantir a todos a serenidade econômica sem exigir a renuncia à plenitude do espírito. Mas, para triunfar, esse modelo latino pós-industrial deve passar por uma revolução cultural e organizacional não menos radical que a provocada pelo taylorismo e pelo fordismo.
 
Diante disso, o senhor acha que os executivos brasileiros estão em vantagem em relação aos outros?
 
O problema é que a cultura executiva tende a ser americanizada no mundo todo. Em geral, os executivos ostentam seus conhecimentos de inglês, lêem livros americanos e viajam muito aos Estados Unidos. Agem como multiplicadores do american way of life. Então, as diferenças entre executivos americanos, europeus e brasileiros são marginais.
 
Texto publicado sob licença da revista Você SA, Editora Abril.
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